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Eles não desistiram de nós, nós é que estamos a desistir deles

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YANNIS BEHRAKIS / Reuters

O povo grego não virou as costas à Europa mas a Europa parece resignada a virar costas ao gregos - e agora sente-se autorizada pelo "não". Pedro Santos Guerreiro analisa o resultado do referendo 

“As pessoas quiseram dizer 'não', mesmo que fiquem sem comer”. Stavros Stellas tem 60 anos e anda de lágrimas nos olhos na Praça Sintagma com a bandeira de Portugal quando a jornalista Joana Pereira Bastos o topa. Porquê a bandeira? Porque estamos a passar pelo mesmo, diz. Mas não da mesma maneira: “O governo português vai ter de explicar ao seu povo porque não lutou pelos direitos das pessoas, como lutou o nosso aqui na Grécia. Vai ter de explicar porque disse que sim a tudo, porque nunca fez frente à UE.” Ouve-se isto e engole-se em seco.

É preciso estar muito envenenado de cinismo para achar que o resultado do referendo grego não é uma consequência - ou que não terá consequências. O Syriza arriscou tudo e teve uma vitória estrondosa. As instituições europeias falharam, porque perderam o controlo da situação, porque subvalorizaram Tsipras e Varoufakis (que aliás desprezam) e porque não conseguiram impor a ideia de que votar “não” ao acordo de austeridade seria votar “sim” à saída do euro. Mesmo assim, nada é mais impressionante do que a expressão do povo grego. As pessoas que estão na praça Sintagma não estão fartas, estão desempregadas; não querem partir tudo, querem construir algo; não são insubmissas, são indómitas. É preciso muita coragem para, depois de uma semana de caos e sem dinheiro nas caixas multibanco, votar "não" e de forma tão expressiva. É impossível não admirar a força do povo – do povo! – depois de uma votação assim.

MARKO DJURICA / Reuters

O que se faz agora com isto? Negoceia-se. As instituições europeias não podem desistir da Grécia até porque não é verdade que, como disse Passos Coelho, “é difícil ajudar quem não quer ser ajudado”. Admitamos até que a palavra ajuda faz sentido (abramos aqui um parêntesis longo porque o termo é tudo menos inócuo. Portugal não teve um programa de ajuda externa, teve um programa de intervenção externa, que salvou o país da bancarrota e salvou os credores de perderem dinheiro, impondo em troca um programa económico vastíssimo que, bom ou mau, não foi escolhido pelo povo português. A troika trouxe muitas coisas boas, incluindo financiamento, e algumas coisas más mas fê-lo sempre num espaço de autonomia política condicionada. Paradoxalmente, os eleitos gostaram disso, o que se vê pelo constante e embaraçoso “cheerleading” de Passos Coelho ou pelo que ainda há dias Durão Barroso disse: reformas como a do poder local não teriam acontecido sem a troika, porque governo nenhum teria tido força para tal, sendo que a força que faltaria não seria sobre o povo mas sobre os representantes do poder local, isto é, do governo sobre os partidos que o compõem. É exatamente por causa desta tibieza política e pela opção pela dissimulação consentida em Portugal que se olha para o povo grego e se admira a coragem, mesmo que ela abra portas para salas tenebrosas onde não há uma só luz que alumie o futuro. Ajuda? Os gregos não precisam de esmola, precisam de um plano que funcione). O que é indisputável é o contrário, os gregos querem ajuda. Não estão a virar as costas à Europa, estão a abrir o peito da sua dignidade e a mostrar com as suas próprias cicatrizes – desemprego, recessão, pobreza, cortes de salários, de pensões e noção esclarecida de que vai ser assim durante décadas – que a austeridade levou de mais e trouxe de menos. Não é só ser doloroso, é ser estúpido insistir num modelo que, trazendo austeridade, não traga mais que austeridade.

Dimitris Michalakis / STRINGER / Reuters

É estranho que nós próprios não nos tenhamos questionado quando começámos a chamarmo-nos de credores. Foi uma mudança de discurso subtil mas brutal, e chega a ser assustador a naturalidade com que em vez de Eurogrupo, Comissão Europeia ou troika começámos a escrever sobre as negociações entre a Grécia e os credores. Aquele “os credores” também somos nós. Cidadania europeia? Não existe. Compreendemos a linguagem da moeda única, não aceitámos mais do que aquilo que nos trouxesse prosperidade económica. Achávamos nós. Nós, “os credores”.

“Os países europeus são credores de um financiamento muito avultado que fizeram à Grécia”, esclareceu ainda este domingo Pedro Passos Coelho. O governo português (assim como o Presidente da República, na sua infalível matemática de que 19-1=18) parece convencido de que a Grécia acabará por sair do euro e será deixada sua sorte. E nenhum governo europeu parece determinado a avançar com um terceiro resgate à Grécia que inclua um perdão de dívida, por incapacidade de gerir uma relação com o eleitorado.

Ninguém de boa cabeça consegue antecipar o que acontecerá se a Grécia sair do euro mas toda a gente sabe que será uma desgraça. Como veremos esta semana: o sistema financeiro está em colapso, está literalmente a ficar sem dinheiro. Sem apoio do BCE, a desgraça encomendada chega antes da hora.

É também por isso que as reportagens da noite de domingo estão cheias de emoção, daqueles que falam e também de muitos que leem. Festeja-se uma espécie de liberdade que não vem da vitória em si mas da dignidade de quem, mesmo sabendo que vai passar fome, não aceita mais planos de austeridade inférteis. Stavros Stellas é só mais um e nós devíamos perceber que aquela bandeira portuguesa que ele leva nos braços não é a representação de um credor mas de um povo. Afinal, é isso que eles são, o povo grego. Afinal, é isso que nós nunca seremos, o povo da Europa. E se desistimos deles, desistimos de parte de nós. É que o “não” ganhou. E cinco anos de austeridade depois, os gregos não estão a querer tirar, estão a querer dar. Para que o sacrifício valha a pena. O deles. E o nosso.