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A memória do nuclear

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“Há um museu pequeno mas muito bem organizado em Nagasaki sobre a bomba atómica. Em 2012, estive lá. Fui ao Japão nessa altura para fazer uma reportagem sobre o país um ano depois da catástrofe do tsunami. E estive em Nagasaki. Não ir ao museu era um pouco como ir a Roma e não ver o Papa.” Crónica de Luísa Meireles, redatora principal do Expresso, no dia em que passam 70 anos desde a bomba de Nagasaki

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Uma foto que se encontra no museu, tremenda na sua evocação: uma criança de lábios apertados carregando o irmãozinho bebé, já morto, no local da cremação

Uma foto que se encontra no museu, tremenda na sua evocação: uma criança de lábios apertados carregando o irmãozinho bebé, já morto, no local da cremação

D.R.

Chega-se ao museu atravessando o Parque da Paz, que os japoneses construíram em memória da bomba que foi lançada a 9 de Agosto de 1945. Matou em segundos 73 mil pessoas, feriu outras tantas, deixou sem casa 120 mil. Ao todo, viviam em Nagasaki 240 mil pessoas. A bomba é uma ferida na cidade e na sua memória.

O parque foi construído em torno do local onde a bomba foi largada. Há um memorial e uma gigantesca estátua apontando o céu. Há uma fonte, lembrando os que morreram por falta de água. Há uma torre queimada de uma igreja e as ruínas enegrecidas de um edifício-prisão.

O museu é simples porque em boa verdade não há muito pouco para contar. Mas há uma foto, isolada, imensa, tremenda na sua evocação: uma criança de lábios apertados carregando o irmãozinho bebé, já morto, no local da cremação. Órfãos.

A foto é de Joe D’Donnell, o marine americano que em 1945 fotografou durante seis meses Hiroshima e Nagasaki. No museu, a foto, que todos os japoneses conhecem, tem uma legenda escrita pelo próprio O’Donnell. Diz ele que, no final, a criança tinha os lábios cheios de sangue, tal a força com que cerrava os lábios.

Para mim, o museu foi aquela foto.

Lembro-me que, em Tóquio, nessa altura toda a gente continuava a falar muito do terramoto do ano anterior. Há um antes e um depois. Nada vai ficar como dantes, garantiam.

Uma portuguesa que vive na capital japonesa dizia que os japoneses fazem questão de sublinhar, durante os treinos sistemáticos a propósito dos terramotos, que não se deve gritar para não assustar os outros e assim não entrarem em pânico. Se assim for, têm mais possibilidades de sobrevivência.

Os japoneses têm razão. Mas são um povo especial, com uma maneira de reagir muito própria, irrepetível se calhar. Foi por isso que me lembrei da foto do menino órfão. Não chorou. Não gritou. Mas apertou os lábios até fazer sangue.

  • Quando o Sol caiu em Hiroshima

    No dia em que se assinalam 70 anos sobre o bombardeamento atómico em Hiroshima, recuperamos um texto publicado na Revista, no dia 5 de agosto de 2000. Conta a história de Shintaro Yokochi, um dos poucos sobreviventes da tragédia. Residente em Portugal e pai de um dos melhores nadadores nacionais de sempre - Alexandre Yokochi -, relembrou ao Expresso os acontecimentos, num testemunho dramático e comovente