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O homem que pode tramar Lula e Dilma: Dirceu, que já teve duas caras e dois nomes

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A sede de poder de Dirceu criou sérios problemas ao PT de Lula e Dilma

Ueslei Marcelino / Reuters

A vida de José Dirceu, o homem que já foi o n.º 2 de Lula, é mais rica em peripécias do que qualquer telenovela brasileira. Mete luta contra a ditadura, exílio, plásticas para mudar de rosto, anos de vida com outro nome e uma ambição onde a prisão poderá ser o único limite

Dizer que o mineiro José Dirceu de Oliveira e Silva é corrupto é o mesmo que tentar comparar um homem hiperambicioso e talentoso com um manga de alpaca que aceita envelopes para facilitar autorizações burocráticas. Dirceu, ex-número 2 do Presidente Lula entre 2003 e 2005, foi também um herói do movimento estudantil e uma das personagens que mais contribuiu para a chegada do PT ao poder nas presidenciais brasileiras de outubro de 2002.

Agora, tudo indica que Dirceu respira e transpira corrupção; subornou e aceitou subornos. E que é um homem que ama o poder e quer ter poder. Um sobrevivente, vítima da sua desmedida ambição.

Este camaleão, em português de Portugal, lutou contra a ditadura quando era estudante universitário em São Paulo. Inteligente, de palavra fácil, cedo sobressaiu entre os colegas. Daniel era o nome de código que usava quando foi em preso em 1968, por ocasião do 30.º Congresso da União Nacional de Estudantes, em Ibiùna.

Em setembro do ano seguinte saiu em liberdade; ele e outros catorze presos políticos foram deportados para o México, em troca da libertação do embaixador dos EUA, Charles Burke Elbrick, que tinha sido raptado pelos guerrilheiros que lutavam contra a ditadura brasileira. Mais tarde, Dirceu exilou-se em Cuba e mudou de cara.

 Dirceu a saudar grupo de apoiantes depois de ter sido condenado em 2013

Dirceu a saudar grupo de apoiantes depois de ter sido condenado em 2013

Reuters

Com esta primeira cirurgia plástica feita em Cuba, o rapaz que nasceu a 16 de março de 1946 em Passa Quatro deu um passo decisivo no seu percurso de cidadão “anfíbio”, termo que o próprio utilizou para se definir numa entrevista citada pelo jornal brasileiro “O Globo”, num artigo publicado em novembro de 2013. Dirceu falava então sobre a sua “trajetória, a adolescência como office-boy, as múltiplas funções na carreira pública, a militância política e a vida na clandestinidade durante a repressão. O termo [anfíbio] pode explicar também como o ex-chefe da Casa Civil, que, segundo amigos e inimigos, aspirava suceder ao então presidente Lula, despencou do céu do Planalto para o inferno da condenação a dez anos e dez meses de prisão”, na sequência do escândalo do Mensalão.

Em conversa com o Expresso, o politólogo brasileiro Octávio Amorim Neto diz que Dirceu foi “o grande organizador e construtor institucional do partido [PT] até à chegada deste ao poder nacional em janeiro de 2003. Durante sua passagem pela chefia da Casa Civil de Lula entre janeiro de 2003 e junho de 2005, foi encarregue de conduzir o relacionamento da Presidência com sua ampla e heterogénea base de apoio legislativa, que incluía alguns partidos de direita, muito dos quais haviam sido duros adversários do PT até 2002. Foi no bojo do esforço de estabilização da precária maioria parlamentar de Lula que teve origem o famoso escândalo do Mensalão, alcunha dada a um esquema ‘heterodoxo’ de obtenção de apoio político concebido por José Dirceu”.

É a partir desta altura que o mundo inteiro fica a conhecer Dirceu, que já fora Daniel nos tempos da militância estudantil contra a ditadura, e também Carlos Henrique Gouveia de Mello quando decidiu regressar clandestinamente ao Brasil em 1975, como um potencial corruptor em grande estilo cinematográfico, com uma história de vida que revela persistência e tenacidade na luta pelo poder.

O homem pensa em grande, atua em grande, parece corromper em grande e tem a “ambição de suceder a Lula”; quem o diz é o economista Paulo de Tarso Venceslau, no já citado artigo de “O Globo”, intitulado “José Dirceu: do céu do planalto ao inferno da prisão”. Tarso que fora amigo de Dirceu quando ele regressou ao Brasil com uma identidade falsa e uma cara nova em 1975, afirma: “Dirceu nunca foi um ‘trator’ de Lula. Ele sempre foi um trator de si mesmo. Seu projeto era ser o sucessor de Lula. Nunca respeitou o Lula e nunca escondeu que, para ele, Lula era um atraso para a esquerda”.

 Ar sóbrio e solene, Dirceu no momento em que anunciou a sua resignação em Brasília em junho de 2005

Ar sóbrio e solene, Dirceu no momento em que anunciou a sua resignação em Brasília em junho de 2005

ANA NASCIMENTO/EPA

“Enquanto o Lula foi e é o grande líder político do PT”, Dirceu, como chefe da casa civil do Presidente, era “o ministro mais próximo do Presidente. No Brasil, não existe o cargo de primeiro-ministro, mas o Dirceu foi, diversas vezes, considerado como o equivalente a um primeiro-ministro”, explica Amorim Neto, professor de Ciência Política da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, em conversa com o Expresso. “A sua condenação, assim como a de outros políticos, pelo Supremo Tribunal Federal [TSF] por conta do seu envolvimento no Mensalão, foi um facto sem precedente na história brasileira porque, até então, o TSF sempre relutara em condenar políticos de alto escalão. A condenação de José Dirceu significou também um duríssimo golpe na imagem do PT, do qual o partido não se recuperou até hoje”, acrescenta Amorim Neto.

No fim da ditadura, diz-se que Dirceu fez uma segunda plástica para recuperar a sua verdadeira cara e abandonar a identidade de Carlos Henrique Gouveia de Mello, que usava quando nasceu o seu filho Zeca. Será que este camaleão anfíbio da política brasileira vai mudar de cara outra vez, depois de passar o furacão Lava Jato que o fez regressar à prisão na última segunda-feira?