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"Só gostava que houvesse uma terceira opção"

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FOTO LOUISA GOULIAMAKI/AFP/Getty Images

Gregos vão às urnas sem esperança nem ilusões, com a mesma expressão carregada com que na última semana fizeram fila à frente das caixas multibanco. Para muitos, o referendo só vai decidir a forma como o povo prefere morrer

Preparados para o pior e sem ilusões quanto ao futuro, os gregos estão a afluir às urnas em massa para uma escolha que muitos classificam como a mais difícil das suas vidas. Ganhe o Não ou o Sim, Oxi ou Nei, estão certos de que têm à sua frente tempos ainda mais difíceis do que os cinco anos negros que os trouxeram até aqui.

Nas escolas, onde funciona a maioria das 19 mil assembleias de voto, as filas acumulam-se, num ambiente de enorme ansiedade e expectativa. Os eleitores esperam largos minutos para votar, em silêncio e com a mesma expressão carregada com que na última semana fizeram bicha à frente das caixas multibanco.

Já não se respira esperança ou optimismo como se sentia há apenas cinco meses, nas eleições realizadas no final de janeiro e que deram a vitória ao Syriza, com a promessa do fim da austeridade. Agora, muitos acreditam que este referendo apenas vai decidir a forma como o país prefere morrer. Mais lenta e dolorosa, com mais impostos e novos cortes em salários e pensões, ou mais rápida e brutal, como uma saída do euro, um retorno ao dracma e uma vaga implacável da inflação.

“É uma escolha muito difícil, porque sofreremos qualquer que seja o resultado. Mas apesar de tudo, se demorar mais tempo, talvez tenhamos hipóteses de sobreviver. Por isso, votei Sim. Sei que vai ser muito duro e que vamos ter ainda mais austeridade do que até aqui. Mas prefiro ficar sem uma mão do que perder as duas”, conta ao Expresso Nick Pantazopoulos, de 60 anos, um motorista que ficou sem trabalho em 2012, que perdeu o subsídio poucos meses depois e que vive agora graças ao que o pai, de 84 anos, amealhou em quatro décadas de trabalho duro no estrangeiro.

Yannis, engenheiro de 39 anos, também esteve emigrado. Depois de três anos no Dubai, regressou agora à Grécia, num dos momentos mais dramáticos da história recente do país. Vota na mesma escola que Nick, uma primária em Vrilíssia, subúrbio do norte de Atenas. “Se estivesse à espera que a situação melhorasse para regressar, não regressaria nem nos próximos 20 anos”, diz.

O engenheiro não tem ilusões, nem réstia de esperança relativamente ao futuro. Sabe que será negro. Mas, pelo menos, terá “dignidade”, se o Não ganhar, acredita. “Já perdemos grande parte do respeito por nós próprios nos últimos anos. Se dissermos que sim, perderemos o que nos resta e ficaremos muitos mais anos de cabeça baixa. Sei que vai ser muito difícil se de facto voltarmos ao dracma, mas estou pronto para as consequências. Não nos podem comprar o orgulho”, defende.

Quase dez milhões de gregos votam este domingo o futuro do país, no primeiro referendo depois de 1974, quando escolheram abandonar a monarquia e instituir a república. Desta vez, o que está em causa é aceitar ou não o programa apresentado pelos credores internacionais (Comissão Europeia, Fundo Monetário Internacional e Banco Central Europeu) há mais de uma semana, e que implica adicionais medidas de austeridade.

As últimas sondagens, publicadas sexta-feira, dão empate técnico entre o Sim e o Não. A diferença entre os dois lados foi-se estreitando com a aproximação da consulta popular e o crescimento das filas nas caixas multibanco e do medo relativamente a uma possível perda de 30% de todos os depósitos acima de oito mil euros, uma informação já negada pelo Governo, mas que órgãos internacionais como o Finantial Times garantiram esta semana estar a ser equacionado.

De acordo com os especialistas, há uma divisão marcadamente social e económica entre os eleitores de cada um dos lados em confronto. Tendencialmente, os mais qualificados e favorecidos votam Sim, assim como os mais idosos, enquanto os mais pobres e os jovens preferem o Não. A abstenção, que nas últimas eleições rondou os 30%, poderá ser determinante no resultado, assim como o voto dos cerca de 180 mil jovens que vão agora às urnas, pela primeira vez.

Como milhões de gregos, Konstadina, estudante de Literatura Inglesa de 22 anos, diz-se profundamente angustiada com o referendo. “É a escolha mais difícil da minha vida”, desabafa. Como o país, a família da jovem está dividida. O tio, dono do restaurante onde trabalha, é um convicto defensor do Não. “O Sim é mais do mesmo. Só nos trouxe miséria”, diz-lhe.

Ela tem medo das consequências. Não quer “trair a Grécia”, como é visto por muitos o voto no Sim, mas gostava de “ir estudar para o estrangeiro, poder vir a comprar uma casa e ter um futuro melhor”, o que não acredita que possa acontecer se ganhar o Não. “Se sairmos do euro, ficaremos muito pobres. Não podemos ficar por nossa conta porque não produzimos nada”, explica. Mas não está muito convicta. Sabe que o Sim também não será melhor. “Só gostava que houvesse uma terceira opção”.

Michalis, taxista, não tem medo de regressar à antiga moeda do país. Tem uma nota de 500 dracmas colada no tablier do carro, com a frase “Aceito dracmas” inscrita num papel e um autocolante laranja com a palavra “Oxi” (Não). “Vamos sofrer das duas formas. Ficaremos mais pobres com qualquer um dos resultados. Mas pelo menos seremos nós, e não os outros, a decidir o nosso futuro”.  

As assembleias de voto encerram às 19h00 locais (17h00 em Lisboa), altura em que será divulgado o resultado das sondagens à boca das urnas. As primeiras projecções oficiais deverão acontecer duas horas depois.