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Yanis Varoufakis, o marxista "errático"

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JOHN THYS

O ministro das Finanças grego, que hoje pediu a demissão apesar da vitória do "Não" no referendo, atingiu o estrelato e a infâmia este ano, com um estilo urbano descontraído e com os abrasivos ataques contra a austeridade. 

Num anúncio surpreendente, horas apenas após o anúncio dos resultados do referendo, Yanis Varoufakis disse que abandonava o cargo de ministro das Finanças para ajudar o primeiro-ministro, Alexis Tsipras, a continuar as negociações com os credores internacionais. 

"Pouco depois de serem anunciados os resultados do referendo, fui informado de uma certa preferência de alguns participantes do Eurogrupo, e de vários parceiros, pela minha 'ausência' nas reuniões. Uma ideia que o primeiro-ministro considerou ser potencialmente útil para que conseguisse chegar a um acordo. Por este motivo deixo o Ministério das Finanças hoje", disse Varoufakis, através do seu blogue, depois de ter feito o anúncio na sua conta de Twitter.

Durante os últimos cinco meses de negociação entre Atenas e os credores internacionais, o autodenominado "marxista errático" parecia mais à vontade conversando com os anarquistas desempregados do que com outros ministros das Finanças europeus, que muitas vezes se enfureciam com as suas táticas de negociação abruptas, descreve a agência noticiosa AFP.
O comissário europeu dos Assuntos Económicos, Pierre Moscovici, comentou que Varoufakis "é uma pessoa inteligente, nem sempre fácil, mas inteligente". 

O seu estilo direto causou alguns momentos marcantes, incluindo a sua caraterização da austeridade imposta à Grécia como um 'waterboarding fiscal' [técnica de tortura que consiste em simular o afogamento].

Depois de as negociações terem falhado entre a Grécia e os seus credores, Varoufakis criticou a governação na Europa. 

"Isto não é forma de gerir a união monetária. Isto é uma farsa. Isto tem sido uma comédia de erros que já dura há cinco anos, que a Europa tem vindo a prolongar e a disfarçar", disse Varoufakis numa entrevista à BBC. 

Depois de assumir a pasta das Finanças gregas em janeiro, passou por "algumas dores de crescimento" enquanto se adaptava à nova realidade de estar sob os holofotes da imprensa, escreve a AFP. 

Varoufakis foi fotografado para a Paris Match ao piano e a jantar em grande estilo com a mulher no terraço do seu "ninho de amor, aos pés da Acrópoles", enquanto dizia à revista que abominava "o estrelato".

Yanis Varoufakis é filho de Giorgos Varoufakis, que aos 90 anos dirige uma das maiores produtoras de aço da Grécia, a Halyvourgiki. O ministro demissionário frequentou a Moraitis School, que teve entre os seus estudantes proeminentes líderes e artistas gregos. 
O seu início de carreira foi passado nas universidades britânicas de Essex, East Anglia e Cambridge.

Em 1998 mudou-se para a Austrália e atualmente detém as cidadanias grega e australiana. 
No ano 2000 regressou à Grécia para ensinar na Universidade de Atenas e em janeiro de 2013 aceitou um cargo na Universidade do Texas, em Austin. 

Como ministro das Finanças, Varoufakis, com o cabelo rapado, abalou o 'mundo sisudo' das cimeiras da UE ao chegar às reuniões vestido com casacos de couro e camisas por fora das calças, ao estilo das estrelas da música rock e do cinema, tendo sido rapidamente apelidado de "Bruce Willis da Grécia".

'Blogger' ativo, Yanis Varoufakis escreveu vários livros, incluindo "The Global Minotaur: America, Europe and the Future of the Global Economy".

No seu blogue, Varoufakis apresentou razões para os gregos votarem "não" no referendo, incluindo que o país "vai ficar no euro", independentemente do resultado.

Em declarações à Bloomberg TV, disse que preferia "cortar um braço" do que continuar como ministro no caso da vitória do "sim".

O 'não' às propostas dos credores obteve 61,31% no referendo de domingo na Grécia, segundo números definitivos, hoje divulgados pelo Ministério do Interior grego.
Com a totalidade dos votos contados, o 'sim' foi a escolha de 38,69% dos gregos enquanto 5,80% dos votos foram considerados brancos ou nulos.

A abstenção foi de 37,5%, num universo de quase 10 milhões de eleitores, de acordo com os mesmos dados.