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Golpes, ganância e terrorismo: a longa história de agressões entre a América e o Irão

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CARLOS BARRIA / Reuters

No século XIX, dois impérios europeus já disputavam a velha Pérsia. A partir do momento em que se descobriu petróleo, tornou-se impossível uma relação normal. E as empresas americanas entraram em cena. História de uma relação complexa, num mês marcado pela assinatura do acordo nuclear (provavelmente a notícia mais importante do ano)

Luís M. Faria

Jornalista

A má relação entre o Irão e os Estados Unidos não começou hoje. Nem sequer há três décadas e meia, com a revolução iraniana. A maioria das pessoas recorda a ocupação da embaixada americana por estudantes nesse ano de 1979 e os 52 americanos que ficaram reféns durante 444 dias (história que deu óscares a “Argo”). Mas muito antes já havia motivos de queixa - e era por parte do Irão.

Em 1953, um nacionalista secular chamado Muhamad Mossadegh era primeiro-ministro. Pouco tempo antes, nacionalizara a companhia britânica que explorava o petróleo do país. Os britânicos, inconformados, convenceram os americanos a depô-lo. Alegaram que o Irão estava em risco de entrar na órbita soviética. No auge da Guerra Fria, era um argumento persuasivo e os EUA destacaram um agente da CIA, Kermit Roosevelt, por acaso neto do presidente com o mesmo apelido (Theodore, não F.D.). Com uma estratégia baseada em explorar as divisões entre Mossadegh e o xá, criou-se um ambiente de aparente revolta popular - 70 mil dólares bastaram para pagar a quem tinha de ser pago - e o objetivo foi atingido.

Mossadegh passou o resto dos seus dias preso, primeiro na cadeia e depois em casa. O que mais o amargou, contaria um dia o seu neto, foi perceber que os responsáveis diretos pela sua deposição tinham sido os oficiais a quem competia proteger a soberania do seu país. Com o poder entregue a um xá que era aliado fiel dos americanos, a situação na indústria do petróleo foi reposta em termos mais consonantes com a conveniência dos mandantes. As novas regras mandavam entregar 50% dos proveitos ao Irão e o resto a empresas britânicas e norte-americanas. Os iranianos tinham pouca possibilidade de controlar as contas.

Escusado será dizer que nem toda a gente aceitou bem a situação. Mas o xá, com auxílio americano, foi dotado dos meios para combater os opositores. A sua polícia secreta, a Savak, instruída em técnicas de tortura e fornecida com tudo o necessário, tornou-se muito temida. O exército iraniano também recebia equipamento de primeira qualidade. E só a crescente urbanização do país, somada à resistência que gerou a chamada “Revolução Branca”, lançada em 1963, fizeram tremer o regime.

Manifestação anti-EUA em Teerão

Manifestação anti-EUA em Teerão

MORTEZA NIKOUBAZL / Reuters

A equação essencial do confronto

A Revolução Branca visava modernizar o país, alterando o regime de propriedade e modificando velhos costumes. Mas as resistências sociais foram imensas. Desde logo, por parte de clérigos que não suportavam certas mudanças, incluindo relacionadas com a sua própria posição e com a emancipação das mulheres. Um desses clérigos era o Ayatolah Ruhollah Khomeini, que foi enviado para o estrangeiro. Inicialmente na Turquia, depois no Iraque e finalmente em França, manteve durante 15 anos uma oposição incessante ao xá Reza Palevi.

As tensões da década de 70 revelaram-se demasiadas para o regime e o xá acabou por ser obrigado a abandonar o poder. Exilado nos EUA e depois no Egito, nunca mais veria a sua terra. Khomeini regressou e sob o seu comando o Irão tornou-se um regime teocrático, que alimentava o seu poder com uma vasta onda de execuções (ainda hoje é dos país que mais aplica a pena de morte em todo o mundo). Entretanto, logo em 1980, o seu vizinho Saddam Hussein, na altura aliado dos EUA, atacou-o a pretexto de uma disputa territorial, dando origem a uma guerra que duraria sete anos e faria mais de um milhão de mortos. Os iranianos continuam a recordar que o Ocidente não os apoiou nessa altura.

Nas orações de sexta-feira, os gritos “Morte à América” tornaram-se habituais, a par com os dirigidos a Israel e a outros países. Cortadas as relações diplomáticas, nunca houve oportunidade para discutir as razões, legítimas ou não, de cada uma das partes. Ainda por cima, o Irão, enquanto país xiita e potência regional, era o principal rival da Arábia Saudita, a outra potência da região, que é sunita e o aliado mais importante dos EUA no Médio Oriente.

Episódios como o escândalo Irão-Contra (quando o Governo americano, em 1985, foi apanhado a vender armas ao Irão, a troco da libertação de reféns e de dinheiro que era enviado a rebeldes na Nicarágua) não desmentiam essa equação essencial do confronto. Acima de tudo, os iranianos ressentiam-se do desrespeito que sentiam ser-lhes votado pelos ocidentais, e em particular pelos EUA. Invocavam a sua história de dois milénios e meio para se afirmarem uma nação orgulhosa, a única verdadeira civilização no Oriente a par com a China. Para eles, países como o Iraque, o Qatar e Paquistão eram criações oficiais do Ocidente. “Caganitas do colonialismo”, como às vezes diziam.

Celebração do acordo nuclear nas ruas de Teerão, há uma semana

Celebração do acordo nuclear nas ruas de Teerão, há uma semana

ABEDIN TAHERKENAREH / EPA

Descoberta de petróleo, “terra encantada”

A recusa iraniana em aceitar oficialmente a existência de Israel, bem como o apoio iraniano a grupos como o Hezbollah, que lhe valeu a inclusão na lista de estados patrocinadores de terrorismo, constituíram sempre fonte de tensão com os EUA. Como o foi o abate de um avião de passageiros iraniano por um vaso de guerra americano, em 1998, matando 290 pessoas. Embora se tivesse tratado de um acidente, o Irão notou que o comandante responsável recebeu uma condecoração dois anos depois.

Foi um insulto grave ao país, e um novo motivo de ressentimento contra o Ocidente. Mais um, acrescentado a uma lista que vem pelo menos desde o século XIX, quando os impérios britânico e russo disputavam a velha Pérsia – como então se chamava o país – em colaboração com líderes locais cooptados. Em 1906, uma revolução constitucional estabeleceu um regime com normas democráticas, mas o xá da altura depressa a cancelou, apoiado pela Grã-Bretanha e a Rússia. Outros monarcas se seguiram, dessa dinastia e da que lhe sucedeu: a dinastia Palavi, à qual pertencia o último xá.

Uma coisa tornou impossível, logo no início do século XX, que alguma vez se pudesse deixar o Irão seguir o seu desenvolvimento político natural: a constatação da existência de enormes reservas de petróleo. O Irão foi o primeiro país muçulmano a fazer em larga escala a exploração desse recurso que se tornaria a principal fonte de riqueza e de poder. O grande imperialista Winston Churchill, que nos anos 20 fez a conversão da frota britânica do carvão para o petróleo, descreveu o petróleo iraniano como “um prémio da terra encantada que está para lá dos nossos sonhos”.

As consequências dessa atitude duram até hoje. E há britânicos que ainda se surpreendem quando nas orações de sexta-feira, a par das maldições lançadas aos EUA e a Israel, ouvem as dirigidas a Inglaterra. Eles esqueceram há muito, mas os iranianos lembram-se.