Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

Chilenos brindam à morte de Contreras. “Boa viagem para o inferno, assassino”

  • 333

CARLOS BARRIA

Manuel Contreras dirigia a polícia secreta chilena DINA, responsável pela morte de milhares de pessoas durante a ditadura de Augusto Pinochet

Helena Bento

Jornalista

Em "Noturno Chileno", um padre, poeta e crítico literário, Sebastián Urritia Lacroix, julgando-se à beira-morte, recorda a sua vida num longo e ininterrupto monólogo. Um dos acontecimentos que relembra, enquanto está deitado, prostrado na cama, "apoiado num cotovelo", é a primeira visita (e depois as seguintes) a María Canales, uma aspirante a escritora que vivia com o marido e os dois filhos numa casa frequentada pela elite intelectual chilena, entre amigos, artistas e escritores.Ouvia-se Debussy e Webern, falava-se sobre Ezra Pound e recitava-se poesia, enquanto na cave se torturavam os "subversivos".

Para construir a personagem de María Canales, Roberto Bolaño (1953-2003), escritor chileno e autor do livro, inspirou-se em Mariana Callejas, também ela escritora chilena, e proprietária de uma das muitas mansões (a dela tinha três pisos) usadas pela polícia secreta chilena (DINA, fundada e dirigida por Manuel Contreras) para encerrar, torturar e matar todos aqueles que se opunham ao regime ditatorial de Augusto Pinochet, e para planear operações terroristas, como a "Operação Colombo".

Depois da revolução de 1973, Manuel Contreras supervisionou o rapto de milhares de militantes de esquerda. Muitos deles foram detidos e torturados num estádio em Santiago, transformado em centro de detenção. Cerca de 150 morreram, e os seus corpos foram transportados para helicópteros e lançados ao mar, com pesos, para não conseguirem alcançar a superfície. Estima-se que cerca de 40.018 pessoas tenham sido detidas, torturadas ou assassinadas durante a a ditadura de Pinochet (1973-1990). Cerca de 3.095 terão morrido.

O envolvimento de Contreras no assassínio de Orlando Letelier (ministro da Defesa e dos Negócios Estrangeiros de Salvador Allende, deposto após o golpe militar de Pinochet, em 1973), levou os Estados Unidos a exigir a sua extradição para Washington. Pinochet não o fez, mas acabou por dissolver a polícia secreta. Michael Townley, marido de Mariana Callejas, e um dos mais terríficos assassinos ao serviço da DINA, foi um dos agentes envolvidos no crime. Contreras sempre negou a sua participação no crime - atribuindo as responsabilidades à CIA - bem como na maioria dos crimes que lhe foram atribuídos.

Manuel Contreras morreu no sábado, no Hospital Militar de Santiago do Chile. Tinha 86 anos e sofria de várias doenças, como cancro do cólon e diabetes. Quando foi confirmada a sua morte, dezenas de pessoas saíram à rua e reuniram-se na entrada do hospital erguendo cartazes, bandeiras chilenas e copos com champanhe para brindarem à morte de Contreras. Num dos cartazes lia-se: "Boa viagem para o inferno, assassino".