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Juncker: Portugal e Espanha não queriam discutir dívida grega antes das eleições

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FOTO JOHN THYS/AFP/Getty Images

Em entrevista ao jornal “Le Soir”, o presidente da Comissão Europeia recorda que chegou a propor a Tsipras que a dívida grega fosse discutida em outubro, mas revela que a ideia foi rejeitada por vários países incluindo Portugal, Espanha e Irlanda. Jean-Claude Juncker diz ainda que “foi o medo que permitiu o acordo” com a Grécia

“Foi o medo que permitiu o acordo”, confessa o presidente da Comissão Europeia, recordando o entendimento conseguido entre a Grécia e os restantes 18 países da moeda única após uma maratona negocial de 17 horas que terminou na madrugada de 12 de julho. Para Jean-Claude Juncker, o acordo “é bom, porque existe”, porque “evitou o pior” e permitiu “o alívio”.

Numa entrevista publicada esta quarta-feira no jornal belga “Le Soir”, Juncker diz que receou um rutura definitiva: “Disse para mim mesmo durante meses e durante as últimas horas (de negociações) que se a zona euro desmoronasse, tudo poderia desmoronar-se. Poderiam o mercado interno e as quatro liberdades sobreviver sem a união monetária? A minha angústia era ver tudo desfazer-se.”

O desfecho da cimeira extraordinária da zona euro deixou o luxemburguês satisfeito mas não feliz. O futuro continua a preocupá-lo: “Eu constatei neste ponto, tal como sobre as migrações, que houve uma ‘rutura de facto’ dos laços de solidariedade na Europa”.

A outra rutura de que fala Juncker é a da confiança, consequência do referendo grego, que afetou a relação a 19. “Nenhum dos restantes 18 países acreditava na palavra grega. Eu fiz tudo, sobretudo nas últimas horas, para tranquilizar os outros. Falei com cada primeiro-ministro individualmente enquanto Donald Tusk (presidente do Conselho Europeu) estava a negociar com a Alemanha, a França e a Grécia sobre o fundo de privatização de 50 mil milhões de euros. Eu já o tinha proposto em abril de 2011. Ninguém quis saber. E fico contente que agora as minhas ideias se tornem propostas de outros”, conclui.

Ao jornal belga, o presidente da Comissão Europeia recorda ainda as dificuldades das negociações e o impacto que a delicada questão do alívio da dívida tem em certos países. Juncker revela que a ideia que chegou a propor a Alexis Tsipras – antes ainda da realização do referendo – de discutir a dívida “em outubro” foi rejeitada por alguns estados-membros. “Irlanda, Portugal e Espanha, não a queriam antes das eleições e ficaram irritados comigo”, diz.

A declaração dos líderes europeus, de 12 de julho, dá conta da preocupação com a sustentabilidade da dívida grega e deixa, no papel, a possibilidade de se voltar a mexer nas maturidades. No entanto, qualquer alívio não será através de “um perdão nominal” e está sujeito à “implementação completa das medidas de um novo programa e será considerado após a primeira avaliação positiva”

“Notei em vários países uma ira antigrega”
Outros países, diz Juncker, “consideram que a situação da Grécia é melhor do que a deles, por exemplo no que diz respeito ao salário mínimo”. Questionado sobre a existência de um sentimento “antigrego”, Juncker responde: “Notei em vários países do euro, e mesmo fora, uma ira antigrega que se explica por motivos estritamente nacionais e de política interna que se limitam a examinar o lado económico das coisas. Existe a ferocidade dos debates internos em todos os países, na Alemanha, mas também na Eslováquia, Eslovénia, Malta, Estónia, Lituânia e Letónia”.

Quanto à dureza do programa que agora é imposto à Grécia, o Presidente relativiza. “Os que dizem que o programa constitui um massacre, um catálogo de crueldades, não conhecem todos os ingredientes do dossiê, e, nomeadamente, que o nível de proteção social em vários países da zona euro é inferior aos dos gregos”. Jean-Claude Juncker diz ainda que se a Grécia tivesse feito as reformas estruturais que lhe foram pedidas “não tinha chegado a este ponto”.

O líder europeu diz ainda que a Grécia não tem porque se sentir humilhada e que a Comissão Europeia – uma das três instituições que preparou o acordo definitivo fez “um bom trabalho” ao tentar ter em “conta as preocupações, medos e expectativas de uns e outros”.