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Varoufakis diz que só por milagre a dívida grega será reestruturada

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SIMELA PANTZARTZI/EPA

Na sua primeira entrevista após ter deixado de ser ministro das Finanças da Grécia, Yanis Varoufakis mostra-se pessimista e recorda que nas reuniões do eurogrupo tanto fazia apresentar um plano estruturado como cantar o hino nacional da Suécia, pois os credores não estavam, sequer, interessados em negociar

“Eu confio e espero que o nosso Governo irá insistir na reestruturação da dívida, mas não vejo como o ministro das Finanças alemão (Wolfgang Schäuble) irá alguma vez aprovar isso. Se o fizer, será um milagre”, afirma Yanis Varoufakis, na entrevista publicada esta segunda-feira pela “NewStatesman”, a primeira concedida após ter deixado ser ministro das Finanças da Grécia, .
Varoufakis diz que as reuniões do eurogrupo são uma espécie de orquestra dirigida pelo ministro Schäuble,: “É como uma orquestra bem afinada e ele é o maestro. Tudo acontece em sintonia. Há momentos em que a orquestra fica desafinada, mas ele intervém e volta a colocar tudo na ordem”.
Nas reuniões do eurogrupo, afirma que ninguém faz verdadeira oposição a Schäuble, que mesmo o ministro das Finanças francês “limitou-se a fazer alguns ruídos”, acabando sempre por no fim aceitar a linha oficial determinada pela Alemanha.
Varoufakis diz que quando o presidente do eurogrupo ameaçou expulsar a Grécia do euro, solicitaram pareceres a especialistas jurídicos, que indicaram que o grupo não tem sequer uma existência legal, lamentando que seja nesse grupo, “que não tem sequer uma base legal”, que resida o “maior poder para determinar as vidas dos europeus”.
O ex-ministro grego considera que os credores não estavam sequer interessados em negociar e que se sentia exasperado nas intermináveis reuniões, onde ninguém estava interessado nos planos estruturados que apresentava, e que sentia que apresentá-los ou “cantar o hino nacional da Grécia” daria lugar ao mesmo resultado.
As negociações demoraram uma eternidade, pois “o outro lado recusava-se a negociar”, recorrendo a diversas estratégias para prolongar o processo, ao mesmo tempo que o banco central europeu criava pressão “diminuindo a liquidez dos bancos gregos”.
De Schäuble recorda um discurso “totalmente consistente” e que o governante alemão lhe explicou que o programa de resgate económico já tinha sido aceite pelos anteriores Governos (gregos) pelo que não havia campo para alteração, pois se cada vez que houvesse eleições num dos 19 Estados membros os acordos mudassem eles “perderiam todo o significado”.
Diz que chegou ao ponto de lhe responder: “Bem, talvez nós devêssemos pura e simplesmente deixar de ter eleições nos países endividados”.
Varoufakis lamenta que os supostos defensores da democracia europeia sejam pessoas sem “quaisquer escrúpulos democráticos”, considerando que “a eurozona é um local muito inóspito para pessoas decentes”.
Pessimista quanto ao futuro afirma que “se nós (Syriza) conseguirmos sair desta trapalhada unidos, e lidar adequadamente com um Grexit… seria possível ter uma alternativa”, acrescentando: “Não tenho a certeza que conseguiríamos gerir isso (a saída do euro), porque gerir o colapso de uma união monetária requer alto nível de capacidade técnica, e não tenho a certeza que nós a tenhamos aqui na Grécia sem o auxílio de gente de fora”.