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O dia que trará alguma luz sobre o futuro da Grécia

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Domingo, Atenas: gregos celebram o triunfo do "não". Dois dias depois, decide-se muito sobre o futuro do país em reuniões sucessivas em Bruxelas

KAY NIETFELD

Tem sido intenso e assim continuará esta terça-feira: o sucessor de Varoufakis estreia-se no Eurogrupo, Tsipras vai a Bruxelas pedir o alívio da dívida, há reuniões de ministros das Finanças e de chefes de Estado da zona euro, os bancos gregos permanecem fechados - e diz-se que asfixiados - e, sobretudo, há uma palavra que tenderá a marcar as próximas horas - “responsabilidade”

O dia é importante para trazer alguma luz sobre a permanência da Grécia na moeda única. As relações entre Atenas e os credores oficiais estão congeladas à espera de um sinal político que possa fazer avançar as negociações do terceiro resgate já pedido pelo governo do Syriza.

São muitos os alertas de que um entendimento é cada vez mais difícil. Nem tudo o que Alexis Tsipras pede os restantes parceiros do euro estão dispostos a dar. Um dos lados, ou mesmo os dois, terá de fazer cedências para se chegar a um acordo que mantenha a zona euro intacta.

Ao meio-dia reúnem-se os ministros das finanças da moeda única. Às cinco da tarde será a vez dos chefes de Estado e de Governo da zona euro se sentarem à mesa e discutirem o futuro da Grécia à luz do resultado do referendo de domingo.

"O tempo é curto", "a situação é complicada", "o colapso bancário está à espreita". A primeira frase é do presidente Francês, François Hollande, a segunda é do vice-presidente da Comissão Europeia Valdis Dombrovskis e a terceira é a consequência da decisão do Banco Central Europeu de não aumentar o teto da linha de emergência de liquidez (ELA) e de ter "ajustado" o nível da redução que aplica ao valor das garantias que os bancos helénicos apresentam para pedir esses financiamentos de emergência.

Alexis Tsipras conhece o cenário e a sabe que a asfixia financeira está perto do limite. Os bancos gregos continuam fechados pelo menos até esta quarta-feira. Os cofres gregos precisam urgentemente do dinheiro dos credores oficiais, mas o primeiro-ministro grego não viaja até Bruxelas para aceitar qualquer acordo.

A reestruturação da dívida é um dos objetivos de Tsipras, que acredita que a vitória do “não” às propostas dos credores reforçou a posição negocial grega. Atenas quer que o alívio da dívida – diminuição dos juros e aumento das maturidades – comece a ser discutido já numa primeira fase de negociações do terceiro programa de assistência. Em Bruxelas, deverá invocar a análise divulgada pelo FMI na semana passada e que dá conta dessa necessidade de reestruturar a dívida grega. 

A chanceler alemã, Angela Merkel, e o presidente francês, François Hollande, já mostraram que estão disponíveis para ouvir e esperam que Tsipras traga propostas concretas e duradouras para a cimeira extraordinária da zona euro. Mas em nenhum momento os dois líderes europeus se mostraram disponíveis para discutir já a questão da dívida. Merkel e Hollande exigem sim “responsabilidade”.

Tsipras continua a defender que é precisa uma “solução viável”, sem mais austeridade, que permita à Grécia retomar o caminho do crescimento económico. Na passada terça-feira esteve perto de aceitar as propostas dos credores, ainda que pedindo “alterações”, nomeadamente em termos de IVA e de pensões. Uma vez mais terá sido a indisponibilidade das instituições e do Eurogrupo para falarem já de uma alívio de dívida que levou o primeiro-ministro grego a esperar pelo referendo de domingo para voltar à mesa das negociações.

Antes do cimeira dos 19 chefes de Estado e de Governo da moeda única há reunião dos seus ministros das Finanças. A discussão deverá ser em torno “da credibilidade, confiança, iniciativas e possíveis direções para uma solução”, disse ao Expresso fonte do Eurogrupo, afastando um entendimento em torno da questão da dívida.

A reunião do Eurogrupo marcará o primeiro encontro entre o novo ministro grego das finanças, Euclid Tsakalotos, e os restantes colegas. Será o teste para perceber se Yanis Varoufakis era realmente o foco de tensão e de desconforto entre os membros do Eurogrupo.

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