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Quando o Sol caiu em Hiroshima

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REUTERS/U.S. Army/Hiroshima Peace Memorial Museum/Handout via Reuters

No dia em que se assinalam 70 anos sobre o bombardeamento atómico em Hiroshima, recuperamos um texto publicado na Revista, no dia 5 de agosto de 2000. Conta a história de Shintaro Yokochi, um dos poucos sobreviventes da tragédia. Residente em Portugal e pai de um dos melhores nadadores nacionais de sempre - Alexandre Yokochi -, relembrou ao Expresso os acontecimentos, num testemunho dramático e comovente

Fernanda Pedro

O céu estava claro e sem nuvens e a manhã anunciava-se ensolarada na aldeia de Yokohama; a pouco mais de um quilómetro de Hiroshima, no lado oposto da baía do mesmo nome. Frequentava o quarto ano da instrução primária e já poderia estar de férias se a guerra, que parecia não ter fim, não nos obrigasse a permanecer nas aulas no início de Agosto. Passava pouco das 8 horas da manhã e o professor falava calmamente, quando de repente um clarão enorme inundou a sala de aula. Era uma luz azul tão intensa que por momentos fiquei encandeado e não consegui ver nada. Apesar disso, corri para a janela e vi uma bola de fogo no cimo do monte. Seguiu-se um estrondo enorme e, por instinto, saltei pela janela. Depois ficou tudo escuro e um vento muito forte e quente abateu-se sobre nós, as janelas estilhaçaram-se e os vidros foram projectados em pedacinhos por todos os lados, as colunas contorceram-se e a escola ficou torta. O pânico foi total. Alguns dos meus colegas ficaram deitados no chão e os seus choros tornaram-se angustiantes. Senti um formigueiro percorrer-me o corpo e a boca secar. Naquele instante pensei: o Sol caiu.

Enquanto uma nuvem de fumo ia devorando o céu, pude verificar que aquele vento que se seguira ao estrondo tinha destroçado grande parte da aldeia. Com as pernas a tremer e sem perceber o que se estava a passar, corri em direcção a casa. Ao chegar perto dela reparei que o jardim tinha sido arrancado, as colunas que suportavam a casa esta tortas e o telhado partido, mas, apesar disso, a casa ficara de pé. Lá dentro, nada estava no mesmo sítio. A minha mãe tentava pôr um pouco de ordem nas coisas e o meu pai, que pertencia a um grupo de protecção civil, já tinha partido para Hiroshima. Corri em direcção ao monte que ficava sobranceiro à casa, esgueirando-me por entre os destroços. Senti as pernas a fraquejar e o coração a bater cada vez mais depressa. O calor era intenso e caía uma chuva preta que se misturava com as lágrimas que me escorriam pela cara. Quando cheguei ao cimo do monte, pensei que o Inferno tinha descido à Terra. Lá em baixo, na baía, os pescadores atiravam- se à água para escapar ao vento que os queimava e uma coluna de fumo subia pelo céu até perder de vista. Não queria acreditar no que os meus olhos viam, Hiroshima tinha desaparecido.

Os edifícios ou tinham caído ou as paredes que lhes restavam balouçavam como se fossem de cartão. As chamas brotavam dos escombros e começavam a propagar-se, impelidas pelo vento ameaçador. Aterrado, desci novamente até à aldeia e comecei a vislumbrar, formas humanas que se moviam como numa procissão de fantasmas. Vinham de braços erguidos, afastados do corpo, as mãos em frente ao peito e gemiam. Compreendi, então, que eram pessoas queimadas a procurar evitar que os braços lhes tocassem nos corpos. Vinham nus ou cobertos por pedaços de roupas que se confundiam com as peles queimadas e penduradas. Os rostos esta contraídos pela dor, mas os seus lábios já não articulavam uma palavra, faziam apenas alguns gestos em silêncio.

A minha escola, ou o que restava dela, serviu para acolher os feridos e transformou-se numa espécie de hospital. A ajuda para aliviar dores não era muito eficaz porque ninguém sabia ainda do que se tratava, apenas se dizia que tinha sido lançado um novo tipo de bomba. Não havia medicamentos para tratar aquelas pessoas que iam chegando cada vez mais e mais. Muitas acabaram por morrer nas horas seguintes. Durante todo o dia um cogumelo de fumo pairou no céu e a chuva preta não cessou de cair. Essa foi a noite mais longa da minha vida. Fiquei sozinho em casa. O meu pai continuava em Hiroshima em missão de salvamento e a minha mãe dava assistência aos feridos no hospital. Encolhi-me num canto do que restava do meu quarto. Na escuridão da noite sentia apenas o corpo a tremer e as lágrimas a correrem-me pelo rosto. E, apesar do cansaço, tinha medo de adormecer.

US NATIONAL ARCHIVES / HANDOUT

No dia 9 de Agosto, fui a Hiroshima com os meus pais e a equipa de salvamento. Ia procurar ajudar a encontrar os nossos familiares e amigos desaparecidos. Quando lá cheguei, vi a cidade de uma ponta à outra. Estava toda destruída e apenas algumas, poucas, estruturas de betão teimavam em manter-se de pé. A imagem era desoladora. Os corpos queimados amontoavam-se pelas ruas destruídas e nós tínhamos de os desviar com os pés para podermos passar. Ao fim de algum tempo já estava completamente anestesiado e não me assustava quando levantava os destroços e deparava com mais um morto dizia simplesmente ao meu pai ou à minha mãe: aqui está mais um.

As buscas para encontrar sobreviventes eram na maioria dos casos infrutíferas. Uma das pessoas que encontrámos com vida era uma senhora conhecida do meu pai, uma rapariga muito bonita que à primeira vista parecia não estar ferida, mas que quando se voltou verifiquei que tinha só metade da cara, a outra metade tinha desaparecido, era apenas carne viva. A cada passo deparava com uma cena de horror. Ao percorrer uma das ruas, tropecei numa metade de um cavalo. A palha saía do que restava da barriga do animal e a outra parte tinha, pura e simplesmente, desaparecido. Nas paredes em ruínas viam-se silhuetas de corpos que se tinham desintegrado. Os corpos haviam desaparecido e apenas restavam as imagens do que aquelas pessoas tinham sido. Pareciam radiografias gravadas nas paredes. Um cheiro nauseabundo e insuportável espalhou-se por toda a região. Durante semanas deram à costa inúmeros cadáveres de pessoas que se tinham lançado à água para fugir às consequências da explosão. Por isso, vimos milhares de corpos inchados a flutuar na baía de Hiroshima.

Entretanto, a escola de Yokohama continuava a funcionar como hospital, e os meus pais sem ir a casa, nem para dormir. A prioridade máxima era ajudar as vítimas que, na maior parte dos casos, acabavam por morrer. Podiam durar horas, dias, até semanas, mas acabavam por não resistir. Mesmo àquelas que pensavam que não tinham sofrido nada surgia-lhes, algum tempo depois, uma pequena ferida que crescia rapidamente e se espalhava por todo o corpo. As chagas pareciam cobertas de um pó branco, mas quando as observávamos mais de perto percebíamos que o branco pertencia, afinal, a larvas minúsculas que se contorciam na carne já apodrecida. E, como se tal não bastasse, as moscas colavam-se pegajosamente às feridas. Era horrível ver morrer as pessoas e não saber como as ajudar, porque ainda era desconhecida a causa de toda aquela calamidade.

Também muitas das pessoas que integraram missões de salvamento acabaram por morrer. Naturalmente, também eu e os meus pais fomos atingidos pelas radiações e ficámos fracos. Senti-me sem forças e durante muitos meses não consegui endireitar-me completamente, nem ficar muito tempo de pé. Sangrava das gengivas e o cabelo caía-me abundantemente. O meu pai foi aquele que durou mais de toda a equipa de salvamento de que fazia parte, mas mesmo assim morreu cedo, aos 57 anos. A minha mãe e eu conseguimos sobreviver, mas somos vigiados por médicos e ficámos com um cartão que ainda hoje nos acompanha e identifica como pessoas que foram sujeitas a radiações.

Na altura, os homens eram educados de forma a não sentir medo e nunca chorar, e eu sempre fiz um esforço enorme para mostrar a minha força. Como já tinha assistido a algumas destruições e mortes provocadas pelos ataques aéreos, pensava que estava preparado para tudo, mas afinal, nem as imagens mais terríveis da nossa imaginação podem ser comparadas com as que foram provocadas pela bomba atómica. Apesar dos meus nove anos, nunca mais vou esquecer aqueles dias em Hiroshima.

  • Yokochi - O regresso à vida

    Shintaro Yokochi nasceu a 31 de outubro de 1935 na pequena aldeia de Yokohama, próximo de Hiroshima. Com apenas nove anos, presenciou o inferno criado pelo rebentamento da primeira bomba atómica e é um dos poucos que viveram para contar o que se passou no Japão a 6 de agosto de 1945. Ao Expresso, em 2000, contou como nunca esqueceu as pessoas da sua aldeia que morreram nesse dia trágico, principalmente as muitas mulheres que todos os dias iam com os filhos às costas trabalhar nas fábricas de Hiroshima