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Bagdade, a cidade das mil e uma bombas

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Retratos de um quotidiano sangrento: soldado iraquiano monta guarda após explosão

Francesca Borri

A vida na capital iraquiana, onde chega a explodir um carro por dia, falta a gasolina e as milícias são rainhas e senhoras

Francesca Borri, em Bagdad

Aqui, quem anda pela casa dos 30 anos só tem recordações da guerra. Em outubro passado, Ali Saheb foi a Roma assistir a uma conferência. Pergunto-lhe de que gostou mais. Em vez do Coliseu ou do Vaticano, responde: “O Metro”...

Estamos em Bagdade. De repente, não se ouve nem vê nada. Dura apenas uma batida de coração. Depois, há chapa metálica destroçada, cabos elétricos soltos, asfalto irregular polvilhado de vidro, portas e janelas esventradas.

Na capital iraquiana, cheia de edifícios enegrecidos por 30 anos de guerra, quando uma bomba explode não há grande diferença entre o antes e o depois. A não ser, espalhadas por toda a parte, fatias de gente. Farrapos de carne. Um carro vistoso em chamas.

Aqui, a vida tem uma forma estranha de recomeçar ou, talvez , de nunca parar. Às 18h17 é-se atirado ao chão pelo sopro de uma bomba na rua Saadoun, onde decorria uma peregrinação xiita. Os altifalantes continuam a emitir cânticos corânicos, que se misturam com as sirenes das ambulâncias ou com os gritos de um pai. Tudo é varrido e, à direita, vemos retomar a venda de sumo de laranja.

A atenção do mundo esmorece à mesma velocidade. Na Net há dois ou três tweets. Bomba em Bagdade, quatro vítimas. Sete vítimas. Nove. Balanço final em Bagdade, 12 mortos e 25 feridos. Em dez minutos está tudo acabado até à próxima.

Das trincheiras de 1914/18 aos campos de concentração de 1939/45, todos os conflitos tiveram a sua marca. O napalm do Vietname. Os machetes do Ruanda. Os atiradores furtivos da Bósnia. As bombas de barril da Síria. A do Iraque é uma guerra de bombas caseiras (IED, na sigla inglesa). Há anos que explode um carro armadilhado por dia. Por vezes, mais que um. Explodem nos cafés e nos mercados, nos centros comerciais e nos edifícios públicos, nos bairros ricos ou nas barracas.

Sem linha da frente

São o símbolo do Iraque de hoje. Já não se trata de camiões atirados contra os muros da Zona Verde porque o objetivo não é expulsar os americanos nem reconquistar o país. É simplesmente desestabilizá-lo e mantê-lo refém. Aqui não há linha da frente nem distinção entre civis e combatentes. Só há IED por todo o lado.

Temos o hábito de simplificar o Iraque e os seus 35 milhões de habitantes, dividindo-os entre um sul xiita, um centro sunita e um norte curdo. Mas cada cidade é uma mescla de grupos étnicos e religiosos. Embora seja globalmente verdade que os xiitas são a maioria (60%), o que há é uma manta de retalhos de minorias.

Se um grupo se torna dominante, isso deve-se a guerras e violência. A deslocações forçadas e regressos impedidos. A homogeneidade está longe de ser natural. “Há uma decisão dos EUA que merece especial censura”, explica Ali Saheb, coordenador do Fórum Social Iraquiano, rede de ONG locais. “Instauraram um sistema político em que todos os cargos estão ligados a filiações sectárias. É como no Líbano. O chefe de Estado tem de ser curdo, o primeiro-ministro xiita, o presidente do Parlamento sunita... Independentemente das suas competências e, sobretudo, dos resultados eleitorais.”

“Aos olhos dos EUA, o regime de Saddam resumia-se ao domínio de uma minoria sunita sobre uma maioria xiita. Assim, para haver democracia, era preciso tirar o poder aos sunitas. Mas Saddam mandara matar o genro o que mostra que o seu regime não era definido por sunitas e xiitas, mas por amigos e inimigos”, afirma Saheb. “Aqui, sempre que alguém se apresenta, primeiro diz o apelido ou o nome da tribo a que pertence e só depois o nome próprio. O problema do Iraque é que ninguém é iraquiano...”

Num país tão deslassado, o exército foi desmantelado pelos americanos da noite para o dia. Milhares de homens ficaram sem nada nas mãos, além da arma.

Retratos de um quotidiano sangrento: miúdo olhando para carro destruído 
num ataque suicida

Retratos de um quotidiano sangrento: miúdo olhando para carro destruído 
num ataque suicida

Francesca Borri

As raízes do jiadismo

É isto o Daesh (Estado Islâmico) no Iraque. Não é, como na Síria, um mal menor face a um ditador sanguinário. Por detrás das bombas do califado, os jiadistas estão longe de ser um ente político universal: sofrem a influência do seu contexto nacional. O Daesh é o resultado de frustração, humilhação e sede de vingança. “Os sunitas levaram com as culpas dos crimes de Saddam e de todos os fracassos do país. Independentemente da sua responsabilidade individual. É daí que vem o Daesh”, afirma Ali Saheb. “Em Mossul (ocupada há um ano pelo Daesh), as pessoas não querem a Sharia. Querem escolas, hospitais, um emprego, uma vida...”

Salta à vista que há dezenas de iraquianos a dormir nas ruas. Não são deslocados de guerra: dormem ao lado da bomba de gasolina, para serem os primeiros na fila, de manhã. Só há combustível para 10 ou 20 clientes. Os iraquianos bem podem viver sobre campos de petróleo mas não têm combustível nem eletricidade.

As atenções internacionais voltam-se para a linha da frente, para o sangue e os combates. O Daesh retira-se de Tikrit mas toma Ramadi. Toma Yarmuk mas abandona Tal Abyad. Deixa Kobane e volta a atacá-la. Além de não haver linha da frente, não há definição de vitória e derrota. Não há fações pró e anti-Assad. Não há pró-russos e pró-ucranianos, sérvios e croatas, monárquicos e republicanos. Nem sunitas e xiitas, se virmos bem. Só há inúmeros grupos armados. E inúmeras IED.

No ano passado, face ao avanço do Daesh, havia 60 mil soldados contra 2000 jiadistas. Mas abandonaram armas e tanques pelo caminho. Os EUA esforçam-se por reorganizar as forças armadas, mas o problema não é de competência militar: é difícil convencer soldados a arriscar a vida por um Estado tão disfuncional que o equipamento dos primeiros 5000 recrutas nunca lhes chegou às mãos. Sem armas, treinam a gritar “bang bang”. Isto, quando os EUA já injetaram 25 mil milhões de dólares (23 mil milhões de euros) neste exército...

O orçamento do Estado destina mais à segurança do que à educação, saúde e ambiente somados. Não obstante, os verdadeiros senhores do Iraque são os militantes xiitas. Em Bagdade se perguntarmos quem manda, ninguém percebe a pergunta. Quem tem problemas “chama algum conhecido”. Seja um roubo ou uma ligação à rede pública de água, há mediadores. Na capital, em particular, há as Brigadas Badr, lideradas por Hadi al-Amiri, especializadas em assassínios encomendados. E as Ada’ib Ahl al-Haq, peritas em ataques contra embaixadas ocidentais.

 Retratos de um quotidiano sangrento: restos 
de sangue na calçada após atentado
 no bairro de Rahimawa

Retratos de um quotidiano sangrento: restos 
de sangue na calçada após atentado
 no bairro de Rahimawa

Francesca Borri

Os bons, os maus e os outros

Sem tropas ocidentais no terreno, estes são “os bons” de quem se espera que expulsem “os maus”. Em abril, jornalistas da agência Reuters filmaram a libertação de Tikrit: dois polícias capturaram um jiadista e, perante uma multidão em festa, degolaram-no.

As Unidades de Mobilização Popular incluem 100 mil milicianos e têm um estatuto incerto. Foram criadas pelo Governo para travar o Daesh mas, em rigor, não fazem parte das forças armadas. São financiadas pelo Irão.

Para os jornalistas são um “exército paralelo”, mas Nibras al-Mamory, assessor de imprensa do Parlamento, não está de acordo. “São grupos como o antigo exército do Mahdi do clérigo xiita Moqtada al-Sadr. Não são grupos armados, são bandos de criminosos.”

A reputação de Moqtada al-Sadr, líder da rebelião de 2003 contra os americanos, não tinha a ver com competências militares ou políticas. Em miúdo, tinha por alcunha “o mongol”. Para os iraquianos, estes grupos são como os jiadistas. Os combatentes xiitas são como os sunitas. A mesma ferocidade e imprevisibilidade. Nos campos de refugiados, cruzamo-nos com famílias que fogem, tanto do Daesh como da guerra contra este.

Agora, o programa de formação dos novos recrutas inclui uma nova disciplina: Vontade de Lutar...