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Migrantes em Calais. “A fronteira mata, a França não nos quer cá nem nos deixa sair”

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FOTO JUAN MEDINA/REUTERS

Manifestantes em Calais contra os muros de arame farpado, homenagearam os 12 migrantes mortos na fronteira: “Carne para canhão na nossa terra, carne para camião aqui”. A França, sob pressão, deixa crescer uma nova cidade junto à Mancha - a Calais dos pobres. Na “selva” já há sala de aulas, mercearia e igreja

Militantes de associações de defesa dos direitos do homem e de ajuda humanitária, franceses anónimos e alguns refugiados manifestaram-se neste sábado em Calais para homenagearem os 12 migrantes mortos na região desde o início do ano e para denunciarem o extraordinário reforço da segurança da fronteira no Porto e no Túnel sob o canal da Mancha.

Eram entre 200 e 400 manifestantes segundo os números da polícia ou da organização (a conhecida associação de solidariedade Emmaus, fundada pelo falecido abade Pierre, em 1949).

No fim do cortejo – no qual sobressaiam cartazes com slogans como “A fronteira mata”, “Caiam os muros”, “Aplicação dos Direitos do Homem” e “Carne para canhão na nossa terra, carne para camião aqui” - foram lidos os nomes dos mortos e lançados ao mar 12 barcos de papel e outras tantas rosas. Todos morreram na zona, em tentativas clandestinas desesperadas para atravessar a Mancha e chegar a Inglaterra - na linha de caminho-de-ferro, atropelados por comboios em andamento, no cais de embarque de camiões ou na autoestrada que conduz ao Eurotúnel.

Muitos dos franceses que desfilaram na cidade diziam ter “vergonha”. “Estamos no país dos Direitos do Homem, é um escândalo vergonhoso porque a França deixa os imigrantes aqui “ao Deus-dará” nos bairros da lata, não responde atempadamente aos pedidos de asilo e deixa os britânicos fazerem o que querem no porto e na ferrovia, como elevando barreiras de arame farpado e fazendo patrulhas com cães”, exclamava uma senhora. Ao lado dela, um homem repetia uma frase que se ouve muito nos últimos dias, em Calais: “A França não os quer cá, mas também não os deixa sair, estamos num desastroso impasse”.

É sobretudo a construção de altos muros, com três metros de altura, com vedações duplas, reforçadas recentemente com rolos de arame farpado no topo e na base, que é mais visada pelas críticas. Médicos e enfermeiros que prestam assistência gratuita aos migrantes disseram ao Expresso que o número de feridos aumentou consideravelmente devido àquilo que alguns chamam as “muralhas de ferro”. “Temos muitos com doenças devido às condições miseráveis em que vivem, mas agora temos cada vez mais feridos por causa do arame farpado e das quedas quando eles tentam saltar as vedações”, explicou ao Expresso Isabelle Bruand, médica da associação Médicos do Mundo.

As altas vedações, bem como as patrulhas policiais incessantes, a instalação de centenas de câmaras de videovigilância e de alarmes, transformaram todas as imensas zonas do Eurotúnel e do Porto de Calais em autênticos bunkers, aparentemente intransponíveis.

No entanto, alguns migrantes continuam a tentar chegar clandestinamente ao túnel ou subir para camiões em estações de serviço ou no cais de embarque. Para os camiões entram por vezes pagando a passadores que têm cúmplices camionistas ou que, previamente, os corrompera. Os refugiados correm riscos enormes para tentar chegar à Grã-Bretanha, onde muitos dizem ter familiares à espera e onde pensam obter mais facilmente do que em França o direito de asilo, de habitação e de trabalho.

“Os riscos não nos assustam, já vimos tantas vezes a morte na nossa longa viagem que não temos medo de nada”, explicou um sudanês. São de origens diversas, de países africanos e igualmente refugiados das guerras da Síria, do Iraque ou do Afeganistão e têm todos em comum terem percorrido perigosamente milhares de quilómetros enfrentando obstáculos assombrosos.

A Calais dos pobres está a crescer

A situação deles em Calais, onde estarão três mil migrantes de acordo com as estimativas mais fiáveis, encontra-se num lastimoso impasse. Nos dois ou três bairros da lata dos arredores da cidade estão alojados em tendas e barracas. Alguns apressam-se a construir casitas com madeira que gente solidária lhes oferece, porque o inverno e a chuva chegam habitualmente cedo à região. “Não queremos voltar a dormir ao frio e na lama, como no anterior inverno”, explicou um etíope que vai brevemente completar um ano de estadia no local.

O Governo socialista francês, que não deseja denunciar os acordos com a Grã-Bretanha assinados em 2003 e que preveem controlos fronteiriços comuns, com agentes dos dois países nesta região do norte da França, parece estar atualmente numa posição de difícil equilibrismo. “Estamos perante uma situação de refugiados em grande número, temos que fazer tudo para evitar que cheguem até França, mas temos de tratá-los dignamente”, comentou o Presidente François Hollande.

Falta de dignidade e de humanismo, tanto da parte da França como da Grã-Bretanha, é precisamente o que denunciam as associações de solidariedade. “Os acordos transformaram a França no braço armado da política de imigração dos britânicos”, diz a Comissão Nacional (francesa) dos Direitos do Homem.

Algumas associações e políticos franceses pedem a abertura de “corredores humanitários” entre os dois países. Muitos pedem alojamentos com “um mínimo de condições”, em Calais. O Alto Comissariados das Nações Unidas para os Refugiados exige o mesmo à França e denuncia designadamente a situação dramática de famílias com mulheres e crianças que se encontram nos bairros da lata.

Com a França sob pressão, Bernard Cazeneuve, ministro do Interior francês, promete visitar Calais nas próximas semanas. Alguns dizem que o Governo de Paris vai oferecer novas e melhores tendas e “algumas casitas prefabricadas” para melhorar as condições de vida nos acampamentos.

Na “selva”, como é conhecido o maior bairro da lata da região, os migrantes começam a pensar que vão permanecer em Calais muito mais tempo do que o previsto. Além das novas barracas que estão a construir para habitação, existe já uma que foi adaptada para seguirem aulas de francês, outra para rezarem e uma que serve de mercearia. Têm também já ao seu dispor desde há alguns meses, no centro Jules Ferry, não muito longe da “selva”, um local de acolhimento diurno, com sanitários, onde lhes são servidos todos os dias, à tarde, cerca de duas mil refeições.

A alguns quilómetros do centro da bela cidade portuária está a nascer uma nova cidade de Calais – a dos pobres.