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“Eu nunca levantei 60 euros por dia – 60 euros é o que tenho numa semana”

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Os bancos gregos abriram esta manhã de segudnda-feira, três semanas depois de terem encerrado

RONEN ZVULUN/REUTERS

“Que economia é que pode funcionar sem os seus bancos?”, perguntava um grego esta segunda-feira de manhã. Foi o primeiro dia da “nova” Grécia: depois de quase um mês com os bancos fechados, o acordo assinado com os credores facilitou a reabertura das instituições financeiras no arranque desta semana. O controlo de capitais mantém-se, mas com maior folga - e os relatos continuam a ser imprevisíveis, como aquele que está ali no título. É que na “nova” Grécia os bancos reabriram, mas os preços subiram e as dificuldades permanecem

Se havia algum receio de uma corrida desenfreada aos bancos gregos na manhã desta segunda-feira, quando estes voltaram a abrir, esse receio não se concretizou. Três semanas depois de terem encerrado, a sensação foi contrária: calma e tranquilidade caracterizaram o dia, segundo a imprensa grega e os relatos dos jornalistas estrangeiros.

“Vim hoje pagar contas e os meus impostos. Na semana passada não pude e tudo isto é muito cansativo para as pessoas mais velhas como eu”, disse Maria Papadopoulou, uma pensionista de 62 anos, à porta de um banco, citada pela agência Reuters. “As coisas estão melhores agora do que nas últimas semanas. Graças a Deus que não acabámos no dracma.”

Se o encerramento dos bancos era um dos sinais visíveis da crise na Grécia, o facto de esta segunda-feira manhã se terem levantado as grades das agências bancárias revestiu-se de um simbolismo e de uma sensação de regresso à normalidade.

Contudo, ainda há limites no acesso aos bancos. Os gregos vão poder levantar até 420 euros por semana, faseados ou de uma só vez, deixando de ser imposto um limite diário de 60 euros. No entanto, até ao próximo sábado o limite é ainda de 300 euros e só depois passará a ser de €420.

“Acho positivo que os bancos estejam abertos, ainda que para muitas pessoas o efeito seja mais psicológico do que outra coisa”, disse à Reuters Nikos Koulopoulos, de 65 anos. “É que, para ser sincero, nada muda muito, tendo em conta que os controlos de capital continuam em vigor.”

Um segurança de um banco no centro de Atenas dizia esta manhã ao jornal francês “Le Monde” que tudo estava “calmo” e que não havia muita gente. Já o diretor da agência descrevia terem poucos pedidos de transferências eletrónicas. “Muitos dos nossos clientes têm acesso a este tipo de operação pela Internet e não se deslocam”, explicou. “As pessoas que vieram aqui de manhã foram os reformados. Vêm levantar de uma vez os 300 euros a que têm direito, para não virem para a fila todos os dias.”

YIANNIS KOURTOGLOU/REUTERS

Preços subiram

Segundo o jornal grego "Ekathimerini", a abertura dos bancos mostra que a Grécia está a entrar numa nova fase, mas nem tudo se fica apenas por aí. Os gregos também acordaram com impostos mais altos, aumentando os preços de vários produtos, “desde o café, aos táxis ou ao óleo de cozinha”, lia-se no "Ekathimerini"

Em causa está o aumento do IVA de 13% para 23% sobre alguns produtos como carnes, óleos, café, chá, cacau, vinagre, sal, flores, lenha, fertilizantes, inseticidas ou preservativos. Segundo o jornal grego, também os restaurantes e cafés, as casas funerárias, os táxis, ferries ou escolas de línguas são abrangidos pela nova taxa.

“A abertura dos bancos não muda nada para mim”, afirma à Reuters Joanna Arvanitaki, 31 anos, funcionária de um hotel. “Eu nunca levantei 60 euros por dia – 60 euros é o que tenho numa semana.”

Já Spyros Kouroumbiotis, um pensionista grego que estava na fila do Banco da Grécia esta segunda-feira de manhã, disse ao “The Guardian” ver na abertura dos bancos um bom sinal. “Que economia é que pode funcionar sem os seus bancos?”, questiona. “Enquanto economista, eu ainda ajudo a minha família com o seu negócio e posso dizer-lhe que tem sido uma grande provação. As exportações pararam, as importações pararam, nada funcionou porque era impossível pagar a quem quer que fosse.”

YIANNIS KOURTOGLOU/REUTERS

Louka Katseli, chefe da associação de bancos gregos, confirmou à televisão estatal grega ERT que “os controlos de capital e as restrições nos levantamentos ainda vão ser aplicados”. “Mas estamos a entrar numa nova fase que todos esperamos que seja de normalidade”, acrescentou. “Percebo perfeitamente que as pessoas estejam ansiosas. Mas agir com medo produz circunstâncias que as pessoas receiam.”

Grécia já pagou, bolsa não abre

Apesar da abertura dos bancos, a bolsa grega continuava encerrada esta segunda-feira, sem que haja indicação de uma data para a sua reabertura. Segundo a porta-voz da bolsa grega, Alexandra Grispou, citada pelo diário britânico “The Guardian”, o controlo de capitais estabelecido no domingo “não nos permite abrir”. No entanto, o diretor de uma empresa financeira disse esta segunda-feira à Bloomberg que está previsto que a bolsa abra nos próximos dias.

O encerramento dos bancos na Grécia tinha sido decretado a 29 de junho, numa altura em que os levantamentos diários rondavam os 1,6 mil milhões de euros. Esta segunda-feira, o Banco Central Europeu afirmou que a Grécia cumpriu o pagamento de 4,2 mil milhões de euros que tinha de fazer à instituição.

Em Atenas, fonte próxima do Ministério das Finanças grego já tinha indicado à AFP que foram concluídas as operações para pagamento de cerca de 2 mil milhões de euros ao Fundo Monetário Internacional e de 4,2 mil milhões ao BCE.