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Konami. A decadência de um gigante japonês

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A empresa tem passado meses debaixo de fogo por fãs e jornalistas sobre práticas menos escrupulosas

D.R

Despedimentos, reestruturação, falta de comunicação, escândalos de relações públicas, censura e maus-tratos de trabalhadores. Estas são algumas das acusações que a Konami enfrenta (sobretudo em silêncio). Nota importante: esta é a empresa do PES

O ano de 2015 prometia ser em grande para a empresa de videojogos japonesa Konami, com o lançamento do último capítulo da saga Metal Gear Solid, “The Phantom Pain”, que pode torná-lo o jogo mais vendido até dezembro, e o desenvolvimento de “Silent Hills”, um jogo com um elenco de luxo, que inclui Hideo Kojima, Guillermo del Toro e Norman Reedus, também destinado ao sucesso. Sucede que a Konami despediu Kojima e os problemas começaram.

O afastamento de Kojima, a cara da Konami, abriu uma caixa de pandora que a empresa tem tentado combater

O afastamento de Kojima, a cara da Konami, abriu uma caixa de pandora que a empresa tem tentado combater

Jason Merritt

O caso Hideo Kojima

É preciso recuar a março deste ano, quando começaram a correr rumores de que Hideo Kojima, veterano, vice-presidente da Konami e líder da sucursal Kojima Studios, tinha sido despedido e o seu nome retirado da capa de “Metal Gear Solid: The Phantom Pain” - Kojima é o criador e visionário da série. O despedimento levou também ao cancelamento do projeto “Silent Hills”, um dos títulos mais aguardados da empresa.

A Konami desviou o assunto, não por um comunicado oficial mas através do Facebook da cantora e especialista em dobragens Donna Burke: “Hideo Kojima está a focar-se o mais que pode em terminar o novo Metal Gear Solid”.

Até à data, Hideo Kojima não apareceu em público para falar de “Metal Gear Solid: The Phantom Pain” ou do seu futuro na Konami, sendo apenas citado por terceiros sobre vários assuntos. A ausência reforça as suspeitas de que tenha sido despedido, especialmente quando se considera que foi durante muitos anos a cara pública da companhia. Acredita-se que a Konami esteja apenas a aguardar o lançamento do jogo para anunciar a separação entre a empresa e Kojima. Mas a história não acaba aqui.

Segundo a “Gamespot” - um dos maiores jornais de jogos online, um trabalhador da Konami confirma os rumores: Kojima está de saída da empresa e foi proibido de falar em público e de fazer aparições. Além disso, foi despedido juntamente com os restante membros do seu estúdio e posto a trabalhar sob um contrato de três meses, até ao lançamento do último jogo de “Metal Gear Solid”.

Lançamentos controversos

Uma das situações que se tem vindo a registar com a Konami nos últimos anos é a sua política de lançamento de videojogos: à falta de interesse da companhia em publicitar os jogos aliam-se más decisões, levando a maus números de vendas.

A Konami escolheu lançar a coleção HD da sua franchise “Metal Gear Solid” no mesmo dia em que foi lançado “Call Of Duty: Modern Warfare 3”, a 13 de novembro de 2011. Um frente a frente que o jogo da Konami não tinha hipótese de ganhar, pois “Call of Duty” é o jogo que mais vende em todo mundo - em média, 20 milhões de cópias anuais.

Outra decisão controversa da Konami reportada por Jim Sterling, antigo jornalista do “The Escapist”, foi a de lançar três jogos da série “Silent Hill” no mesmo mês. A saturação do mercado levou a que os três jogos - “Silent Hill: Downpour”, “Silent Hill: HD Collection” e “Silent Hill: Book Of Memories” - saíssem em menos de uma semana.

No mesmo mês, Jim Sterling fez uma entrevista com os criadores de “Silent Hill: Book Of Memories” para tentar promover o jogo e dá-lo a conhecer aos fãs. Mas a entrevista nunca foi aprovada pela Konami, mesmo quando a WayForward - o estúdio que fez o jogo - pediu para que a conversa fosse publicada.

Em 2015, quando a relação entre a Konami e Hideo Kojima piorou, a empresa decidiu não só retirar o trailer jogável de “Silent Hills” das consolas, como apagou qualquer referência ao jogo do seu site.

Falta de comunicação e censura

Como já foi evidenciado, a estratégia de marketing da Konami não é a melhor. Porém, as coisas pioraram quando a companhia procurou ativamente calar as críticas. Jim Sterling foi posto numa lista negra e impedido de cobrir jogos da Konami na imprensa.

O site para o qual Jim trabalhava, Destructoid, foi também banido pela Konami quando publicou a entrevista com a WayForward sem autorização da Konami. Segundo Sterling, “não gostaram da forma como cobríamos os jogos deles, nem das pontuações baixas que por vezes lhes dávamos. A Konami recusou-se a contactar-me, falando apenas com o editor da Destructoid, Dale North”.

O grupo “Superbunnyhop” foi também alvo de censura. A Konami contactou o YouTube para retirar os seus vídeos de investigação da companhia do site, porém a plataforma de vídeos recusou o pedido e permitiu que o vídeo continuasse público.

O compositor de longa data da série “Silent Hill” foi um dos nomes mais sonantes a ser afastado da companhia

O compositor de longa data da série “Silent Hill” foi um dos nomes mais sonantes a ser afastado da companhia

Valerie Macon/ GETTY

Maus-tratos no trabalho

O grupo da “Supperbunnyhop” recebeu do mesmo modo informações de uma fonte anónima na Konami de que centenas de pessoas vão perder o emprego. Além disso, a empresa tem cortado nos gastos, a ponto de não haver luz e as portas de segurança não funcionarem dentro da sede.

Fora o estúdio de Kojima, também as equipas de “Dance Dance Revolution” e outros estúdios da empresa foram fundidas ou convidadas a sair, à medida que a Konami procura fazer a transição para o mercado de jogos de sorte.

Ouçamos Koji Igarashi, um dos criadores da série “Castlevania”, também ele despedido pela Konami: “É uma companhia que gosta de fazer bullying aos seus empregados e isolá-los até que se despeçam”, disse ao site de videojogos IGN. O compositor de longa data da série “Silent Hill” Akira Yamaoka foi outro nome sonante a ser despedido.

Vários outros empregados da Konami falaram com jornalistas, sob anonimato, dizendo que os departamentos dentro da companhia não podem falar entre si, e que muitos trabalhadores de longa data estão a ser relegados a seguranças ou porteiros da companhia.

Uma mudança de direção

Em maio deste ano, pouco depois do escândalo em redor de Hideo Kojima, o presidente Kagemusi Kozuki abandonou o cargo e entregou a posição de diretor-executivo a Hideki Hayakawa. Antigo produtor da empresa, Hayakawa já expressou interesse em levar a companhia para longe das grandes consolas e apostar no mercado de jogos de telemóvel.

A empresa pretende abandonar a produção própria de jogos “AAA” - de orçamento elevado - e investir em equipas outsourcing que desenvolvam jogos portáteis com o nome de vários franchises da companhia. Presentemente, a maior parte das receitas provém da produção de máquinas de jogos de sorte e de investimentos nos sectores elétrico, desportivo e imobiliário. Perante a diminuição de lucros nos videojogos, diz-se que este ciclo vicioso pode levar a empresa a acabar com este departamento.

Ainda em maio, a Konami tirou o seu nome da bolsa de valores de Nova Iorque e preferiu apostar no mercado japonês, não em jogos mas em “slot machines”, culminando esta semana com o lançamento de uma máquina de Pachinko de “Silent Hill”. A notícia levou os fãs, a mais uma vez expressar o seu desagrado.

Aos poucos, uma das companhias que era sinónima de jogos de qualidade, torna-se sinónima de critícas e más práticas.