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Noiva à força do califa Al-Baghdadi

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Uma das poucas fotos conhecidas de Kayla Mueller, neste caso tirada da sua página do Facebook e ilustrando uma estada em Marraquexe

FOTO D.R

Rapariga yazidi que conseguiu fugir para o Curdistão conta o seu calvário e o da americana Kayla Mueller

Judit Neurink em Duhok

A americana Kayla Mueller, trabalhadora da ajuda humanitária capturada na Síria pelo autoproclamado Estado Islâmico (Daesh, no acrónimo árabe) passou parte do ano e meio de cativeiro como propriedade privada do líder do grupo, Abu Bakr al-Baghdadi. É o que resulta do testemunho de uma rapariga yazidi de 14 anos aprisionada nas montanhas iraquianas de Sinjar, em agosto de 2014, que passou dois meses na companhia de Mueller e contou a sua história ao Expresso. Os yazidi são uma minoria religiosa iraquiana perseguida pelos fundamentalistas.

A rapariga, cujo nome não reproduzimos por motivos de segurança, conseguiu fugir da cidade síria de Al-Shadadiya em outubro de 2014 até alcançar terreno seguro no Curdistão iraquiano. Depois da captura estivera retida pelo Daesh em Mossul durante um mês, tendo sido transferida com outras quatro yazidis — uma delas sua irmã —, em agosto de 2014, para uma casa e, depois, uma cadeia na Síria, onde ficaram encarceradas com Kayla Mueller.

Resgate de cinco milhões

A voluntária americana, então com 25 anos, fora raptada na Síria em agosto de 2013 e acabou nas mãos do Daesh, que exigiu à família um resgate de cinco milhões de euros. Segundo a sua companheira de cárcere, Mueller aprendeu rudimentos de árabe na prisão, onde era conhecida como Kayla Carol. Resultava do nome do pai, Carl, que em árabe é usado como apelido.
Outra estrangeira esteve detida no mesmo espaço. A sua verdadeira identidade é desconhecida, dado que a família decidiu não a revelar para não prejudicar eventuais negociações. Era muito mais velha do que Mueller, afirma a rapariga yazidi, e tinha uma saúde débil.

Ficou para trás quando as yazidis e Mueller foram levadas para uma casa gerida por um dirigente tunisino do Daesh, Abu Sayyaf, na cidade síria de Al-Shadadiya. Foram postas a cozinhar e a fazer limpezas. Sayyaf era considerado o “ministro dos petróleos” do Daesh.
Muitas outras yazidis passaram por ali enquanto esperavam ser oferecidas ou vendidas a gente do Daesh. A rapariga que falou ao Expresso diz que a iraquiana Umm Sayyaf, mulher do jiadista tunisino, tinha papel importante neste comércio.

As quatro raparigas, todas adolescentes, eram mantidas numa sala com Kayla Mueller, que as tentou proteger de maus tratos e violência, por vezes colocando-se em perigo. Mueller ter-se-á tornado uma figura maternal para as mais novas.

Deixava-as sempre que o líder do Daesh, o “califa” Abu Bakr al-Baghdadi, visitava a casa. Nessas ocasiões Abu Sayyaf levava-a para o quarto do chefe, noutra parte da casa, diz a rapariga. “Vi-o muitas vezes cá”, afirma. “E sempre que vinha levava Kayla.”

O “califa” Baghdadi parece ter feito de Mueller sua escrava sexual. Sempre que regressava à sala que partilhava com as raparigas, contava-lhes o que acontecera, não raro a chorar. Dizia que abusara sexualmente dela, ou, no discurso conservador da rapariga que falou ao Expresso, que “casara com ela à força”.

Sórdido comércio sexual

Os do Daesh não costumam casar com raparigas yazidis, a não ser que se tenham convertido ao Islão. Não era o caso das raparigas da casa de Abu Sayyaf. Fonte próxima da família Mueller confirmou que a história contada pela rapariga yazidi é, tanto quanto sabem, verdadeira.
Mueller não foi a única. Uma das yazidis também fora dada a Baghdadi, tendo outra “sido casada” com Abu Sayyaf e uma terceira com Abu Tamim, responsável por angariar novas yazidis para a casa.

Quando a fonte do Expresso fugiu com a sua irmã, em outubro de 2014, pediu a Mueller para ir com elas. A americana recusou, dizendo que o seu aspeto estrangeiro colocaria as outras em perigo se pedissem ajuda à comunidade árabe local.

Um mês depois de terem chegado ao Curdistão iraquiano, em novembro de 2014, a rapariga e a irmã foram interrogadas por americanos sobre a estada com Abu Sayyaf. Tratar-se-ia de agentes das informações, que as mandaram embora sem oferecerem nada a troco da informação prestada.

Mueller viria a morrer durante um ataque aéreo jordano a alvos do Daesh, em fevereiro de 2015. Ao anunciar a sua morte, o grupo extremista referiu-a como “nossa irmã”. Indícios mais recentes sugerem que o ataque tinha como alvo Baghdadi, que não estava ali. Passado um mês ficaria gravemente ferido noutro ataque, noutra parte da Síria.

Em maio de 2015, uma equipa Delta americana levou a cabo uma operação contra a casa de Al-Shadadiya, durante o qual Abu Sayyaf foi morto e a sua mulher capturada. A equipa descobriu muita informação em computadores e dispositivos USB, o que indica que a casa tinha um papel importante na estrutura de comando do Daesh. O FBI não quis explicar porque não fora lançada mais cedo a operação nem comentar outros aspetos das declarações das duas irmãs.

O ataque permitiu libertar algumas raparigas yazidis. Mesmo assim, a que falou com o Expresso não viu as suas antigas companheiras de cativeiro chegar ao Curdistão, o que sugere que terão sido levadas da casa de Al-Shadadiya, possivelmente pouco depois da sua fuga. A rapariga yazidi “casada” com Al-Baghdadi também está em parte incerta.