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A semana negra de Donald Trump. Que o deixou tão popular como antes

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REBECCA COOK / Reuters

Após o primeiro debate entre os candidatos a candidatos republicanos à presidência dos EUA, o bilionário criticou uma moderadora aludindo à menstruação. Os conservadores - e a Fox News – criticaram, mas acabaram por ter de engolir

Luís M. Faria

Jornalista

Foi uma semana intensa para Donald Trump. Na passada quinta-feira teve lugar o primeiro debate entre os homens que disputam a nomeação para candidato republicano às presidenciais norte-americanas de 2016. O papel de anfitrião coube à Fox News, a estação de Rupert Murdoch.

Dirigida por uma velha raposa chamada Roger Ailes, que já era especialista em truques sujos no tempo em que assessorava o então Presidente Richard Nixon, a Fox tinha uma preocupação dupla. Por um lado, contribuir para ajudar os republicanos a escolherem um candidato capaz de bater Hillary Clinton nas eleições. Por outro, enfim, obter ratings elevados, como é objectivo de qualquer canal.

Trump, para a Fox, representa um dilema. Quanto mais tempo se mantiver na corrida, maiores serão as audiências televisivas. Mas a sua presença enfraquece o candidato que acabar por vir a ser escolhido - o qual, presume-se, não será o bilionário. É verdade que ele se mantém bastante à frente em todas as sondagens sobre as primárias republicanas. Mas é demasiado escandaloso para poder ser um candidato viável.

Ele faz afirmações inaceitáveis sobre Barack Obama (teria nascido fora do país e não seria realmente um americano), sobre emigrantes mexicanos (violadores e assassinos que o seu governo manda para os EUA; embora alguns até sejam boas pessoas...), sobre o senador John McCain (foi prisioneiro de guerra durante cinco anos, mas não é herói porque se deixou apanhar), sobre toda a restante gente que designa como estúpida - ele usa e abusa da palavra - por não aceitar a genialidade dele ou o contrariar de alguma forma.

Trump sempre foi vulgar e bombástico, além de pouco fiável em matéria de factos. Mas essas tendências parecem ter-se agravado após a sua experiência a apresentar o reality-show “The Apprentice” (o aprendiz), onde a sua frase característica era “estás despedido!”. Dá muitas vezes a impressão de que gostava de despedir quem o enfrenta. Não podendo fazê-lo, cobre a pessoa de epítetos - outro insulto favorito é “falhado” - e faz a sua própria propaganda. Sempre foi vendedor, e nunca teve medo da hipérbole.

A diferença é que agora, próximo dos 70 anos, deixou de ameaçar que ia concorrer à presidência e lançou-se mesmo na corrida. Se antes era legítimo achar que ele apenas se queria promover, agora há uma possibilidade de ele se deixar encorajar pelas sondagens e querer levar a coisa até ao fim. O que é um risco enorme para o seu partido.

Donald Trump responde, durante o debate, a uma pergunta colocada por Jeb Bush, antigo governador da Florida

Donald Trump responde, durante o debate, a uma pergunta colocada por Jeb Bush, antigo governador da Florida

BRIAN SNYDER / Reuters

“Porcas gordas”, “animais nojentos”, “desleixadas”

No debate da Fox participaram os dez candidatos republicanos mais cotados nas sondagens. A posição deles no palco reflectia os números. Trump, como se encontra muito à frente dos outros, ocupava o lugar central. A primeira questão dos moderadores foi dirigida a todos, mas era claramente destinada a ele. Havia alguém ali que não se comprometesse antecipadamente a apoiar o vencedor das primárias, renunciando portanto a uma candidatura independente? Após uns segundos, Trump levantou a mão. E falou mesmo na vantagem (“leverage”) que lhe dava o facto de poder vir a apresentar uma candidatura independente se não vier a ser escolhido para representar o seu partido em 2016.

Como se estivesse a negociar com o eleitorado, e não apenas a seduzi-lo. Um tique que lhe ficou da sua vida profissional, toda ela feita de negócios para realizar grandes projectos imobiliários.
Após essa questão comprometedora, o debate continuou. A certa altura, uma das moderadoras, Megan Kelly, confrontou Trump com coisas que ele disse a mulheres ao longo dos anos. Por exemplo, chamando-lhes “porcas gordas”, “cadelas”, “animais nojentos” e “desleixadas”, ou sugerindo a uma mulher, em plena televisão, que vê-la de joelhos seria uma bela imagem.

Trump não negou, mas tentou alegar (mentindo) que alguns desses insultos referiam-se a uma única apresentadora. E explicou que não tinha tempo para ser politicamente correcto.
No dia seguinte, queixou-se na CNN de que Kelly o tinha atacado delideradamente. Falou em sangue que lhe saía das orelhas, e de um lugar que não nomeou mas toda a gente percebeu qual era. Essa referência óbvia à menstuação fez com que muitos comentadores da área conservadora lhe caíssem em cima, aproveitando talvez a oportunidade para fazer aquilo que desejavam há meses.

Um conhecido ativista que organiza um evento importante no calendário republicano desconvidou-o, invocando os limites da decência - embora logo tenham aparecido inúmeras na imprensa inúmeras referências misóginas feitas por esse activista no passado recente.

Chegou-se a pensar que a candidatura de Trump acabava ali. Mas ele manteve-se firme, negou que estivesse a falar de menstruação (era o nariz, explicou com o seu típico descaramento) e surpresa, a sua cotação nas sondagens mal tremeu - há até quem diga que subiu. Após uns dias de polémica entre os apoiantes dele e os de Kelly, a Fox levantou a bandeira branca. Ailes começou a telefonar-lhe para o convidar a ir a programas, e Trump acabou por aceitar. Oficialmente, está feita a paz.

A campanha de Hillary Clinton também tem vacilado um pouco e alguns democratas andam tão inquietos que já pedem ao atual vice-presidente Joe Biden que se mantenha de reserva para a contingência da antiga primeira-dama ir ao fundo

A campanha de Hillary Clinton também tem vacilado um pouco e alguns democratas andam tão inquietos que já pedem ao atual vice-presidente Joe Biden que se mantenha de reserva para a contingência da antiga primeira-dama ir ao fundo

CJ GUNTHER / EPA

Hillary também treme

O campo republicano continua, portanto, com um problema. Trump não só impede os candidatos mais convencionais de se afirmarem, como os puxa numa direção extremista que tornará difícil vencer a eleição nacional.

Embora ainda faltem quinze meses até novembro de 2016, os rivais do bilionário, em especial Jeb Bush, já deviam ter começado a ganhar vantagem. E nem a chegada ao terreno de personagens como John Kasich, um senador do Ohio tido como invulgarmente razoável, chegam para dar tranquilidade. Até porque a popularidade deles é irrisória.

Hillary também tem vacilado um pouco, e a polémica sobre o servidor privado onde guardava emails quando era secretária de Estado não a tem ajudado (alguns democratas andam tão inquietos que já pedem ao atual vice-presidente Joe Biden que se mantenha de reserva para a contingência de Hillary ir ao fundo). Mas isso não anula a falta de brilho das campanhas de Bush e de outros concorrentes.

Em suma, há o risco de se repetir 2012, quando uma longa e desgastante primária republicana produziu um candidato muito enfraquecido, Mitt Romney, que Obama derrotou com facilidade. E caso Trump vá como independente, ou se for ele a escolha republicana, esse desfecho fica quase garantido.