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Yokochi - O regresso à vida

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Jorge Simão

Shintaro Yokochi nasceu a 31 de outubro de 1935 na pequena aldeia de Yokohama, próximo de Hiroshima. Com apenas nove anos, presenciou o inferno criado pelo rebentamento da primeira bomba atómica e é um dos poucos que viveram para contar o que se passou no Japão a 6 de agosto de 1945. Ao Expresso, em 2000, contou como nunca esqueceu as pessoas da sua aldeia que morreram nesse dia trágico, principalmente as muitas mulheres que todos os dias iam com os filhos às costas trabalhar nas fábricas de Hiroshima

Fernanda Pedro

O conflito acabou pouco depois do lançamento das duas bombas atómicas que atingiram Hiroshima e Nagasáqui. Pensava-se que nada voltaria a crescer no lugar das cidades destruídas, mas algum tempo depois as pessoas que sobreviveram, como não tinham para onde ir, começaram a reconstruir as suas casas e a vida voltou, aos poucos, a recompor-se.

Em Yokohama, a escola reabriu as suas portas alguns meses mais tarde. No entanto, o pequeno Yokochi começou por recusar-se a voltar às aulas. Não aguentava o mau cheiro que ainda persistia na escola e em toda a região. Reconhece que foi difícil convencê-lo a regressar à vida de estudante. Mas o certo é que no final do ano de 1945 a sua vida tinha, de algum modo, voltado à normalidade.

Os japoneses preocuparam -se em reconstruir o país. A economia japonesa aguentou-se bem, uma vez que os nipónicos foram os principais fornecedores de matérias-primas da guerra da Coreia, em 1950. Por isso, à recessão económica só começou depois de terminada a guerra. Muitas firmas faliram, e a empresa de construção naval de Tadayuki Yokochi, o pai de Shintaro, também não escapou à crise. Chegou a ter 50 trabalhadores, mas depois da recessão ficou reduzida a apenas a uma ou duas pessoas.

Ainda assim, o Japão, habituado a uma disciplina férrea, conseguiu suplantar rapidamente as crises, e cinco anos depois já estava em franca recuperação. Aos poucos foi-se reconstruindo Hiroshima e, segundo a opinião de alguns dos seus habitantes, transformou-se mesmo numa cidade melhor que a anterior.

Com 13 anos, quatro depois do fim da guerra, Shintaro Yokochi foi estudar para o colégio Shudogakuen em Hiroshima, para onde todos os dias se deslocava de comboio. Foi também depois da guerra que a natação começou a fazer parte da sua vida. “Penso que a natação e o contacto com a água foram muito importante para recuperar fisicamente do impacto das radiações”, diz.

A vida das crianças de Yokohama era passada junto à água e todos os miúdos da aldeia sabiam nadar. Era no mar que se faziam as competições e dirimiam as grandes rivalidades com as outras aldeias da região: Mas as competições oficiais eram realizadas nas duas piscinas da cidade, uma de 25 e outra de 50 metros. O estilo preferido de Yokochi era bruços e nas provas regionais conseguia sempre bons resultados.

Aos 18 anos ingressou na Universidade de Waseda, em Tóquio, e separou-se dos pais pela primeira vez. Os bons resultados na natação permitiram-lhe ficar no dormitório dos nadadores e frequentar o curso de Economia Política com a cadeira de desporto. Naquela faculdade era obrigatório o desporto, e quem não conseguisse concluir essa cadeira com aproveitamento não terminava o curso.

A faculdade tinha uma piscina descoberta, onde nadavam de Abril a Setembro. De manhã treinavam às 7h30, uma hora depois tomavam o pequeno almoço e a seguir iam para as aulas. À tarde voltavam a fazer um treino de equipa de duas horas antes do período reservado ao estudo. Regressavam ao dormitório pelas 22h para descansar e retomar o mesmo ciclo no dia seguinte. “A vida na universidade era divertida, mas também de muita disciplina. Tínhamos um capitão e um ‘manager’ que organizava a vida académica e desportiva. Quando o chefe decidia que tínhamos de lavar o dormitório ou lavar e aquecer a piscina com grandes caldeirões de água a ferver — fazíamo-lo mesmo no Verão, para atenuar o frio da água —, todos obedecíamos sem contestar”, lembra Yokochi.

Os campeonatos universitários eram as competições mais importantes dos estudantes no Japão, antes mesmo dos campeonatos nacionais. De Inverno, como não havia piscina coberta, jogavam râguebi, e só no último ano da faculdade a equipa treinou numa piscina termal, aquecida, para participar no primeiro campeonato nacional de Inverno do Japão, em que Yokochi ganhou os 100 metros livres. Nesses campeonatos de 1958 foram escolhidos os nadadores japoneses para participar nos Jogos Asiáticos, e Yokochi foi selecionado e um dos medalhados.

O ano de 1958 mudou por completo a vida de Yokochi. Embora nesse ano fosse candidato aos Jogos Olímpicos de Roma, surgiu oportunidade de treinar uma equipa-lhe a estrangeira num país distante.

Tudo começou quando o Sport Algés e Dafundo pediu à Embaixada do Japão um técnico de natação para treinar a sua equipa e ministrar cursos de natação. Essa informação chegou à secção cultural do Ministério do Negócios Estrangeiros do Japão que, por sua vez, entrou em contacto com a Federação de Natação. Foi assim que Shintaro Yokochi tomou conhecimento do interesse português num treinador de natação.

Além de Portugal, dois outros países fizeram a mesma proposta, a Índia e o Egipto, mas o muito calor desses países dissuadiu-o. O presidente da Federação de Natação do Japão incentivou-o então a vir para Portugal. “Historicamente, Portugal fascina os japoneses, só que na altura não sabia como estava o. país. Apesar de durante a guerra aparecerem notícias provenientes de Lisboa, pensava que Portugal pertencia à Espanha. Isto porque na escola só se falava de Portugal no período dos descobrimentos, daí que só me lembrasse da história deste país até ao período do domínio filipino. Mas quando consultei um mapa apercebi-me de que estava profundamente enganado e que Portugal ainda existia”, revela Yokochi.

Foi assim que em junho de 1958, com uma licenciatura em Economia Política, muita curiosidade e uma grande vontade de ensinar natação, Shintaro Yokochi, então com apenas 22 anos, chegou a Portugal. Vinha com um contrato provisório de três meses, depois alargado para dois anos. Só que Yokochi foi-se apaixonando por Portugal e quem apenas pretendia uma experiência provisória num lugar desconhecido acabou por constituir família e por cá ficar, já lá vão 42 anos.

A deslocação a Portugal transformou-se na oportunidade de pôr em prática a experiência que trazia do Japão. Pensava criar no Álgés e Dafundo uma equipa de nadadores ao mais alto nível. Para isso apresentou uma proposta no sentido de se construir no clube um centro de estágio — uma espécie de “campus” — que permitisse aos atletas conciliar os estudos com a natação. Foi um projecto que nunca avançou.

Assim, logo nos primeiros contactos, Yokochi percebeu que existiam grandes diferenças entre as culturas portuguesa e japonesa, principalmente ao nível da mentalidade e do comportamento. Uma constatação que se confirmou ao observar os atletas.

“Achei-os preguiçosos. Não tinham preparação e faltavam-lhes hábitos de treino. Depois de iniciar os treinos resolvi despedir todos os nadadores e só voltaram quando se comprometeram a trabalhar mais e melhor”, lembra.

Apesar desses contratempos, nunca teve grandes divergências com os atletas e nem a comunicação foi dificultada pelo facto de não falarem a mesma língua. Yokochi chegou mesmo a frequentar um curso de português para estrangeiros na Faculdade de Letras de Lisboa. Não o concluiu, mas reconhece que teve professores muito bons que nunca esquecerá, como Vitorino Nemésio, Marcelo Caetano ou Mário Chicó.

A sua grande paixão foi sempre a natação e o seu empenho nesta modalidade fazia com que passasse a maior parte do tempo na piscina. A principal meta era treinar uma grande equipa de nadadores. “No Japão dão muito valor ao conjunto, treina-se para a equipa e não para o individual” — daí que Yokochi privilegiasse sempre as equipas.

Foi também no Algés e Dafundo que conheceu Irma Delgado, filha de mãe alemã e pai português, que frequentava o clube e mais tarde pertenceu à equipa de natação. O facto de falarem bem inglês ajudou ao desenvolvimento da amizade que surgiu entre ambos. Depois da amizade veio o namoro e mais tarde o casamento, que ocorreu em janeiro de 1963. Mas nesse mesmo ano sofreu um rude golpe com a morte do pai. “Nunca me perdoei por não estar presente na hora da sua morte. Apesar de gostar de estar em Portugal, penso que descurei de algum modo a minha família no Japão e sinto remorsos por isso”, confessa Yokochi.

O ano de 1963 teimava em ser difícil para Shintaro Yokochi. Numa época em que as instituições tinham de estar em sintonia com o regime politico, qualquer voz discordante era penalizada. Aconteceu com Yokochi e o Sport Algés e Dafundo, que tinham algumas desavenças com a Federação Portuguesa de Natação.

Tudo começou quando o seleccionador nacional de natação escolheu uma equipa para os jogos luso-brasileiros, deixando fora alguns nadadores de grande qualidade. Perante essa situação, Yokochi deu uma entrevista a um jornal desportivo em que criticava o seleccionador e a Federação Portuguesa de Natação. Depois da entrevista, a Federação repreendeu-o. O castigo chegou mais tarde, nos Jogos Olímpicos de 1964, em Tóquio, quando foram seleccionados três nadadores do Algés e Dafundo e Yokochi ficou longe da equipa nacional. Quando o Comité Olímpico Português tomou conhecimento da situação e, contra a decisão da Federação, entregou a equipa a Yokochi, dez dias antes das Olimpíadas. No entanto, já era tarde demais e os resultados obtidos em Tóquio ficaram muito aquém das expectativas.

Este acontecimento foi decisivo para a sua permanência em Portugal. “Fiquei de tal maneira revoltado que decidi permanecer em Portugal para mostrar que era capaz de treinar uma grande equipa para os Jogos Olímpicos”, recorda.

Apesar disso, sente alguma mágoa por não ter voltado ao seu país, pensa mesmo que talvez tenha sido um pouco egoísta na decisão porque dessa forma “esqueceu-se” da família que deixara no Japão. Mesmo assim, não se arrepende de ter escolhido o nosso país para viver. Aqui lhe nasceram três filhos, Ana, em 1964, Alexandre, em 1965, e Luísa, em 1970, e a sua vida, que estava já dividida entre os dois países, ficou ainda mais presa a Portugal. “Hoje, sinto-me tão japonês como português”, confessa.

E faz questão de sublinhar que não veio para Portugal por dinheiro, mas pela convicção de que estaria em condições de preparar nadadores para competir a nível mundial. “O treinador faz sempre todos os possíveis para um atleta dar o seu máximo. Naquela época, apesar da falta de condições, os nadadores tinham um grande espírito de sacrifício. Hoje, existem mais condições, mas falta o mais importante, a paixão pela natação. Toda a vida me dediquei a esta modalidade e nunca exerci nenhum cargo relacionado com o meu curso, mas garanto que fiz sempre aquilo que mais gostei.”

Depois dos Jogos Olímpicos de 1964, Yokochi cimentou ainda mais a sua ligação a Portugal ao começar a dar aulas de natação na Academia Militar. Em Novembro de 1969 foi convidado a formar e treinar a equipa de natação do FC Porto, aonde se deslocava todos os fins de semana. Em 1971 deixou o Algés e Dafundo e começou a treinar nadadores individuais.

Em 1972 recebeu uma proposta do Benfica e aceitou. Esse período foi muito importante na sua vida, porque foi no clube da Luz que o seu filho, Alexandre Yokochi, começou a escalada na natação europeia e mundial. O expoente máximo da carreira de Yokochi deu-se com a participação de Alexandre na final dos 200 metros bruços nos Jogos Olímpicos de 1984. “Esse foi um dos momentos mais felizes da minha vida. É o sonho de qualquer treinador e, tratando-se de um filho, a alegria ainda é maior.” Em 1993 abandonou o Benfica e a-natação de competição.

Atualmente, dedica-se à gestão de duas empresas na área da exportação e do seu restaurante japonês no Bairro Alto. Da natação mantém apenas as aulas na Academia Militar, mas, ainda assim, o “bichinho” permanece. Os japoneses convidaram-no, e no ano passado até participou num campeonato mundial de natação de “masters” — veteranos — em Marrocos.

Com uma vida repleta de emoções, não esquece a sua infância no Japão, que considera, apesar de tudo, muito feliz. A guerra e a bomba atómica influenciaram -no para sempre. “Ainda hoje sonho com a guerra e com a bomba. Passei momentos dramáticos que nunca irei esquecer. Sou contra os conflitos armados. As pessoas e os países não se devem desafiar, mas se existem actos de terrorismo, devem ser punidos. O pacifismo é muito bonito, mas se for necessário deve utilizar-se a força para combater as injustiças.”

A bomba é uma sombra que paira na sua vida, e Shintaro Yokochi tem consciência de que ele e a mãe, já com 92 anos, são dos poucos que restam para contar o que se passou no Japão no dia 6 de agosto de 1945. Por isso, este ano serão convidados de honra da vila de Sakamachi — Yokohama, nas comemorações do 55.° aniversário da bomba, e homenageados na cidade de Hiroshima.

  • Quando o Sol caiu em Hiroshima

    No dia em que se assinalam 70 anos sobre o bombardeamento atómico em Hiroshima, recuperamos um texto publicado na Revista, no dia 5 de agosto de 2000. Conta a história de Shintaro Yokochi, um dos poucos sobreviventes da tragédia. Residente em Portugal e pai de um dos melhores nadadores nacionais de sempre - Alexandre Yokochi -, relembrou ao Expresso os acontecimentos, num testemunho dramático e comovente