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O jantar de Hollande e Merkel: a missão impossível do mediador francês

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POOL / Reuters

O Paris político está ao rubro. O impossível não é francês, dizem os franceses. Pressionado por todo o lado, o presidente François Hollande - que janta esta segunda com a chanceler - tenta evitar a todo o custo uma rutura da UE com a Grécia

Pascal Cherki, deputado do PS francês, não tem dúvida alguma. “François Hollande terá de pôr o peso todo da França na balança e dizer à chanceler Ângela Merkel e a todos parceiros europeus que não haverá compromisso possível, que não haverá futuro para a zona euro, se não se avançar para a reestruturação da dívida grega - Hollande tem de procurar um compromisso sobre isso, sobre a reestruturação da dívida grega”, diz ao Expresso.

O parlamentar socialista, que esteve em Atenas durante todo este fim de semana para apoiar o primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, espelha bem a efervescência que se vive esta segunda-feira em Paris.

“O presidente Hollande está em contactos permanentes, sempre a trabalhar para encontrar o bom compromisso para manter a Grécia no euro”, confirma Emmanuel Macron, ministro francês da Economia, a poucas horas da reunião e do jantar entre a chanceler alemã e o presidente francês no Eliseu.

Com efeito, o presidente francês tem-se multiplicado em contactos desde domingo à noite, quando foram conhecidos os resultados do referendo grego. Os serviços oficiais do Eliseu sublinham eles próprios a extraordinária agitação que atingiu nas últimas horas o Palácio presidencial francês e divulgaram nesta segunda-feira diversas fotos com Hollande em permanência ao telefone ou em reuniões sobre a crise na Europa.

“O Eliseu e o Governo francês manterão abertos todos canais e todas as pontes para manter o diálogo com Atenas e salvar a zona euro e a UE”, dizem fontes do Eliseu.

Sob forte pressão interna – dirigentes da oposição da direita francesa, como Nicolas Sarkozy e Alain Juppé, antigos presidente e primeiro-ministro, dizem ser “necessário organizar a saída da Grécia da zona euro” –, Hollande enfrenta igualmente vigorosos constrangimentos externos.

Com efeito, muitas nações europeias, entre elas a Alemanha e diversos “pequenos países”, defendem uma posição dura, enfatizando as reticências para a reabertura de negociações com o Governo de Tsipras, mesmo depois da demissão do polémico antigo ministro das Finanças, Yanis Varoufakis.

Michel Sapin, ministro francês das Finanças que, tal como François Hollande, tinha apelado ao voto no “sim” no referendo grego, mostra-se, no dia a seguir ao sufrágio, relativamente moderado e diz que a torneira do dinheiro do Banco Central Europeu não deve ser fechada para os bancos gregos, que se encontram à beira da asfixia financeira.

Mesmo Sapin defende agora também uma reestruturação da dívida grega, embora lembre que á a Atenas que compete formular propostas realistas – “porque os gregos têm uma dívida não aos mercados financeiros, mas a nós próprios, aos cidadãos franceses, que lhe emprestámos dinheiro em nome da solidariedade”.

No auge dos contactos e das negociações, a posição francesa parece ser esta, segundo uma fonte oficial contactada pelo Expresso - “os gregos podem contar com a França, mas têm de se comprometer a cumprir as regras dos tratados e da zona euro, têm de lançar reformas. A seguir, tudo é possível, incluindo reestruturar a dívida”.

Paris considera existir “um risco” de saída da Grécia da moeda única, mas garante que fará tudo para o evitar - fontes oficiais do Eliseu sublinham que qualquer solução terá de passar “por um acordo do eixo franco-alemão”.   

“A posição francesa tem de ser a da procura de um compromisso porque, se não houver negociação - designadamente sobre a reestruturação da dívida grega - e se Grécia sair, a zona euro fica em perigo, a sua credibilidade será atingida”, conclui Pascal Cherki. 

Fontes do ministério francês das Finanças indicam que os custos para a França de uma eventual saída da Grécia do euro se elevariam a mais de 70 mil milhões de euros - a dívida de Atenas a Paris é de cerca de 40 mil milhões de euros.