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“Vimos todos da mesma tribo”: o histórico discurso de Obama na Etiópia

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Num discurso histórico perante a União Africana, Obama apelou à igualdade de género

JONATHAN ERNST / REUTERS

Obama chama à atenção para o “cancro da corrupção” e diz que os líderes africanos têm de saber dar o seu lugar a outros, tal como ele fará no próximo ano: “Acho que se concorresse outra vez à presidência dos Estados Unidos ganharia, mas a lei é a lei, e nem os presidentes estão acima da lei”

Barack Obama foi o primeiro Presidente norte-americano a discursar perante a União Africana, em Addis Ababa, capital da Etiópia, no último dia da sua visita à África oriental.

O Presidente norte-americano começou por se apresentar não só como um americano, mas também como um africano, contando que conheceu a história dos seus antepassados escravizados. A partir dali, todo o discurso do chefe de Estado norte-americano teve por base duas expressões: dignidade e trabalho conjunto. Expressões que iniciaram, desenvolveram e terminaram a sua intervenção na sala Nelson Mandela.

Obama pediu ao Ocidente para deixar de olhar o continente africano de forma depreciativa, garantindo que se, em vez de ajuda financeira que torna África dependente, os países mais desenvolvidos ajudassem a desenvolver o comércio e a consequente criação de postos de trabalho, seria mais proveitoso tanto para África, como para a economia global.

Elogiou a organização panafricana que o recebeu, assim como a Etiópia e todo o continente africano pelo seu rápido desenvolvimento. Mas também advertiu que muito trabalho ainda teria de ser feito para que a dignidade humana passe de utopia a realidade.

“Democracia é muito mais do que organizar eleições”

Barack Obama foi muito criticado por visitar um país acusado de restringir a liberdade de expressão. Além dos elogios que fez, o Presidente norte-americano acusou o Governo etíope de ter uma falsa democracia: “Vocês têm democracia no nome, mas não na consistência do país”.

Disse ainda não compreender o facto de alguns líderes africanos “se negarem a deixar os postos”, referindo-se ao Presidente do Burundi, Pierre Nkurunziza, que alterou recentemente a legislação para poder ficar mais tempo no poder.

“Quer dizer, eu adoro o meu trabalho. E até acho que sou bastante bom no que faço, e que se concorresse outra vez à presidência ganharia, mas a lei é a lei, e nem os presidentes estão acima da lei. Não percebo como é que as pessoas querem ficar no mesmo trabalho tanto tempo, ainda por cima se essas pessoas são muito ricas”, brincou.

Outra palavra muito utilizada por Barack Obama, especialmente no que toca à segurança, foi confiança. A luta contra o terrorismo, que afeta o continente africano “só poderá ser bem-sucedida se houver confiança entre todos os países”, disse.

África nunca poderá desenvolver-se completamente sem as mulheres

Além disto, Obama pediu o fim do “cancro da corrupção”, apelou à distribuição justa da economia, ao investimento na educação, à construção de hospitais e outras infraestruturas sociais, e terminou abordando com a igualdade de género. Condenou a mutilação genital feminina, os casamentos infantis, e todo tipo de violência contra as mulheres sem as quais “África nunca poderá desenvolver-se completamente”.

“Esquecemo-nos que vimos todos da mesma tribo”, disse Obama, referindo-se ao esqueleto da mulher mais antiga do planeta - a astralopiteco Lucy.