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Merkel usou Lisboa e Madrid para manter Grécia no euro

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WOLFGANG KUMM/EPA

Mensagem da chanceler alemã e dos Estados Unidos coincidiu: os países do resgate deviam rejeitar um ‘Grexit’

Confrontada com o risco de um ‘Grexit’, desejado pelo seu ministro das Finanças, Angela Merkel recorreu aos três países do resgate — Portugal, Irlanda e Espanha — para ajudarem a não complicar em excesso a negociação com a Grécia e, sobretudo, a travar a saída de Atenas do euro.

Os três países não tiveram uma real importância na negociação em si (apesar da contribuição que Pedro Passos Coelho disse ter dado para a solução final e a que António Costa, líder da oposição, chamou “uma tecnicidade”) mas facilitaram ou, como resume fonte próxima do processo, “contribuíram para manter uma posição construtiva”.

A validar esta utilização dos países do resgate também estiveram, com um papel diplomaticamente ativo, os Estados Unidos. Ao que o Expresso apurou, as respetivas embaixadas em Lisboa, Madrid e Dublin passaram a devida mensagem: os três países “deviam deixar muito claro que queriam a Grécia no euro”. E se esta posição fraquejou no Eurogrupo, onde segundo o ministro das Finanças italiano relatou numa entrevista, ele terá ficado sozinho com os colegas francês e cipriota a baterem-se contra a saída da Grécia do euro, a verdade é que à mesa do Conselho Europeu essa posição vingou. Ainda que com um programa duríssimo para Atenas.

“Esta ideia foi canalizada muito cedo nas reuniões: não ceder nas regras que são válidas para todos os membros do clube, mas evitar a rutura”, confirma fonte oficial, referindo-se às sucessivas maratonas negociais que antecederam o acordo. Para Angela Merkel, que percebeu o risco de ficar como a chanceler alemã que permitiu a destruição da zona euro, caso as posições do senhor Schäuble vingassem, o grande aliado para forçar um acordo foi o primeiro-ministro francês, François Hollande. Mas todas as ajudas foram mobilizadas.

Dos três países do resgate, a Irlanda terá sido o mais flexível, Portugal o menos flexível, e Espanha o mais moderado. Mas todos acabaram por convergir num sentido que ajudou a levar a bom porto o objetivo da chanceler e do Presidente Obama: segurar a Grécia, sem dar a vitória a Alexis Tsipras.

Nas reuniões privadas do PPE, as posições contra Tsipras foram sempre muito duras, com os países resgatados a insistirem ser impossível deixar que o líder do Syriza saísse deste processo com uma vitória política. Mas na frente negocial que contava, Lisboa, Madrid e Dublin perceberam não serem bem vistos do lado dos ‘falcões’.

No final, após o acordo que vergou de forma brutal a agenda do Syriza, São Bento registou “uma vitória” do Governo português. Na semana anterior, a máxima que pairava nos bastidores do Executivo de Lisboa já era, como o Expresso escreveu, conseguir que a Grécia “amochasse e ficasse”.