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Putin e o batíscafo: uma descida em frente às câmaras para reconstruir a História

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Vladimir Putin foi à Crimeia, entrou num batíscafo e desceu 83 metros para inspecionar os restos de um navio bizantino descoberto há meses naquelas águas. Tudo em frente às câmaras de TV, obviamente

ALEXEY NIKOLSKY / RIA NOVOSTI / KREMLIN POOL / EPA

É mais uma cena de ação à maneira do Presidente russo. Por coincidência, no momento em que passam 15 anos sobre o desastre horrível com outro submarino

Luís M. Faria

Jornalista

Vladimir Putin regressou às suas produções típicas. Foi à Crimeia, entrou num submarino e desceu 83 metros para inspecionar os restos de um navio bizantino descoberto há meses naquelas águas. Tudo em frente às câmaras de televisão, obviamente. O objetivo declarado era fornecer mais uma prova da antiga ligação da Rússia – por via do comércio com o Oriente – àquela península anexada pelo seu Governo no ano passado.

Mas a cena, como outras anteriores do mesmo tipo, também visa reforçar a sua imagem de homem de ação, o macho alfa de uma Rússia que recuperou finalmente a vocação imperialista. Pelo menos no seu próprio quintal.

O submarino, na realidade, era um batíscafo, um daqueles aparelhos que tomba de repente nas profundidades. O nome tem afinidades com ‘bathos’, figura de estilo que designa a passagem súbita da solenidade ao ridículo. No caso do Presidente russo não há uma queda, pois o seu estilo sempre associou as duas coisas em simultâneo.

Quando Putin aparece a cavalgar de tronco nu, ou brinca com leões num zoo, ou mergulha no mar e descobre duas ânforas de há dois mil anos (miraculosamente limpas de quaisquer detritos), ou monta numa espécie de asa-delta com cadeira e vai a guiar um bando de aves pelos ares, é sempre em benefício da sua imagem nas sondagens internas – mas o resto do mundo ri-se. Como se riu quando a Rússia gastou 50 mil milhões de euros nuns Jogos Olímpicos de Inverno, e ficou como imagem icónica a foto de duas retretes, lado a lado, sem nada a separá-las, no centro de imprensa em Sochi.

118 militares mortos

Imagem de arquivo do Kursk, submarino nuclear russo que se afundou no mar de Barents, matando as 118 pessoas a bordo

Imagem de arquivo do Kursk, submarino nuclear russo que se afundou no mar de Barents, matando as 118 pessoas a bordo

STRINGER

O despeito pelo modo como o jornalismo internacional cobriu esse evento desportivo, que devia ter sido o momento alto do terceiro mandato de Putin, contribuiu para a sua atitude agressiva nos meses seguintes.

Segundo explicaram vários comentadores, ele a partir daí percebeu que não valia a pena tentar ser levado a sério pelo Ocidente. Ainda que a guerra na Ucrânia tenha outras motivações, mais profundas, e a Rússia tenha entrado numa vertigem patriótica que convém perfeitamente a – e é estimulada por – um regime que já não é capaz de proporcionar aos russos um nível de prosperidade idêntico ao da década inicial do século XXI, a imagem do chefe permanece um elemento essencial. E se essa imagem for promovida ao mesmo tempo que um passado mítico do país é (re)construído a partir de nada ou pouco menos que nada, perfeito.

Por infeliz coincidência, a descida de Putin no batíscafo teve lugar no momento em que se cumpriram 15 anos sobre o desastre do Kursk, um submarino nuclear que se afundou no mar de Barents, matando as 118 pessoas a bordo. Na altura, Putin esperou cinco dias até interromper as suas férias. Recusou, igualmente, a ajuda oferecida pelas Marinhas britânica e norueguesa. Quando inverteu essa decisão, as portas do Kursk foram finalmente abertas, mas já era tarde. Concluiu-se depois que dezenas de tripulantes tinham permanecido vivos durante horas ou dias após o naufrágio.

O Kursk foi um dos maiores desastres navais da história russa, mas quase não afetou a popularidade de Putin, que era muito elevada desde que ele lançara a segunda guerra na Tchetchénia. Agora, há uma segunda guerra em curso, menos admitida mas não menos real. Putin mantém-se extremamente popular graças à anexação da Crimeia. Não deixa de ser irónico que, numa visita presidencial de três dias, o ponto alto seja uma descida num minissubmarino transparente.

Familiar junto da campa de um dos marinheiros russos mortos no interior do Kursk, no dia do 15.º aniversário do afundamento do submarino nuclear

Familiar junto da campa de um dos marinheiros russos mortos no interior do Kursk, no dia do 15.º aniversário do afundamento do submarino nuclear

OLGA MALTSEVA / AFP / Getty Images