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“A democracia não pode ser chantageada”: “não” vence em todas as divisões eleitorais gregas

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Muitos gregos saíram à rua na noite do referendo para festejar a vitória do "não"

MARKO DJURICA / REUTERS

Uma vitória esmagadora para o “não” - 61,3%. Tsipras garantiu ao país, no meio da euforia nas ruas, que irá continuar a negociar e que quer reestruturar a dívida grega. A Europa já reagiu: “lamentável”, diz o Eurogrupo

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

"A democracia não pode ser chantageada." Foi assim que o primeiro-ministro grego se dirigiu ao país no seu primeiro discurso depois de ser conhecido o resultado do referendo que ele próprio convocou, há pouco mais de uma semana: 61% a favor do "não", que foi a hipótese mais votada em todas as divisões eleitorais do país. A posição defendida por Alexis Tsipras e por todo o Governo grego conseguiu uma vitória esmagadora que não deixa margem para dúvidas sobre quem os gregos querem a conduzir os seus destinos: o Syriza de Tsipras e a sua estratégia de reduzir a austeridade e exigir uma renegociação da dívida. 

Esse foi um dos pontos frisados por Tsipras neste discurso, onde declarou que a prioridade do Executivo é agora "restaurar a funcionalidade do sistema bancário e a estabilidade económica". O primeiro-ministro prometeu que irá prosseguir as negociações e que levará para cima da mesa a questão da reestruturação da dívida. Esse foi um ponto levantado por um dos credores, o Fundo Monetário Internacional (FMI), a poucos dias do referendo, o que pode ter ajudado o "não" a ganhar fôlego. 

A vitória do "não" é um voto de confiança ao Governo de Tsipras e um sinal claro dos gregos às lideranças europeias de que não estão dispostos a aceitar mais cedências. Nas ruas de Atenas, o ambiente era de festa: "Nasce finalmente um novo dia", dizia o grego Christos ao Expresso na capital grega, esta noite. É apenas um dos milhares de desempregados do país, onde cerca de um quarto da população não consegue encontrar trabalho.  

A situação é especialmente grave entre os gregos mais jovens, onde o desemprego chega aos 50%. Esse é um factor que pode ter contribuído para a opção mais sonora pelo "não" entre as camadas mais jovens - segundo números avançados pelo analista grego Yannis Koutsomitis, o "oxi" era bem mais popular entre a juventude (67%) do que entre os mais velhos (37%). 

Os resultados quando já estavam 97% dos votos apurados

Os resultados quando já estavam 97% dos votos apurados

Oposição destroçada 

A derrota do "sim", que não foi além dos 38%, é também a derrota da oposição grega, que não consegue afirmar-se como alternativa ao Syriza, partido ainda líder em todas as sondagens. 

Na sequência do falhanço eleitoral, o líder do partido de centro-direita Nova Democracia (ND), Antonis Samaras, cedeu à pressão dos que pediam o seu afastamento no próprio partido e demitiu-se da liderança da ND. O antigo primeiro-ministro, que esteve no poder até à vitória do Syriza a 25 de janeiro de 2015, admitiu que o seu partido necessita de "um novo começo", mas reforçou que não se arrepende do seu percurso. "Cada decisão difícil que tomei foi para prevenir o pior", disse. 

A vitória do "não" deixa assim em maus lençóis não só a ND, mas também o europeísta To Potami e os socialistas do Pasok. Os três partidos fizeram campanha ativa pelo "sim" e mostraram-se disponíveis ao longo das duas últimas semanas para fazer parte de qualquer solução governativa que permitisse chegar a um acordo com os credores oficiais. Mas os eleitores gregos deixaram claro que preferem continuar no rumo atual.  

De fora das contas ficam os neo-nazis da Alvorada Dourada, que votaram a favor do referendo mas não fizeram campanha ativa por ele, e os comunistas do KKE, que se abstiveram no Parlamento e acabaram por defender um voto nulo, que dissesse "não" às propostas dos credores e "não" à alternativa do Governo. 

Alexis Tsipras na sua declaração ao país

Alexis Tsipras na sua declaração ao país

ANDREA BONETTI/PRIME MINISTER OF GREECE PRESS OFFICE/HANDOUT

O dia seguinte 

Tudo está agora dependente da forma como os credores olharem para este resultado. Os organismos europeus já estão a preparar várias reuniões para responder a esta questão, com a Comissão Europeia a "respeitar" o resultado e chutando as reações do seu presidente, Jean-Claude Juncker, para terça-feira, quando este se dirigir ao Parlamento Europeu. O presidente francês, François Hollande, e a chanceler alemã, Angela Merkel, combinaram uma reunião para segunda-feira assim que foram conhecidas as primeiras previsões depois do fecho das urnas, que davam a vitória ao "não". 

Segunda-feira é também dia de reunião do Banco Central Europeu (BCE). Esta pode ser absolutamente decisiva para o futuro da liquidez dos bancos gregos - e para o dia a dia dos gregos, por arrasto -, conforme o organismo decidir manter ou não a linha de liquidez de emergência (ELA). A situação é atualmente tão crítica que o Banco da Grécia põe inclusivamente a hipótese de reduzir o valor diário permitido dos levantamentos de 60€ para 20€, segundo avança o "Financial Times".  

O editor de economia do "Guardian", Larry Elliott, coloca as cartas na mesa: "A tentação para os credores pode ser deixar os gregos suar um pouco, para ver se um par de semanas numa economia sem dinheiro pode fazer o que o referendo não conseguiu - provocar uma mudança de regime", escreve o jornalista, referindo-se a uma possível decisão do BCE de deixar tudo como está e não aumentar a liquidez. "Mas manter isto durante muito tempo é arriscado." 

Esta terça-feira será dia de reunião do Eurogrupo, como já confirmou o presidente Jeroen Dijsselbloem, que aproveitou para classificar o resultado do referendo como "lamentável". Depois seguir-se-á uma cimeira de líderes europeus, para discutir de urgência o tema Grécia e o seu terceiro resgate, como foi pedido pelo Governo grego.

Merkel e Hollande não fizeram declarações - nem permitirão perguntas dos jornalistas no seu encontro desta segunda-feira, segundo revelava este domingo de tarde o correspondente do "Le Monde" em Berlim -, mas o vice-chanceler alemão e líder do partido da coligação governativa SDP, Sigmar Gabriel, não poupou nas palavras: para ele, Tsipras "demoliu as últimas pontes sobre as quais a Europa e a Grécia podiam ter caminhado para um compromisso". Haverá negociação possível?