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Sete meses de Tsipras, que “salvou a Grécia” com um acordo em que não acredita

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Alexis Tsipras durante o discurso de vitória na noite em que venceu as eleições de janeiro

FOTO EPA

Negociou atribuladamente com a Europa, recebeu publicamente uma gravata que nunca o vimos usar, convocou um referendo que surpreendeu o mundo, gozou com as camisas de Yanis Varoufakis, reestruturou o governo, demitiu-se a dizer que salvou a Grécia e vai a eleições antecipadas. Os sete meses de poder de um homem que mexeu com a Europa

“A Grécia está a virar a página”, anunciava Alexis Tsipras a 25 de janeiro deste ano. Era primeiro-ministro eleito há minutos quando se dirigiu aos milhares de gregos junto à Universidade de Atenas, na avenida Panepistímiu. Os gregos tinham acabado de eleger um partido com uma postura marcadamente antiausteridade e que prometia o corte com a troika.

O recém-eleito chefe do governo dizia que aquela era “a vitória de todos os povos da Europa que estão a lutar contra a austeridade”, falava ainda na renegociação da dívida do país e garantia que iria procurar uma “solução mutuamente aceitável”. Tsipras queria pôr mãos à obra: “Hoje festejamos, amanhã começamos o trabalho duro. A troika acabou para a Grécia”.

No domingo em que o Syriza tomou as rédeas do governo, conseguiu cerca de 36% dos votos dos eleitores gregos, o que corresponde a 149 lugares no Parlamento. Faltavam dois lugares para o partido ter a maioria. No dia seguinte, a 26 de janeiro, Tsipras anunciava uma coligação com o partido Grego Independentes, da direita nacionalista. Os opostos juntaram-se: ambos contestavam e rejeitavam a austeridade. A parceria permitia ao Syriza alcançar a maioria Parlamentar.

Os primeiros passos

PATRIK STOLLARZ/AFP/Getty Images

Ainda em janeiro, Alexis Tsipras recebeu o presidente do Parlamento Europeu, Martin Schulz. E no dia 30, Yanis Varoufakis, o então recém-ministro das Finanças, começava uma ronda por Londres, Paris e Roma em busca de apoio para a renegociação do pagamento da dívida pública grega. O governo de Atenas preferiu reunir-se diretamente com os líderes dos diferentes Estados-membros, rejeitando a possibilidade de a troika regressar à Grécia.

"A missão da troika não nos permite ganhar a confiança do povo grego. A nossa primeira ação enquanto governo será rejeitar a racionalidade de questionar este programa através de um pedido para a sua extensão", explicou Yanis Varoufakis.

A 5 de fevereiro, o novo governo de esquerda tomou posse oficialmente, mas não havia tempo para celebrações. Mesmo ao virar da esquina estava a primeira Cimeira Europeia (12 de fevereiro) com a presença de Alexis Tsipras e a primeira reunião do Eurogrupo (16 de fevereiro) com Yanis Varoufakis a assumir funções.

O cerco apertava, o Banco Central Europeu (BCE) deixou de aceitar divida grega como garantia para financiar a banca. Em resposta, naquela que era a primeira sessão parlamentar depois da sua eleição, o primeiro-ministro grego assegurava que a “Grécia não aceitará mais ordens, sobretudo ordens recebidas por email”.

No mesmo dia, 5 de fevereiro, o BCE anunciou que autorizava empréstimos de emergência aos bancos gregos até um total de 60 mil milhões. Este financiamento de emergência, conhecido como ELA (Emergency Liquidity Assistance), é dado pelos bancos centrais nacionais em casos excecionais.

A 28 de fevereiro, a Grécia terminou o segundo programa de resgate financeiro. Em dezembro do ano passado, ainda com o anterior governo, o Eurogrupo tinha aceitado o prolongamento do resgate até esta altura, que deveria ter sido concluído no final de 2014.

O episódio simbólico da gravata

FOTO EPA

Num dos muitos encontros individuais com os líderes dos Estados-membros, Alexis Tsipras encontrou-se como o homólogo italiano, Matteo Renzi. O grego sempre se apresentou sem gravata - um dos sinais, pequenos mas simbólicos, de uma Grécia diferente.

Na conferência de imprensa após o encontro, o primeiro-ministro italiano ofereceu uma gravata de presente a Alexis Tsipras. "Prometo usá-la quando encontrarmos uma solução viável", respondeu o primeiro-ministro grego. Além de uma gravata nova, Tsipras deixou Roma com o apoio do governo italiano. "Acredito que existem condições para conseguir um acordo com as instituições europeias", declarou Renzi na altura.

Desde então, as negociações entre a Grécia e os credores prosseguiram entre otimismos e pessimismos. Foram cinco meses de negociações: primeiro pedia-se um acordo até maio, depois até junho, esticou-se para julho, mas só em agosto é que acabou por aparecer.

YANNIS BEHRAKIS / Reuters

Antes do fumo branco houve muito fumo negro. A 30 de junho, a Grécia entrou oficialmente em incumprimento. Sem sinal de acordo, o país não tinha dinheiro para pagar as suas dívidas. A primeira a ficar por amortizar foi ao Fundo Monetário Internacional (FMI). Pelas 18h em Washington, 23h em Portugal Continental, terminava o prazo para reembolsar 16 mil milhões de euros.

A Grécia acabava de se tornar a primeira economia desenvolvida e o primeiro Estado-membro da União Europeia a não ser capaz de honrar os compromissos assumidos com o FMI. A 13 julho, repetiu o incumprimento: Atenas falhou um pagamento de amortização do empréstimo FMI no âmbito do segundo resgate. O cheque de 456 milhões não seguiu para a sede da instituição em Washington DC, EUA.

OXI: O “não que acabou na saída de Varoufakis

MARKO DJURICA / Reuters

Ainda no final de junho, Alexis Tsipras convoca um referendo para os gregos decidirem se pretendiam aceitar a última proposta apresentada pelos credores. A decisão surpreendeu credores, gregos e não gregos, o mundo inteiro. O Governo era pelo “oxi” - ou “não” - e queria ver se tinha o povo a seu lado - e tinha mesmo.

O “não” acabou por vencer a 5 de julho, com 61% dos votos, deitando por terra as sondagens que falavam em empate técnico. Na sequência deste acontecimento surge a demissão do ministro das Finanças. Varoufakis saía para “facilitar as negociações com os credores”.

ORESTIS PANAGIOTOU / EPA

“Minister No More!”, anunciava Varoufakis no Twitter a 6 de julho. O parceiro de Tsipras desde começo do mandato deixava o barco.

“Fui confrontado com uma certa preferência de alguns membros do Eurogrupo, e demais parceiros, pela minha… ‘ausência’ das suas reuniões; uma ideia que o primeiro-ministro julgou ser potencialmente importante para que ele consiga chegar a um acordo. Por essa razão, deixo de ser ministro das Finanças hoje mesmo”, justificava.

O primeiro-ministro saiu mais do que uma vez em defesa do “amigo”. Em julho e também neste agosto que ainda não terminou. “Varoufakis pode ter cometido erros, como todos nós... Podem acusá-lo do que quiserem no plano político, das suas declarações, do seu gosto por camisas, das férias em Aegina. Mas não podem acusá-lo de ser vigarista, roubar dinheiro do povo ou de ter um plano secreto para levar a Grécia para o precipício”, disse Tsipras no Parlamento, no final de julho.

O princípio do fim: um acordo em que Tsipras não acredita

ALKIS KONSTANTINIDIS / Reuters

Foram cinco meses de intensas negociações, com avanços e recuos. Mas quando a história desencravou, aconteceu tudo muito rápido. A 13 de julho, tudo mudou: os chefes de Estado e de Governo da zona euro chegavam a acordo com a Grécia.

Atenas teria agora de aprovar no Parlamento dois pacotes de medidas de austeridade - uma espécie de prova de compromisso. O primeiro pacote foi a votos a 15 julho, com a violência a regressar às ruas de Atenas: as medidas passavam pela reformulação das taxas do IVA, antecipação de medidas para a sustentabilidade do sistema de pensões, por garantir a independência do instituto nacional de estatística e a transposição de regras que impõem cortes na despesa automáticos em caso de desvios das metas orçamentais. O pacote foi aprovado com 229 deputados a favor, 64 contra (32 dos quais membros do Syriza, incluindo Varoufakis) e 6 abstenções.

Na altura, Alexis Tsipras colocava completamente de parte a demissão e garantiu que só existiam três opções: um acordo em que não acreditava, o incumprimento ou a "escolha de Schäuble e a saída do euro". "Enfrentámos uma luta injusta contra as potências financeiras. Deixámos uma herança de dignidade e democracia na Europa", afirmou o primeiro-ministro antes da votação de dia 15.

Na segunda ronda para aprovar mais um pacote de medidas de austeridade estavam em cima da mesa a reforma do código civil, um esquema de proteção dos depósitos bancários e medidas para reforçar a liquidez dos bancos. Esta votação aconteceu a 22 de julho e passou com 230 votos a favor, 63 contra, cinco abstenções e duas ausências. Entre o Syriza, 36 deputados votaram “não” ou abstiveram-se. A surpresa da noite foi o “sim” de Varoufakis.

Mas Alexis Tsipras parecia ainda não estar feliz com o que tinha conseguido em Bruxelas e dizia aos deputados que no dia seguinte iria voltar a negociar com os credores: "A partir desta quinta-feira, dia 23, há que negociar outra vez as condições do acordo. Temos de utilizar cada aliança na Europa para melhorar o acordo final".

Semanas depois, já em Agosto, as negociações entre a Grécia e os credores cessaram com um aperto de mão e os papéis assinados.

E agora, o que se segue?

BPA

Chegamos assim a 20 de agosto. A Grécia recebeu esta quinta-feira a primeira tranche relativa ao terceiro resgate financeiro, no valor de 13 milhões de euros. O dinheiro destina-se ao pagamento de dividas, entre as quais ao BCE, a quem tinha de amortizar até esta quinta-feira 3,2 mil milhões de euros.

Neste mesmo dia em que o dinheiro chegou e algum já saiu, Tsipras demitiu-se. Porque tem no partido “quem defenda o regresso ao dracma”, porque quer ver se o povo está com ele depois do acordo que o Syriza conseguiu. Há eleições antecipadas a caminho, muito provavelmente a 20 de setembro, e o anúncio veio com uma confissão-acompanhada-de-justificação de Tsipras. “Sei que não alcançámos tudo aquilo que prometemos, mas salvámos o país.”