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Varoufakis. Espanha corre o risco “de acabar como a Grécia”

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ORESTIS PANAGIOTOU / EPA

O ex-ministro das Finanças grego disse que isso “acontecerá se se continuarem a repetir os mesmos erros” que foram impostos ao seu país. E garantiu que o terceiro resgate à Grécia “está desenhado para fracassar”

Já sabemos que Yanis Varoufakis não poupa nas palavras (nem nas camisas). E desta vez não foi exceção. Em entrevista ao diário espanhol "El País", publicada este domingo, o ex-ministro das Finanças recebeu os jornalistas em sua casa, vestido com uma camisa às flores e mantendo uma conversa frontal, sem poupar críticas à Europa e à forma como se desenrolaram as negociações entre o seu país e os credores.

Sem hesitar, Varoufakis comparou a Espanha à Grécia, alertando: "O perigo de a Espanha se tornar na Grécia está sempre lá e materializar-se-á se continuarem a repetir os mesmos erros que foram impostos à Grécia."

O economista e professor universitário afirmou ainda que o terceiro resgate à Grécia "está desenhado para fracassar". E acusa Wolfgang Schäuble, o ministro das Finanças alemão, de "nunca" ter estado "interessado em chegar a um acordo" que pudesse funcionar, mas apenas em usar o medo (especialmente em Madrid, Roma e Paris) para impor "a troika em todo o lado" e redesenhar a zona euro - plano que pressupõe o Grexit.

O antigo ministro das Finanças da Grécia acusou a Europa de estar a “castigar uma nação orgulhosa com o objetivo de aterrorizar outras”, considerando que este não deve ser “o propósito da Europa”.

"É uma demonstração: ' isto é o que se passa se não vos submeterdes à troika'", garante Varoufakis. "O que se passou na Grécia é um golpe de Estado: a asfixia de um país através de restrições de liquidez", acrescenta, sublinhando que em Bruxelas "nunca houve interesse em oferecer um acordo que beneficiasse as duas partes".

Europa "tem de recuperar o sentido de ser europeu"

A ideia de 18 países contra um no Eurogrupo é ilusória, garante ao diário espanhol. Há uma "pequena minoria que acredita na austeridade" e um "grupo maior de governos que não acredita, mas estão obrigados a defendê-la porque a impuseram nos seus países".

Assim, declara que o que a Europa está a fazer consiste em "castigar o orgulho de uma nação para aterrorizar outras", acrescentando que "não foi para isso que a Europa foi construída": não é esta "a Europa à qual aderimos, a Europa pela qual lutou Felipe González, Papandreu, Giscard d'Estaingn ou Helmut Schmidt”.

A Europa tem, assim, de “recuperar o sentido de ser europeu e encontrar formas de recriar o sonho de combinar prosperidade com democracia”, pois não é através do "medo e aversão" que vamos "construir uma nova Europa”. Pelo contrário. Varoufakis acredita que esse caminho levará “a uma situação semelhante à de finais do anos 30 do século passado”. "E creio que tanto o povo grego como o espanhol sabem exatamente o que é que a década de 30 lhes trouxe", conclui.

Além do período de crise económica nos anos 30, os dois países passaram por guerras civis: em Espanha entre 1936 e 1939 e, uns anos mais tarde, na Grécia entre 1946 e 1949.