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Internacional

A segunda fuga de El Chapo

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Joaquin Guzman, narcotraficante mexicano conhecido como 'El Chapo', líder do cartel Sinaloa

PEDRO VALTIERRA / EPA

Uma sofisticada obra de engenharia, acompanhada por engenharias de outros tipos, permitiu a fuga do maior narcotraficante mexicano. Mas qual o significado?

Luís M. Faria

Jornalista

O que torna realmente escandalosa a última fuga de Joaquín Guzmán Loera, conhecido como 'El Chapo', ou baixinho, não são apenas as circunstâncias em que ocorreu, mas o facto de ser a segunda. Em 2001, ele já tinha escapado de uma cadeia, e passou treze anos à solta. Quando finalmente foi preso no ano passado, os Estados Unidos queriam obter a sua extradição, mas o México não aceitou. O presidente Enrique Peña Nieto sugeriu que seria imperdoável voltar a deixá-lo partir, fosse de que modo fosse. Bom, há uma semana El Chapo voltou a partir, pelo seu próprio pé.

O modo como o fez requereu a intervenção de um bom número de cúmplices, uns participando ativamente, outros fechando os olhos. Guzmán fugiu através de um túnel que desembocava na sua cela. A entrada era através de um buraco com pouco mais de dois metros quadrados no chão do chuveiro (embora a cela tivesse câmaras, nessa zona havia uma pequena parede a tapar, por razões de privacidade). Levantada a tampa, descia-se uma escada com cerca de dez metros. Em baixo estava o túnel, que media quilómetro e meio de comprimento e estava preparado com zelo. Além da ventilação permanente e da altura do tecto - um centímetro mais que os 1,68 de Guzmán, para ele poder andar sem se curvar - havia uma motocicleta montada em carris. Antes de o fugitivo a usar, terá servido para retirar terra do túnel.

A saída no outro extremo dava para uma casa meio-construída, dentro da qual Guzmán terá encontrado roupas limpas e um meio de transporte ainda não definido. Levou algumas horas até as autoridades se aperceberem da fuga, e apenas escassos dias até Guzmán e os seus próximos começarem a gabar-se no Twitter. Para o presidente Peña Nieto, que se encontrava de visita a França, o caso ilustra a profundidade das relações entre o narcotráfico e as instituições oficiais do país. Altiplano é uma prisão de alta segurança, e Guzmán era conhecido em particular pela utilização sofisticada de túneis, quer para levar droga até aos Estados Unidos, quer para escapar de casas onde as autoridades às vezes descobriam que se encontrava. Como foi possível que, ao longo de pelo menos um ano - o tempo estimado para construir o túnel por onde fugiu - ninguém tivesse apercebido o que se preparava?

Cumplicidades de muita gente, a muitos níveis

Obviamente, não é plausível. Guzmán fugiu porque muita gente quis ou deixou que ele fugisse. Desde os cúmplices que encomendaram o túnel aos engenheiros que a realizaram (com uma precisão indicativa de mão de engenheiro) aos guardas que fecharam os olhos e os ouvidos, aos outros responsáveis da prisão que eventualmente deram instruções aos guardas, às restantes pessoas que não deram pelas preparações em redor, terá havido dezenas de pessoas envolvidas. E nem se deve excluir a hipótese de as cumplicidades chegarem ao próprio Governo do país. Embora tanto Peña Nieto como o seu antecessor, Felipe Calderon, tenham sempre feito gala da luta contra o narcotráfico, a verdade é que nessa área, como em tantas outras, a intransigência às vezes cede lugar ao pragmatismo. Mesmo independentemente do factor corrupção, que é endémico no país, o imperativo de prevenir violência pode levar as autoridades a optar pelo mal menor. E Guzmán tem fama de ser bastante apto a manipular o sistema, financeiro e não só.

Como outros narcotraficantes famosos que também nasceram pobres em zonas rurais - na família já havia quem cultivasse a papoila - ele é popular entre o povo. E tem alianças com políticos. Há décadas que o Partido Revolucionário Institucional troca votos por formas diversas de apoio. Além disso, com o México dilacerado por uma guerra sangrenta entre cartéis rivais desde meados dos anos 80, há quem diga que o Governo teria decidido apoiar o cartel de Sinaloa, dirigido por Guzmán, na sua luta contra o cartel dos Zetas, que declarou abertamente guerra ao Estado.

Da vez anterior que escapou da cadeia, em 2001, tinha passado oito anos preso alegadamente em condições de fazer inveja a muita gente - com acesso a todos os luxos, incluindo prostitutas. Parece que continuava a dirigir o seu cartel a partir da prisão, e só fugiu porque os EUA estavam em vias de conseguir extraditá-lo. Reza a lenda que se escondeu num carrinho de roupa suja. Na realidade, terá saído pela porta da frente, vestido de polícia, um dia depois de a fuga ter sido noticiada e ministros terem lá ido ver a cena. Resta saber como foi desta vez...