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Nicholas, o homem discreto e modesto que salvou 669 crianças dos nazis

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MICHAL CIZEK / Getty

O "Schindler” inglês morreu esta semana. Achava que não valia a pena falar publicamente sobre o que fez - a própria mulher só descobriu a história muito anos mais tarde

Luís M. Faria

Jornalista

Duas palavras descrevem a maneira de ser de Nicholas Winton, agora falecido aos 106 anos: discreto e modesto. A isso juntavam-se outras qualidades - generosidade, humanidade, coragem - que frequentemente andam associadas àquelas. Em 1938, Winton salvou centenas de crianças da morte nos campos de concentração nazis. Porém, nem à sua esposa (com quem casou dez anos depois, e que viveu com ele meio século) alguma vez disse o que tinha feito. Foi ela quem descobriu, por acidente, e mesmo aí ele achava que não valia a pena falar publicamente do assunto.

Em 1988, Grete encontrou no sótão da casa de família um álbum de recortes com nomes de crianças e registos de moradas. Inquiriu o marido e este contou-lhe. Em finais de 1938, ia para a Suíça fazer umas férias na neve quando um amigo lhe falou na ideia de ir à Checoslováquia buscar crianças judias. Com a entrada dos nazis nesse país, dentro em breve seria impossível salvá-las.

Winton aceitou. Muitos anos mais tarde, quando lhe perguntaram porquê, não soube realmente explicar. É verdade que vinha de uma família judaica, mas fora batizado em pequeno - para facilitar a integração na sociedade britânica. É igualmente verdade que tinha ligações a grupos socialistas, mas a sua vida era demasiado confortável para ser a de um militante. Crescera numa grande mansão, trabalhava em bancos. Nada o vocacionava para o sacrifício.

Numa entrevista já muito velho, apenas conseguiu explicar que havia pessoas que gostavam de risco ou que o aceitavam. No seu caso, o risco assumiu a forma de uma elaborada iniciativa para levar a Inglaterra tantas crianças como pudesse. Uma 'organização' fictícia com um nome que soava oficial, instalada num hotel da Praga ocupada, onde Winton e os seus colaboradores recebiam os pais desesperados que vinham tentar executar a decisão mais difícil de todas: separarem-se das suas crianças, enviando-as ao estrangeiro. Para que ao menos elas se salvassem.

No total, foram 669 crianças, a bordo de sete comboios que só conseguiram sair do país graças à colaboração de funcionários subornados, e que tiveram de atravessar o continente até chegarem finalmente onde se fazia o embarque para um ponto algures nas ilhas britânicas. (Winton e os seus colaboradores forjavam documentos oficiais para as crianças poderem emigrar para o Reino Unido. Embora houvesse um programa oficial de salvamento, era demasiado vagaroso). O encontro mais importante, entre as crianças e as famílias que as recebiam, acontecia em Londres. Só então Winton via os meninos, e depois nunca mais os procurava.

Os pais dos pequenos viajantes morreram quase todos nos campos de concentração - como morreram as 250 crianças a bordo do último comboio, que já não conseguiram passar a fronteira. Para os filhos, foi uma vida nova num lugar novo. Vários ganhariam notoriedade nas artes, letras e ciências, em Inglaterra e noutros países. Entre eles, o realizador Karel Reisz ("A Mulher do Tenente Francês") e a pediatra Renata Laxova.

Cinquenta anos mais tarde, em 1988, Winton foi convidado para participar num programa da BBC. Estava no meio de público. A certa altura, a apresentadora mostrou o seu livro de recortes e perguntou se se encontrava ali presente algum daqueles meninos.

Mais de vinte pessoas levantaram-se, batendo palmas, e Winton teve a surpresa mais comovente da sua vida. Admitiu depois que tinha sido um "momento emocional". Mas continuou a não explicar porque havia feito o que fez. Limitava-se a dizer que estava em condições de o fazer. Nada de especial. Só lamentava não ter podido salvar todas as cinco mil crianças cujos nomes registara.