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Moçambique. “Portugal está em vantagem para investir primeiro”

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Vista de Maputo, capital de Moçambique, que está entre os dez países que mais crescem em África

Getty

Mário Machungo, antigo primeiro-ministro moçambicano, considera que Portugal deve explorar o conhecimento que tem do país. Presidente Filipe Nyusi chega esta quinta a Lisboa para uma visita de quatro dias, a primeira fora do continente africano. Traz 150 empresários

Luísa Meireles

Luísa Meireles

Redatora Principal

Foi quase tudo em Moçambique: ministro da Coordenação Económica antes da independência, depois ministro da Indústria e Comércio, da Agricultura, do Plano e, finalmente, primeiro-ministro, entre 1986 e 1995, antes de ser nomeado presidente do Millennium Bim, cargo que abandonou há dois meses. Conhece bem demais o seu país e por isso diz nesta entrevista ao Expresso: “dentro de uma largas dezenas de anos Moçambique não vai ser mais identificado como um dos países mais pobres do mundo, porque já agora está entre os 10 que mais crescem em África”.

Mário Machumgo, ex-primeiro-ministro de Moçambique

Mário Machumgo, ex-primeiro-ministro de Moçambique

Quanto a Portugal, é perentório: “Há aqui um conhecimento acumulado de muitos séculos que mais ninguém tem e por isso Portugal tem vantagens competitivas face a outros investidores. Conhecer a região e dominar a língua não é determinante mas é muito importante e facilita”. Por isso sugere: “Portugal cresceu muito ultimamente nas pequenas e médias empresas vocacionadas para a indústria transformadora, que é o que nós queremos agora”. Dito de outro modo, é tempo dos portugueses viraram a agulha e dirigirem-se para setores onde são mais concorrenciais.

Mário Machungo, que se formou em Lisboa, no antigo ISEG (foi colega de Cavaco Silva, de quem ainda guarda algumas sebentas), adianta que o volume de quadros e recursos humanos que Portugal tem formado em todos os domínios e sobretudo nas tecnologias de ponta são muito importantes para o desenvolvimento de Moçambique: “precisamos de desenvolver recursos humanos urgentemente, senão toda a ambição de desenvolvimento futuro não será possível“.

Portugal terceiro maior investidor

“Os recursos humanos portugueses que forem para Moçambique, enquadrados em pequenas e médias empresas portuguesas associadas preferencialmente com moçambicanas, deverão orientar-se para os setores do ensino, saúde, setores sociais”, afirmou, sublinhando que “Portugal pode desempenhar um papel muito importante em setores estratégicos e vitais para o futuro económico de Moçambique e nós precisamos urgentemente de desenvolver recursos humanos”.
Portugal foi, no ano passado, o quarto maior investidor externo em Moçambique (€300 milhões), no primeiro trimestre de 2015, subiu mesmo para terceiro lugar, tendo em conta o número de projetos aprovados, no valor de €50 milhões, segundo os dados do Centro de Promoção de Investimentos de Moçambique.

O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, com empresários portugueses, entre eles Nuno Amado, presidente executivo do Millennium BCP

O Presidente moçambicano, Filipe Nyusi, com empresários portugueses, entre eles Nuno Amado, presidente executivo do Millennium BCP

António Silva / Lusa

Se a estes números forem acrescidos os do investimento direto português em parceria com capital moçambicano, os valores aumentam para cerca de €380 milhões. A maioria do investimento dirigiu-se para o setor industrial, serviços e seguros e concentrou-se no sul do país.
Segundo o antigo primeiro-ministro, os portugueses, que têm estado muito concentrados no imobiliário (construção civil e infraestruturas), na indústria hoteleira e na área financeira, começando a despontar também na agricultura (um área de grande futuro no país, considera) devem, por exemplo, começar a pensar nos portos.

“Moçambique tem três mil quilómetros de costa, com portos muito importantes, que são uma porta de entrada e saída do países do interior de África e até da África do Sul, que não pode prescindir de portos no Índico - o que , já de si, é uma vantagem competitiva de Moçambique”, sublinha Machungo. “Mas Portugal, com o conhecimento que tem, pode assumir a responsabilidade de construção e reconstrução de portos porque tem a base de dados que lhe permite avançar nesse tipo de investimento, no sentido leste-oeste, que é absolutamente rentável”, destaca o antigo PM e último presidente da Assembleia Geral da Casa dos Estudantes do Império.

A indústria extrativa necessita muitíssimo dessas saída, como a do gás no Porto Pemba (antigo Porto Amélia), que é a terceira maior baía do mundo e pode ser aproveitado para criar uma logística para exportação e indústria do gás e petróleo na zona; ou o porto de Nacala, de águas profundas, que pode servir para escoar o carvão, outras das grandes receitas do país, bem como as madeiras. Os portugueses estão também empenhados na industria florestal, com um projeto da Portucel participado pelo Banco Mundial, que representa €2,1 milhões e sete mil postos de trabalho e que é, portanto, um dos maiores negócios fora da industria extrativa.

Portugueses sim, mas não qualquer um

A voz do antigo primeiro-ministro junta-se assim à do próprio presidente da Associação Moçambicana de Economistas que, hoje, mesmo, num pequeno-almoço de trabalho em Lisboa, avisou que o seu país não é um “El Dorado”, e que a cooperação tem de ser sobretudo parcerias e não apenas exportação de produtos com um parceiro local.

Mário Machungo referiu-se, aliás, aos problemas havidos em tempos recentes, que levou ao levantamento de entraves, por parte de Moçambique: “muitos emigrantes iam para Moçambique sem finalidade definida, à procura de qualquer coisa, confrontando-se com a própria procura dos moçambicanos. Nós não podemos prescindir em nenhum momento histórico de importação de mão de obra especializada, mas tem que se ver o setor”, advertia. “Houve uma altura em que os portugueses até já estavam no transporte semicoletivo informal, o que levou os moçambicanos a queixar-se. Tem de haver uma seleção de qualidade”.

Desenvolvimento a 7%

Apesar do abrandamento do ano passado, Moçambique tem mantido um crescimento da ordem dos 7% (7,4% em 2014) e, este ano, devido às cheias do princípio do ano, é possível que abrande mais um pouco, devido aos recursos que a reabilitação das infraestruturas vai absorver. O crescimento é impulsionado sobretudo pelas indústrias extrativas (carvão), mas Mário Machungo considera que outras áreas têm possibilidades de desenvolvimento, até porque o país “não pode viver só de grandes projetos que investem biliões mas empregam meia dúzia de indivíduos”.

O economista considera vital “criar clusters industriais, a jusante e a montante das grandes empresas de capital intensivo, PME que são estabilizadores de economia e da sociedade, porque criam a classe média, que é necessária“.

Crianças em Maputo

Crianças em Maputo

MIKE HUTCHINGS/REUTERS

Segundo o antigo PM, uma das áreas de futuro - para além da extrativa, nomeadamente do gás (os recursos já aprovados vão para 200-300 triliões de pés cúbicos, o que pode tornar Moçambique o terceiro maior produtor mundial) - é a agricultura, que pesa 1/4 do PIB e ainda emprega 70% da população.

“Há milhões de hectares irrigáveis para produzir cereais, algodão, gergelim, leguminosas, batatas, cereais”, afirma, acrescentando que outro dos setores promissores é a pesca, para além do turismo e da produção hidroelétrica”, que pode bastar ao consumo interno e sobretudo servir para exportar para África do Sul, que “necessita de energia elétrica como de pão para a boca”.

O problema é a estabilidade

O antigo Primeiro-ministro, que viveu os tempos da guerra, sabe do que vale quando diz que “a paz, a segurança e a estabilidade são sempre um fator que motiva o investidor”. Apesar de tudo, realça, o investimento tem vindo a aumentar, o que prova que o investidor tem confiança nas autoridades moçambicanas, “mas não podemos ficar de braços cruzados”.

Filipe Nyusi, durante as cerimónias do 40º aniversário da independência de Moçambique

Filipe Nyusi, durante as cerimónias do 40º aniversário da independência de Moçambique

António Silva / EPA

Machungo valoriza o emprenho do novo Presidente, Filipe Nyusi, que representa um político de outro tipo e que “tem sempre posto a tónica na paz e na inclusão”. O novo Presidente já se encontrou com Afonso Dhlakama e os dois partidos, Frelimo e Renamo, estão envolvidos em rondas negociais para resolver os diversos problemas (já vão na 111ª ronda) mas estes estão longe de estar completamente afastados.

Para o antigo PM, “é absurdo num país em paz haver um partido armado, quando se fala em democracia não se pode brandir uma AKM”. Mas o líder da Renamo faz a espaços as suas ameaças, como a que fez recentemente, segundo a qual pode voltar a bloquear estradas, como forma de exigência de criação de autarquias. A integração das forças residuais da Renamo nas forças de segurança está também atrasado, já para não falar do chamado processo de redistribuição da riqueza, que é o último ponto da agenda do diálogo político bilateral em curso há pouco mais de dois anos.

E alguém faz curso de ministro?

Aos 74 anos, Mário Machungo deixou de ser há dois meses presidente do Millenium bim, depois de ter sido uma das figuras mais proeminentes da política moçambicana. Formado no antigo ISEF português, onde foi colega de Cavaco Silva - conta que ainda guarda uma ou duas sebentas do atual Presidente da República, porque ele “era muito organizado” - foi também o último presidente da Assembleia Geral da Casa de Estudantes do Império, entre 1964-65.

Quando estudava em Portugal, nos anos sessenta, já era quadro da Frelimo na clandestinidade e, no seu regresso, era um dos três únicos quadros negros licenciados do movimento. Em 1974, depois do 25 de Abril e antes da independência, foi designado ministro da Coordenação Económica, uma pasta imensa, onde teve a coadjuvá-lo como secretário de Estado Luís Salgado de Matos.

É o próprio que conta como foi. A 7 de setembro, quando se dá o levantamento dos portugueses em Moçambique, Mário achungo estava em Lusaka com Samora Machel para a assinatura dos acordos, mas, ao contrário de outros, que receberam ordens para regressar imediatamente a Moçambique, ele foi mandado ficar e seguir depois com a equipa das negociações para Dar-es-Salam.

“Samora não me disse porquê”, relata. “Mas passado um tempo chama-me e manda-me preparar para tomar conta da equipa do Governo de transição. 'Ficas ministro da Coordenação Económica' - disse, ao que eu retorqui: 'mas eu não sei como isso se faz!”. Samora não teve para mais mais e atirou-lhe: “E tu pensas que algum de nós fez curso superior de ministro?”.

O argumento não admitia réplica. Mário Machungo ficou, foi ocupando sucessivas pastas, que culminaram com a de primeiro-ministro durante nove anos. Retirou-se da vida política ativa em 1995.