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Migrantes. Câmara de Calais quer Eurotúnel aberto e lembra aos ingleses que a fronteira não é ali

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Um polícia francês controla e orienta migrantes da Eritreia que tentavam chegar ao Eurotúnel na zona de Calais

ÉTIENNE LAURENT / EPA


Crise humanitária na cidade francesa provoca tensão entre Paris e Londres. Franceses acusados de serem o “braço armado” dos britânicos. Autoridades de Calais pedem abertura do Eurotúnel, não querem mais muros na região e que a Grã-Bretanha receba os migrantes

O impasse na resolução da crise humanitária com os cerca de cinco mil emigrantes e refugiados bloqueados em Calais está a desembocar em fortes tensões entre franceses e britânicos.

As autoridades locais de Calais, políticos franceses e associações caritativas dizem-se exasperadas, querem o Eurotúnel aberto e lembram aos ingleses que a fronteira geográfica entre os dois países não é em Calais mas sim em Dover.

“Os britânicos fazem o que querem e como querem em Calais, impõem a sua lei na nossa fronteira… Não suporto ouvir falar na construção de mais gradeamentos duplos, patrulhas com cães, se calhar brevemente torres de vigia para a polícia. Lembro que é na nossa bela costa que isso se passa e que estão a destruí-la”, diz Natacha Bouchart, presidente da Câmara da bela cidade portuária do norte da França.

Xavier Bertrand, antigo ministro do Trabalho e cabeça de lista da direita na região, para as eleições locais do fim deste ano, vai mais longe e ameaça frontalmente Londres de “deixar partir os migrantes, tal como faz a Itália, que os deixa partir para França”.

“O que David Cameron [primeiro-ministro britânico] propõe é irrisório, não se trata de dinheiro nem do reforço dos gradeamentos e barragens, se ele não propõe mais nada além disso que faça ele próprio a gestão da sua política migratória de ‘dumping’ social, que reveja a sua regulamentação sobre o trabalho ilegal, mas que passe ele controlar os migrantes na sua ilha”, acrescenta o dirigente d’Os Republicanos, o partido sarkozysta que sucedeu à UMP.

Os dois militantes de direita francesa propõem a revisão dos acordos franco-britânicos ditos de Touquet, assinados em 2003 e que estabelecem que os controlos de todos os viajantes que pretendem atravessar o mar da Mancha devem ser efetuados em Calais e não em Dover, a cidade fronteiriça britânica.

“O Governo britânico deve rever as suas leis sobre o trabalho e a imigração e abrir uma zona de trânsito ou um campo de refugiados no seu território, para serem eles mesmos a filtrar os imigrantes”, explica a “maire” de Calais.

Associações humanitárias francesas, que prestam assistência aos migrantes nos bairros da lata da cidade do norte da França, dizem igualmente que a situação é insustentável, pedem também a abertura do túnel ferroviário e o fim da construção de “novos muros em Calais”.

Atualmente existe já um gradeamento duplo intransponível, com mais de três metros de altura e numa extensão de diversos quilómetros, à volta do porto da cidade e os britânicos anunciam a construção de um outro em redor da entrada do Eurotúnel, o que representa um investimento britânico global de 20 milhões de euros.

Nos termos dos acordos bilaterais, o governo de Londres dá também cinco milhões de euros anuais à França para gerir a fronteira e a situação dos migrantes em Calais, o que é considerado muito insuficiente para enfrentar crises extremas como a atual.

Muitos franceses começam a denunciar os acordos de cooperação entre os dois países, porque eles conduzem “a fazer da França o braço armado da política migratória britânica”, segundo afirma a Comissão Nacional francesa dos Direitos do Homem.

Já em Inglaterra, as criticas à França são inversas. O governo de Paris é acusado de não cumprir eficazmente os acordos, de permitir que a Grã-Bretanha esteja “cercada por migrantes” e um jornal popular pediu mesmo a Cameron para enviar forças militares para Calais. Jornais britânicos exigem igualmente indemnizações à França pelos prejuízos causados aos turistas e camionistas que têm passado dias bloqueados no Eurotúnel.

De momento, Paris e Londres tentam resolver a crise com diplomacia e através do reforço das cercas e das patrulhas policiais em Calais. Mas a situação de tensão deteriora-se de dia para dia, tanto no domínio humanitário como no da segurança. Todas as noites, centenas de migrantes e refugiados, homens, mulheres e crianças, tentam entrar no túnel que, depois da construção do muro de grades à volta do porto para os impedir de acederem aos navios, é a única via que lhes permite tentar chegar clandestinamente ao Reino-Unido.

A crise já provocou a morte de nove refugiados e dezenas de feridos desde o mês de junho.