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Génio, imaturo? Alexis Tsipras, o homem de quem se fala

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FOTO ALKIS KONSTANTINIDIS/REUTERS

Quem é Alexis Tsipras? Um aventureiro que tanto tem enervado os líderes europeus, ou a esperança de uma alternativa democrática à ditadura dos mercados? Génio, louco, imaturo e bipolar são alguns dos epítetos com que tem sido brindado nos últimos meses

Foi com uma fleuma britânica que o primeiro-ministro grego anunciou sábado passado que as propostas dos credores iriam ser submetidas a referendo. No próximo domingo, os gregos  escolherão entre o “Sim” ou o “Não” à política de austeridade imposta pela troika. Uma jogada de tudo-ou-nada que irritou sobremaneira os líderes europeus e os credores internacionais, mas que também é um sinal de que Grécia poderá não ter mais furos no cinto para apertar.
Uma última cartada que põe em cheque o Banco Central Europeu (BCE), a Comissão  Europeia e o Fundo Monetário Internacional (FMI), mesmo a custo de uma saída da zona euro.

Para muitos, foi a jogada possível para quem está “preso” entre as suas promessas eleitorais de fim de austeridade e regresso ao crescimento e a irredutibilidade da troika em relação às suas propostas. Acresce a condicionante interna ao seu próprio partido, o Syriza, onde a pressão dos esquerdistas ferozmente anti-moeda única não para de crescer.

Em poucas horas, porém, Tsipras pareceu atenuar a sua posição face ao ultimato da troika, para, depois voltar ao ataque. Ontem, 1 de julho, o primeiro-ministro grego fez chegar aos líderes da Comissão Europeia, BCE e FMI uma carta em que admite aceitar as condições dos credores com “algumas alterações”. Para logo a seguir apelar a uma votação em massa no “não” no referendo de domingo. Pelo meio lançara ainda a proposta de uma adiamento até ao fim de julho do pagamento que a Grécia devia ter feito ao FMI esta terça-feira, 30 de junho.

Propostas que ainda alimentaram a esperança de uma reabertura de negociações com a UE junto de alguns líderes europeus, como o presidente francês, François Hollande, mas que esbarrou na indiferença da chanceler alemã, Angela Merkel, numa aparente “vingança” em relação a Tsipras. Uma janela rapidamente fechada também pelo comunicado do próprio Governo grego, segundo o qual negociações só após o resultado do referendo.
 
Pressão no feminino
É aliás com Merkel que o tom descontraído e desafiador de Tsipras se começou a fazer notar. Ainda durante a campanha eleitoral, salientara que se recusava a tratar a chanceler alemã como se ela fosse a líder informal da UE, acusando-a de querer colonizar o sul da Europa. Já na altura, Tsipras considerava que a política liberal tão cara a Merkel iria conduzir ao “holocausto social”. Com nuances, a animosidade contra Merkel foi uma constante e também muito correspondida por parte da chanceler alemã.

Christine Lagarde, é outra adversária feminina de peso. A diretora-geral do FMI chegou mesmo a declarar à saída de mais uma ronda de negociações, a meio de julho, que para continuar seria “preciso ter adultos na sala”.  Um remoque aos quarenta anos do primeiro-ministro mais jovem da História grega.

Outra pressão no feminino recentemente vinda a público, mas de sinal contrário, será da própria mulher de Tsipras, Peristera Batziana. Segundo uma inconfidência do primeiro-ministro francês, François Hollande, Tsipras ter-lhe-ia confessado que a sua companheira de há 20 anos o teria ameaçado com o divórcio caso cedesse muito às exigências da troika.

O percurso do engenheiro
Engenheiro civil de formação com várias especializações em planeamento urbano, Alexis Tsipras começou por militar nos tempos de liceu na juventude comunista grega. A cisão com a ortodoxia comunista surge logo na faculdade, ao aderir ao Synaspismos, uma coligação de extrema-esquerda e ecologistas, onde é eleito secretário para a juventude, em 1999. Quatro anos mais tarde chega ao comité central. Esta coligação acabou por se fundir no Syriza em 2013 e é a sua maior força. Foi na faculdade que conheceu a sua mulher, também ela engenheira de formação.

O seu trajeto político acaba também por valer-lhe inimizades da esquerda mais ortodoxa, desde os comunistas gregos até aos seus homólogos portugueses.

Jogadas geoestratégicas
Uma das habilidades menos notadas de Tsipras é talvez a sua atuação no xadrez da geoestratégia. O “namoro” à Rússia de Putin, ansiosa por alargar a sua área de influência, foi mais ou menos visível, consoante os altos e baixos das negociações com os credores. Menos política mas mais económica é também a sua relação com a China. O Governo grego acaba de “relançar” a privatização do porto do Pireu, onde o gigante estatal chinês Cosco se prepara para alargar a participação até aos 67%. Terceiro porto do Mediterrâneo em tráfego de contentores, o Pireu é mais um dos grande investimentos chineses em infraestruturas vitais na Europa.

Para os historiadores caberá a tarefa de explicar o que terá levado de facto Alexis Tsipras a recorrer à decisão de referendar o programa de resgate. Uma solução que considerara “uma má ideia” em 2011, quando foi proposta pelo socialista Georges Papandreou, então primeiro-ministro.

Em todo o caso, parece ser unânime que, independentemente do resultado do referendo de domingo, está a abrir-se uma nova página na história da Europa.

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