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O Nepal já tremeu 363 vezes desde a tragédia. E paga-se para demolir o que não caiu

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NAVESH CHITRAKAR / Reuters

Passaram três meses desde o sismo que devastou o Nepal a 25 de abril. Quem dependia do turismo já não tem turistas, quem dependia da agricultura não tem onde guardar o pouco que consegue colher. A portuguesa Dania Rodrigues foi para o Nepal construir abrigos, casas de banho e salas de aula. A forma como os nepaleses lidam com a natureza, a morte e o tempo impressionou-a

Dania estava a jantar com o namorado no restaurante de um amigo nepalês em Dharamsala, uma cidade no norte da Índia. Viajavam há seis meses pelo país, sem um rumo definido. Só que nesse dia, durante o jantar, o desespero do amigo nepalês enquanto falava ao telefone fê-los perceber que algo se tinha passado. Alguém lhe ligara a dizer que um sismo no Nepal tinha destruído a aldeia dos seus pais.

Faz este sábado três meses que a terra no Nepal tremeu de tal forma que destruiu 600 mil casas, matou nove mil pessoas e deixou 23 mil feridos, segundo as Nações Unidas. Os dados do Centro Sismológico do Nepal mostram que desde esse grande sismo – de 7,6 de magnitude – a terra já tremeu 363 vezes, entre as quais estão 352 réplicas.

Assim que soube do sismo, Dania Rodrigues, 29 anos, quis partir para o Nepal para ajudar no que fosse preciso, mas a situação era tão dramática que os aconselharam a não ir logo. Um mês e meio depois, disseram-lhes que fossem – era preciso ajuda.

Partiram os dois de autocarro e, cinco dias depois, a 6 de junho, atravessaram a fronteira da Índia com o Nepal. Descobriram um projeto de voluntariado de um grupo de nepaleses e franceses que iam até aos locais mais remotos do país onde as pessoas não tinham recebido ajuda. O destino foi Deurali, uma pequena aldeia na região de Sindupalchock.

A aldeia era completamente inacessível e o projeto consistia na construção de abrigos temporários e casas de banho. “Tínhamos de andar uma hora com os materiais para conseguirmos lá chegar”, conta Dania através do Skype, em Banguecoque, dias depois de ter deixado o Nepal e antes de partirem para a Malásia. “Nos últimos dias também construímos uma sala de aulas na escola. Os miúdos tinham aulas lá dentro e era perigoso.”

O primeiro projeto de voluntariado em que participaram localizava-se numa aldeia onde ainda não tinha chegado nenhuma ajuda

O primeiro projeto de voluntariado em que participaram localizava-se numa aldeia onde ainda não tinha chegado nenhuma ajuda

Dania Rodrigues

Isso significa fome

O Nepal é um dos países mais pobres do mundo, vive dependente do turismo e mais de 70% da população trabalha na agricultura. “A maioria das pessoas que conhecemos em Katmandu e que depende do turismo ainda não ganhou uma única rupia desde o terramoto”, conta a portuguesa. E as estimativas oficiais nepalesas apontam para que os danos causados no sector agrícola sejam de 10 mil milhões de rupias (143 milhões de euros) em gado e colheitas.

Sem turismo e com pouca agricultura, como é que agora os nepaleses vivem? “As pessoas nestas aldeias estão completamente dependentes da entreajuda da família e vizinhos. Os problemas começam agora na época das colheitas, porque as estruturas para as armazenar estão destruídas. Com as monções, pode perder-se tudo e isso significa fome.” O pouco dinheiro que tivessem conseguido juntar não estava nos bancos, porque nas zonas remotas os bancos não existem. “Estava mesmo debaixo do colchão”, diz Dania. E hoje está debaixo dos destroços.

Quanto à reconstrução, a burocracia existente não ajuda a agilizar a chegada de ajuda a zonas mais distantes. “Passam-se semanas até se conseguir fazer alguma coisa. Com a grande corrupção existente, parte do dinheiro injetado vai parar aos bolsos dos mais poderosos ou é perdido na burocracia das organizações.”

E como é se recupera do trauma? “As pessoas têm uma relação completamente diferente com a natureza, com a morte, e lidam com uma catástrofe de forma para nós surpreendente. Para eles o tempo é cíclico e o período que passamos na terra é um pequeno parêntesis no desenrolar da eternidade. Pareceu-me que para a maioria dos nepaleses a causa do sismo é sobrenatural e isto oferece-lhes mecanismos diferentes para lidar com a tragédia. Ouvimos várias pessoas que perderam tudo, incluindo familiares, encolher os ombros e dizer "Ké garné? What to do?" [o que fazer?].”

Ver crianças a brincar nos destroços tonrou-se "natural", descreve Dania

Ver crianças a brincar nos destroços tonrou-se "natural", descreve Dania

Dania Rodrigues

Pagar para demolir

Doze dias depois, seguiram para Katmandu à procura de outro destino. “Falámos a dois senhores na rua e foi assim que encontrámos o segundo projeto. Era uma iniciativa pessoal.” Foram para Jyomishora, uma aldeia no distrito de Nalang, onde 95% das casas ficaram destruídas, em resultado de uma grande réplica do sismo a 12 de maio.

“Vimos por nós mesmos os danos causados. As pessoas perderam tudo e as casas que não caíram estão cheias de rachas, portanto eles ainda têm de pagar para as conseguirem demolir. Começámos nós a fazer isso e tirámos toneladas de pedra e lama.”

“Oferecemo-nos para construir uma casa de banho temporária na escola porque só havia duas para 260 alunos. Mas depois cada um de nós meteu uma parte do dinheiro e conseguimos fazer uma definitiva. Na escola também há quatro salas que foram devastadas e começámos com o projeto de crowdfunding para reparar esses danos.”

Um dos contributos foi a construção de salas de aula improvisadas, protegidas por um telheiro e com um quadro suspenso

Um dos contributos foi a construção de salas de aula improvisadas, protegidas por um telheiro e com um quadro suspenso

Dania Rodrigues

Com o regresso à capital para renovarem o visto, trabalharam noutro projeto no vale de Katmandu, da “Bring Thoughts Into Action”, um grupo que constrói abrigos por 85 dólares. “A casa pode durar até 10 anos, é construída num dia ou dois e tudo com materiais locais.”

A generosidade e resistência dos nepaleses marcaram-na. “Mesmo as pessoas que perderam tudo o que tinham, até mesmo a família, parecem muito mais resignadas e determinadas em seguir em frente”, conta Dania, que se licenciou em História ainda em Portugal e fez mestrado em Antropologia já em Itália. Mas ainda que por vezes lhe pareça que tudo voltou à normalidade, “há um trauma enterrado”. “Quando há réplicas maiores, as pessoas começam a correr, a gritar.”

Durante esse mês e meio, Dania e o namorado viveram no mais profundo do Nepal, alimentaram-se do que era produzido localmente e conheceram de perto um povo que se viu obrigado a reconstruir tudo o que o rodeia. “Um sacerdote explicou-nos que, para eles, o terramoto aconteceu porque tinha de acontecer e não é culpa de ninguém. O karma explica porque é que algumas pessoas perderam tudo e outras não. Parece-me que todos aceitam que as coisas aconteceram exatamente do modo que deviam acontecer e não podiam acontecer de outra forma. E isto traz-lhes alguma paz.”

Dania Rodrigues

  • Duas semanas depois do sismo, contam-se 8.019 mortos no Nepal

    A Organização das Nações Unidas (ONU) prevê que oito milhões de pessoas necessitem de ajuda, mas o montante que arrecadou até agora está longe do total necessário. O coordenador das Nações Unidas para o Nepal alertou para o que considera ser uma corrida contra o tempo.

  • Quando ter os pés no chão faz medo, como se reconstrói um país?

    A ajuda externa "é fundamental" em casos como o do sismo no Nepal, um dos países mais pobres do mundo.  "Nas pequenas aldeias, as pessoas ajudam-se, até podem dar trabalho e simpatia aos outros, mas não os podem ajudar com dinheiro", conta um economista nepalês a viver em Portugal. As perdas no turismo, do qual o país depende, são um dos receios. E quanto à recuperação do trauma, há memórias que não vão desaparecer - o importante será aprender a viver com elas.

  • Acautelar os vivos e respeitar os mortos

    A força da natureza derrubou o Nepal, a força do Homem tenta o possível: achar sobreviventes, lavar os destroços, acautelar os vivos e respeitar os mortos. A tragédia tem números devastadores: 3700 perderam a vida, 6500 estão feridos, 100 mil ficaram sem casa.