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"O 'Sim' está a fazer uma campanha de terror sem precedentes"

Grega cola um autocolante onde se lê "Estação de voto 301", numa escola secundária em Atenas que este domingo será uma das estações de voto do referendo

ALKIS KONSTANTINIDIS / REUTERS

Em entrevista ao Expresso, o porta-voz do Syriza, Yiannis Bournous, sublinha que o referendo era a única resposta ao "ultimato insultuoso" feito pela União Europeia à Grécia. O também secretário-geral do partido afirma que "é cedo para dizer" se o Governo se demite em caso de vitória do "Sim". 

Em maio, o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, sugeriu que a Grécia fizesse um referendo. Na altura, o Governo grego disse que isso estava fora de questão. Porquê fazê-lo agora?
O primeiro-ministro reiterou a nossa vontade de chegar a um acordo, mutuamente aceite e benéfico para as duas partes. Para isso, o Governo iria dar alguns passos atrás relativamente ao nosso programa eleitoral, mas as instituições também teriam de fazer algumas cedências, para nos podermos encontrar a meio caminho. Infelizmente, isso não aconteceu. Em vez disso, o que aconteceu foi um processo de chantagem financeira e política sobre a Grécia com o objectivo de humilhar o Governo grego ou levá-lo a demitir-se. Por isso, fomos forçados a convocar o referendo. Perante este ultimato insultuoso que as instituições nos fizeram, o povo grego tem o direito de decidir neste momento crítico se concorda ou não com as medidas de austeridade extremas que nos propuseram.

Se o "Não" ganhar, não teme que a União Europeia deixe cair a Grécia, fazendo-a sair do euro?
As instituições europeias, com esta política liberal e autoritária que tem sido exercida, estão a destruir a ideia da Europa. Os países do sul têm resistido a esta política, com o crescimento de forças democráticas progressistas como o Syriza, na Grécia, e o Podemos em Espanha. Mas também está a crescer uma grande ameaça noutros países, como a senhora Le Pen, em França, ou os movimentos de extrema-direita na Finlândia e na Dinamarca. A questão é saber se a União Europeia está disposta a pôr em causa qualquer espécie de futuro para a Europa. Por outro lado, a ideia de que as outras economias da zona euro estão protegidas relativamente a um possível default da Grécia é um mito, que caiu na semana passada. Depois de ter sido convocado o referendo, os spreads da dívida de quase todos os países dispararam. Por isso, Schauble foi forçado, na terça-feira, a dizer a verdade, assegurando que mesmo que o "Não" ganhe, a Grécia não será forçada a sair do euro, porque é preciso proteger o euro de colapsar. Fora isso, os bancos alemães e franceses, assim como outros bancos estrangeiros que beneficiaram com o empréstimo à Grécia por causa das taxas de juro, estão muito expostos. Se houver um default generalizado e se as instituições continuarem a fazer um ultimato e não aceitarem um acordo, esses bancos iriam ter grandes perdas. Por isso acreditamos que vamos chegar a um entendimento.

No caso de o "Sim" ganhar, o Governo demite-se ou não?
É cedo para dizer isso. O primeiro-ministro disse que o Governo vai obviamente respeitar qualquer resultado, mas depois terá de ver o que vai fazer. Porque o "Sim" significa mais cortes nos salários e pensões, um grande crescimento dos impostos para os agricultores, os pequenos e médios empresários… Politicamente, não estamos dispostos a deixar isso acontecer. É por isso que tomámos uma posição clara neste referendo, pedindo ao povo grego para votar "Não".

Considera que a aproximação das eleições em Espanha tem influenciado a posição da União Europeia relativamente à Grécia?
É mais do que evidente que sim. A Grécia representa apenas 2% do PIB europeu. É uma economia pequena. As autoridades europeias estão preocupadas com o que vai acontecer em Espanha em novembro. A Espanha é a quarta maior economia europeia. A vitória de um partido anti-austeridade significaria uma mudança no equilíbrio de poderes a nível europeu. A Europa tem medo de um efeito de dominó e é por isso que fez este ultimato ao Grécia. Querem que o Governo se demita e entregue o país nas mãos dos partidos que destruíram o país nos últimos cinco anos, para transmitir a mensagem ao resto dos europeus de que não há alternativa à austeridade.

A proposta dos credores internacionais que vai ser referendada amanhã já não está em cima da mesa. Que sentido faz referendar uma coisa que já não existe?
Faz todo o sentido porque foi apresentada à Grécia uma proposta oficial em termos de “pegar ou largar”. Um verdadeiramente ultimato. Foi apresentada oficialmente, pelo que não podem vir dizer, como estão a tentar, que neste momento não há nada em cima da mesa. Mas a convocação do referendo já está a produzir resultados, porque forçou a União Europeia a dizer que a Grécia não vai sair do euro e forçou o FMI, há dois dias, a dizer claramente que a dívida é insustentável e que é preciso fazer uma reestruturação em, pelo menos, 30% para a tornar viável. Por isso, estamos optimistas que um forte voto no "Não" nos permitirá concluir as negociações em termos melhores para o nosso país.

Mas se chegar aí, considera que voltar ao dracma é melhor do que aceitar adicionais medidas de austeridade?
Entendemos desde o início que a forma de responder ao neoliberalismo não deve ser o retorno ao dracma e uma desvalorização da moeda para aumentar as exportações porque o custo dessa desvalorização seria suportado sobretudo pelos trabalhadores e pelos pensionistas. É por isso que não apoiámos a saída da Grécia do euro. Mas a nossa fronteira é a dignidade do povo grego.

O povo está mais dividido do que nunca. Acha que tão cedo voltará a haver união?
Estou muito optimista em relação a isso. Não é o povo grego, no geral, que está dividido. O confronto que está a acontecer neste referendo é, sobretudo, entre 90% da população, que são trabalhadores, pensionistas, agricultores, pequenos e médios empresários e 10% da sociedade, que são os ricos que fizeram parte do sistema que regulou o país nas últimas quatro décadas, com clientelismo, corrupção, abuso de poder e escândalos. Querem convencer o povo a votar "Sim" através de uma campanha de terror sem precedentes, levada a cabo pelos meios de comunicação social privados. Acredito que, se o "Não" ganhar e conseguirmos um acordo, que será penoso, mas pelo menos abre caminho à reestruturação da dívida e ao crescimento, os apoiantes do sim, que não estão ligados às redes de clientelismo e corrupção, compreenderão por que razão nós insistimos no "Não".