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Brasil. Cada vez mais sozinha, Dilma volta a enfrentar as ruas

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Domingo promete ser um dia decisivo para avaliar a força da oposição da sociedade brasileira ao Governo de Dilma Roussef

UESLEI MARCELINO/ REUTERS

Uma mulher frente a um país. Será nas ruas das grandes cidades que a Presidente do Brasil perceberá este hoje se resistir é uma opção viável

As contas mais recentes apontam para que apenas 7,7% dos brasileiros concordem com o Governo de Dilma Roussef. Nem o fantasma do Presidente do confisco, Collor de Mello, bateu tão no fundo. Para já, é com esta base de apoio residual que Roussef pode contar. O resto é uma incógnita. Se,hoje, as anunciadas manifestações da oposição encherem as ruas, Dilma ficará ainda mais isolada, e daqui a dois dias poderá ser apenas uma mulher sozinha, no meio do planalto central.

Uma semana antes do anunciado domingo das manifestações, Dilma convocou os 13 ministros, o vice-presidente e os responsáveis pelos Assuntos Parlamentares para discutir numa reunião estratégica para encontrar uma forma de lidar com a “agenda bomba” que a Câmara dos Deputados e o Senado têm votado. Uma agenda legislativa prejudicial para um Governo fragilizado pelas acusações de corrupção, associadas aos processos Lava-Jato e Pixuleco (que envolvem alegados pagamentos de “luvas” por grandes construtoras e personalidades do Partido dos Trabalhadores), como a recente prisão do influente José Dirceu.

A Presidente recusa-se a aceitar a hipótese de afastamento do cargo por impugnação e, do alto da sua condição de ex-combatente, já disse publicamente que desistir não é uma opção. Mas o cerco parece apertar-se à sua volta. Nas redes sociais crescem as convocatórias para que, em cerca de 100 cidades, os descontentes invadam o asfalto. A expectativa é muita, mas as contas e os prognósticos só poderão ser feitos mais tarde.

Margaridas e Sem Terra

Esta semana, Brasília foi palco para a “Marcha das Margaridas”, grupo de trabalhadoras rurais que demonstrou apoio à chefe do Executivo brasileiro. Também o tradicional Movimento dos Sem Terra e a União Nacional de Estudantes efetuaram um contra-ataque à oposição.

Entretanto, Lula da Silva, ex-Presidente e o principal conselheiro de Dilma Roussef já apontado como podendo vir a ser nomeado ministro, defende a necessidade de maior diálogo, alfinetando a sua sucessora, acusada de se isolar e de não ouvir a equipa. Cada vez mais influente, Lula quer ver Dilma sair do Palácio e viajar pelo país, defendendo os projetos sociais dirigidos à população mais desfavorecida.

Os descontentes da classe média têm-se manifestado de panela e colher de pau na mão

Os descontentes da classe média têm-se manifestado de panela e colher de pau na mão

PAULO WHITAKER/ REUTERS

O problema é que a sempre influente classe média brasileira parece estar cansada do PT e de cada vez que há um discurso de Dilma na televisão, corre para as janelas com panelas e colheres de pau na mão para fazer barulho e demonstrar o seu descontentamento.

O pior é que o cenário económico, com uma inflação mensal da ordem dos 10%, não dá quaisquer sinais de reanimação, e a turbulência monetária na China adensa ainda mais o horizonte dos brasileiros. A China é o maior mercado para as exportações brasileiras de matérias-primas e a desvalorização do yuan também não é uma boa notícia.

A 15 de março, dois milhões de manifestantes ocuparam as ruas brasileiras, criando alguma tensão mas sem conclusões práticas quanto à permanência de Dilma no poder. A dúvida é se hoje os brasileiros voltarão a ficar-se pelas meias tintas ou se decidirão radicalizar a oposição e tentar forçar uma destituição ou uma renúncia da Presidente.

Ainda é cedo para saber quais serão os resultados concretos das manifestações de hoje

Ainda é cedo para saber quais serão os resultados concretos das manifestações de hoje

UESLEI MARCELINO/ REUTERS

À espreita de qualquer cenário de afastamento de Dilma poderá estar já o seu vice-Presidente, Michel Temer. Tido como um especialista na construção de alianças políticas interpartidárias e cuja imagem está a ser vendida para a opinião pública como um sinónimo de sensatez e reserva de estabilidade, Temer poderá ser o sucessor. O próprio Temer disse em público que o país precisa de alguém que possa “reunificar todas as forças partidárias”, declaração que foi interpretada pelos analistas como um sinal de que estaria a preparar-se para assumir o Governo.

Mais uma vez, os brasileiros dramatizam a sua relação com a política. Hoje ficará claro se avançam com o funeral político de Dilma Roussef, a líder sem carisma, ou se irão dar-lhe uma nova oportunidade. A base trabalhista do PT já começou a arregimentar tropas e promete uma reação, com uma manifestação de apoio ao Governo.