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Rubén Espinosa, o número 88. A primeira morte de um jornalista deslocado na capital do México

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Várias cidades do México foram palcos de repúdio ao assassinato de mais um jornalista no México. Amigos e colegas pediram "justiça"

FOTO GETTY IMAGES

O assassínio do repórter fotográfico de 32 anos, na Cidade do México, é um “marco” na violência contra a imprensa no país, diz a Article 19, uma organização internacional de defesa da liberdade de expressão e de informação

Raquel Pinto

Raquel Pinto

Jornalista

Oitenta e oito jornalistas foram mortos este ano no México, considerado um dos países mais perigosos para o exercício da profissão. Os dados da Article 19, uma organização não governamental (ONG) com vista à promoção e defesa da liberdade de expressão e do acesso à informação, foram divulgados em comunicado desta segunda-feira, depois de familares terem feito o reconhecimento do corpo de Rubén Espinosa Becerril, no domingo.

O seu nome fez correr tinta este fim de semana. Espinosa foi brutalmente assassinado na Cidade do México, na última sexta-feira. As autoridades mexicanas só no domingo, depois de os familiares terem reconhecido o corpo, confirmaram oficialmente a identidade do repórter fotográfico, de 32 anos,

Tinha sido baleado e apresentava sinais de tortura, juntamente com outras quatro mulheres, num apartamento num bairro de classe média em Narvarte. As circunstâncias do crime não são conhecidas. Terão sido os vizinhos a avisar a polícia local, segundo a France Press. O jornalista fez o último contacto com a família às 14h desse fatídico dia. E depois não deu mais sinal. O alerta chegou à Article 19, que participou o desaparecimento de Espinosa nas redes sociais.

Entre domingo e segunda-feira decorreram manifestações em várias cidades do México, como Japala, Oaxaca, Acapulco e Guadalajara. Anónimos, ativistas, colegas e amigos exigiram “justiça” face à impunidade nos crimes contra jornalistas.

Especialista em temas sociais e protestos, Rúben Espinosa viu-se forçado a abandonar o estado de Vera Cruz há dois meses. Admitiu publicamente, numa entrevista ao jornal digital “Sinembargo”, que estava a ser vigiado e perseguido por homens desconhecidos, tendo sido alvo de atos intimidatórios. Em 2013, denunciou agressões policiais quando fazia a cobertura de uma manifestação estudantil. A insegurança em Vera Cruz é também reconhecida por causa da violência associada ao narcotráfico.

“Não confio em nenhuma instituição do Estado, não confio no governo, temo pelos meus colegas, temo por mim”

Várias organizações mexicanas têm exigido recorrentemente uma investigação eficaz aos crimes contra jornalistas e às autoridades federais e estatais a aplicação de medidas urgentes que garantam a segurança dos profissionais.

“A negligência das autoridades locais em assegurar proteção está nitidamente em foco”, comentou Dário Ramírez, o diretor para o México da Article 19, a propósito da trágica notícia da morte de Espinosa. O responsável já tinha admitido no início de julho, em declarações ao canal global de notícias online Vice News, que 2015 é o ano de “maior violência” contra jornalistas mas também o de “maior silêncio”.

Pelo menos 12 jornalistas foram assassinados desde que Javier Duarte tomou posse como governador de Vera Cruz, em dezembro de 2010. Tem sido acusado de indiferença e hostilidade.

Num encontro com os meios de comunicação da cidade de Poza Rica, no passado dia 30 de junho, Javier Duarte disse ter conhecimento de que há jornalistas com vínculos a grupos organizados. “Portem-se bem, peço-vos. Sabemos que trilham caminhos errados. Não confundam a liberdade de expressão com a representação da expressão de delinquentes através dos media. Vamos sacudir a árvore e vão cair muitas maças podres” avisou, garantindo que aqueles que não têm qualquer ligação a infratores “não terão de se preocupar”.

Espinosa abandonou o estado de Vera Cruz onde trabalhava há sete anos e fez um regresso forçado à Cidade do México, onde viveu até aos oito anos. Mudou-se à pressa, à procura de segurança. “Não confio em nenhuma instituição do Estado, não confio no governo, temo pelos meus colegas e por mim”. Foi desta forma que reportou a sua situação à Article 19, sediada em Londres, e ao Comité Para a Proteção dos Jornalistas, em Nova Iorque. Espinosa colaborava com a revista “Processo” e as agências Cuartoscuro e AVC Notícias.

A cada 26,5 horas um jornalista é agredido

Quem matou Rúben Espinosa e porquê? Perguntas para as quais ainda não há respostas. A procuradoria de Vera Cruz escusa-se a divulgar a identidade das mulheres ou outros pormenores sobre as motivações do múltiplo homicídio, mas garante que “não se descarta nenhuma hipótese” nas investigações. Espinosa terá sido vítima da censura ao seu trabalho? De acordo com alguns media mexicanos, entre os mortos estará uma ativista de Direitos Humanos: Nadia Vera, membro do movimento Yo Soy 123, composto na sua maioria por estudantes universitários.

No continente americano, o México é o país com mais jornalistas desaparecidos - contabilizam-se 18 na última década. “Hoje, o México continua a ser o país mais perigoso para a liberdade de expressão na América Latina”, denuncia a Article 19.

No seu relatório anual “Estado da Censura”, apresentado em março último, a ONG revela números assombrosos. Em 2014, um jornalista foi agredido a cada 26,5 horas. No total, 326 ataques a jornalistas e media. Registaram-se agressões físicas em 43% dos casos, intimidações em 16%, detenções arbritárias em 14% e ameaças em 13%. Os ataques foram perpretados por funcionários do Estado em 48% das situações.

O caso de Espinosa é descrito pela ONG como um “marco” na violência contra a imprensa no país. “É a primeira vez que um jornalista deslocado é assassinado na Cidade do México”, refere. A capital deixou de ser um refúgio seguro.