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De regresso a Schäuble: “Estou próximo de atingir o ponto em que fico mais doce com a idade”

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BRITTA PEDERSEN / EPA

Falando à rádio pública alemã um dia depois de a violência ter regressado a Atenas, o polémico e popular ministro das Finanças alemão já tinha evidenciado ceticismos, relutâncias e desconfianças sobre as capacidades da Grécia. Foi ainda mais além numa invulgar entrevista concedida à “Der Spiegel”, onde há frases assim: “A minha avó costumava dizer que a benevolência vem antes da devassidão”. Esta é a entrevista que a Europa ainda discute, analisa e polemiza - tudo isto dias depois de ter sido publicada, motivo pelo qual há que regressar às elaborações e observações que Schäuble enunciou

Luís M. Faria

Jornalista

A entrevista agora dada por Wolfgang Schäuble à revista “Der Spiegel”, publicada no sábado, tem dado que falar por o ministro das Finanças alemão admitir a possibilidade de se demitir. Essa resposta surge quase no fim, após uma longa conversa em que as questões sobre a Grécia e o euro (do qual o ministro se afirma um convicto defensor) surgem entremeadas com referências à relação com Merkel e a lições aprendidas há muito tempo, quando Schäuble era criança.

O tom, sem ser propriamente distendido, é o de alguém que olha para as coisas na perspetiva serena de quem já viu muito. As ideias, porém, não se desviam um milímetro daquilo a que o entrevistado está associado. Quando lhe perguntam porque é que ele pensa que a medicina que não funcionou durante cinco anos na Grécia vai resultar agora, responde: “O problema é que durante cinco anos a medicina não foi tomada conforme prescrita. Por isso é tão importante agora que as medidas acordadas há muito tempo sejam implementadas”.

Sobre a hipótese de dar facilidades aos gregos, é categórico: “A minha avó costumava dizer que a benevolência vem antes da devassidão”. Mais: “Há um tipo de generosidade que pode rapidamente produzir o oposto do que se pretende”.

Quando lhe notam que ele assume o papel do pai rigoroso que tenta chamar os filhos à atenção, ele invoca outra recordação familiar: “Em casa éramos três irmãos e, quando lutávamos, o meu pai dizia sempre que o mais forte devia ceder. E assim foi nas negociações gregas. O que está na melhor posição deve tentar ajudar o mais fraco. Tentei fazer isso”. Acrescenta: “Todos temos capacidades limitadas, mas devemos procurar fazer o nosso melhor. Temos de ter consciência disso para atingir o grau necessário de compostura”. E diz, talvez irónico: “Como vê, estou próximo de atingir o ponto em que fico mais doce com a idade”.

Tem-se escrito e dito que o relacionamento com a chanceler nem sempre é o mais harmonioso

Tem-se escrito e dito que o relacionamento com a chanceler nem sempre é o mais harmonioso

WOLFGANG KUMM / EPA

Demissão? “Onde foi buscar essa ideia?”

Não são as palavras de alguém com medo de perder o cargo ou receoso de que pensem mal de si. Schäuble diz que não quis expulsar a Grécia do euro (embora sugira, citando o chanceler austríaco, que isso pode acontecer a qualquer momento) e nota ser legítimo duvidar que Tsipras vá aplicar aquilo que antes rejeitava. Mas diz que para já confia nas garantias do primeiro-ministro grego, “pois é justo”. A seguir nega que o euro contribua para dividir a Europa.

“Apenas mostra que a unidade europeia nunca é fácil.” Diz que é preciso reforçar a fé no euro, tanto junto dos mercados financeiros como entre a população, e explica que é preciso apertar as regras, a médio prazo modificando os tratados europeus. Fala em reforçar a Comissão e o Parlamento Europeu e apoia a criação de um ministro das Finanças da zona euro, embora reconheça as dificuldades políticas. Absurdas, garante, são as acusações de “estabelecer um protetorado ou abolir a democracia”. “Isso é tudo nonsense.”

Por fim, nega que ele e Merkel estejam a desempenhar papéis num jogo qualquer. “Não é estilo da chanceler, nem o meu. Cada um tem as suas convicções.” Lembra que Merkel já foi sua secretária-geral quando ele liderava o partido e mesmo aí assumiam as divergências, sem prejudicar a unidade. “Assim se manteve até hoje, embora os papéis tenham mudado. Não precisam de se preocupar.” Merkel e ele sabem que podem contar um com o outro. Diz que as diferenças de opinião fazem parte da democracia e que a responsabilidade dos políticos está ligada aos cargos que ocupam. “Ninguém os pode coagir. Se alguém tentasse, eu podia ir ao presidente e pedir a minha demissão.”

O Spiegel pergunta-lhe se está a pensar fazer isso e Schäuble responde: “Não. Onde foi buscar essa ideia?”.