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“O meu pai queria que o Estado Islâmico me matasse”: o testemunho de um jovem gay iraquiano

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Taim, aqui filmado pela BBC - com o rosto desfocado e falando através da voz de outra pessoa

Créditos: BBC

Como é habitual em tudo o que rodeia o autodenominado Estado Islâmico, trata-se de um relato que envolve violência extrema e sofisticação mediática - explorando um velho ódio muito generalizado na sociedade iraquiana

Luís M. Faria

Jornalista

Foi em janeiro que o autodenominado Estado Islâmico (Daesh) começou a pôr na internet vídeos de homens a serem atirados de prédios. No repertório já bastante diverso da sua criatividade assassina, aquela forma de execução tem uma mensagem específica: serve como demonstração última do ódio votado aos homossexuais. A mensagem é reforçada pelas circunstâncias que normalmente acompanham a cena. No solo onde a vítima cai costuma estar uma multidão que aplaude o ato e, se necessário - isto é, caso a vítima ainda esteja viva -, conclui a tarefa utilizando pedras.

Isto terá acontecido já a dezenas de pessoas. Entre elas, um iraquiano de 22 anos que aparece de camisola vermelha numa foto tirada momentos antes de o lançarem de uma altura de oito andares. Uma imagem feita logo a seguir mostra o seu corpo sem vida no solo, ao lado de um amigo que foi morto na mesma ocasião. O mais impressionante nesta segunda imagem são as caras desfeitas (note-se que os homens são atirados com as mãos atadas e os olhos vendados). Um outro jovem que escapou por pouco a uma morte semelhante contou agora a sua história à BBC.

Identificado apenas como Taim, com o rosto desfocado e falando através da voz de outra pessoa para proteger a sua identidade, é um estudante médico de 24 anos. Filho de um homem profundamente religioso que se depreende ter um certo estatuto na comunidade, percebeu que era gay por volta dos catorze anos. Como achava moralmente errado, assim que entrou para a universidade decidiu tratar-se. Mas a terapeuta deu-lhe um conselho bem-intencionado que se revelaria trágico: que ele procurasse apoio junto dos amigos.

Selvaticamente agredido

Taim tinha amigos cristãos e um outro jovem chamado Omar começou a criticá-lo. As discussões explodiram em confronto e a certa altura alguém disse a Omar para não ser demasiado duro com Taim, pois ele andava em tratamento. Tratamento para quê? Assim que Omar foi informado, a vida de Taim mudou. Primeiro foi atacado a caminho de casa. Omar e dois amigos deitaram-no ao chão e raparam-lhe o cabelo, prometendo fazer pior a seguir. Ele esteve algum tempo sem ir à universidade, mas quando voltou teve outra discussão com Omar - dessa vez sobre se os cristãos deviam pagar tributo aos muçulmanos, como o Daesh exige - e foi selvaticamente agredido na casa de banho.

Já não havia retorno. Omar acabou por aderir ao Daesh e instou Taim a acompanhá-lo, como prova de arrependimento. Taim recusou e pouco depois apareceram em sua casa recrutas do Daesh a exigir aos pais que o entregassem, pois era um infiel e homossexual. O pai disse que ia investigar o assunto e no dia seguinte daria a resposta. Chegou ao pé da família e começou aos gritos, prometendo ao filho que ele próprio o entregaria, com gosto, se aquilo que diziam dele fosse verdade. Taim ficou extremamente confuso, mas a sua mãe compreendeu logo o que tinha de ser feito.

Executar gays, uma estratégia popular

Era meia-noite, mas não se perdeu tempo. Taim foi logo para casa de uma tia. No dia seguinte, devia ter partido para a Turquia, com um bilhete e um visto que a mãe lhe arranjou, mas a viagem, que não era direta a partir do local onde vivia, complicou-se. Acabou por ficar retido durante semanas, antes de conseguir finalmente deixar o país. Não para a Turquia, mas para Beirute, onde atualmente se encontra. A família sabe que está lá e já recebeu no Facebook ameaças de um anónimo que julga ser um irmão do pai, prometendo lavar a honra da família. E o povo na sua terra acha bem, pois o desprezo pelos gays é generalizado. Para o Daesh, executá-los é uma estratégia de popularidade.

Com a sua existência normal num limbo, Taim diz que só quer retomar os estudos e começar a viver. Pelo menos a ele ainda lhe resta essa possibilidade. Muitos dos seus amigos não têm a mesma sorte. Ele era próximo do rapaz da camisola vermelha que foi atirado do prédio. Diz que era uma pessoa simpática, tranquila, brilhante, que passava o tempo a ler. Quando o mataram, os amigos do seu grupo bloquearam-se uns aos outros no telemóvel. A primeira coisa que o Daesh faz quando apanha alguém como eles é ver quem são os seus contactos. E parece que a astúcia dos assassinos vai ao ponto de andarem à caça na net fazendo-se passar por gays interessados em arranjar parceiros.