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“A paz não explodiu, mas está a caminho”

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“Esperava-se que a Europa tivesse aprendido a lição, que a guerra não fosse para repetir porque é uma coisa má. Era a chamada exceção europeia que, ao contrário dos EUA, tinha aprendido a lição”

A relação dos russos com a Europa após o colapso da URSS e das linhas de fronteira entre ambas é um assunto que nunca foi resolvido. Assumiu-se que haveria paz se houvesse prosperidade, mas sem se prever o que aconteceria em caso de declínio da prosperidade, defende em entrevista ao Expresso o analista político e escritor George Friedman 

Cristina Peres

Cristina Peres

Jornalista de Internacional

Fundador e diretor da Stratfor, um think tank independente que se conta entre os líderes mundiais em informação geopolítica e global, George Friedman é um analista profícuo. A rapidez e o rigor com que os peritos da equipa produzem análises sobre a atualidade a partir de todo o mundo é uma das características que fidelizam assinantes desde 1996. A par da credibilidade, a Stratfor reúne um saber de cariz enciclopédico em mapas, infografias, vídeos e documentação de suporte à malha de reflexão que é feita à imagem de Friedman. No YouTube encontra-se a parte maior do resultado da sua agenda repleta de conferências e palestras nos vários continentes. Doutorado em Políticas Públicas pela Universidade de Cornell, George Friedman chegou criança aos Estados Unidos (EUA). Corria o ano de 1949 quando a família deixou para trás uma Europa acabada de sair do ciclo de carnificina (1914-1945) em que morreram 100 milhões de pessoas. Friedman chegou ao Novo Mundo acompanhado da irmã de cinco anos e dos pais, judeus nascidos na Hungria imediatamente antes da Grande Guerra.  

A história da família — que considera comum à de qualquer europeu naquela época — é o fio condutor do seu mais recente livro, vendido em Portugal com o título “Focos de Tensão — Os choques geopolíticos que ameaçam o futuro da Europa”. A presença da sua biografia na projeção da atualidade é inédita se pensarmos nos seus livros que obtiveram sucesso planetário como “Os Próximos 100 anos”, “A Próxima Década” e “America’s Secret War”. A razão, diz, deve-se à atual constelação política na Europa, “o continente mais pequeno e mais fragmentado”. Friedman lembra que a União Europeia foi fundada com o intuito de assegurar paz e prosperidade. Se a prosperidade desaparecer, ou desaparecer nalguns países, o que acontece à paz? O Expresso conversou com este perito em geoestratégia sobre este e outros assuntos via Skype, à distância de cinco horas entre Washington e Lisboa. Nada capaz de esmorecer o humor subtil de George Friedman quando compara as mentalidades dominantes nos dois lados do Atlântico.

Analisa a fragmentação da Europa a partir de factos como a atual situação na Ucrânia. Estamos a falar de uma guerra de baixa intensidade?
Nem sequer é ainda uma guerra. É uma região dividida entre um Ocidente fragmentado e a Rússia. Mas é o tipo de situação que, em 2005, seria inesperado na Europa. O contraste evidente não é entre paz e guerra, mas entre as expectativas que a Europa de Maastricht tinha sobre o modo como viria a ser e a realidade que emergiu. Esperava-se que a Europa tivesse aprendido a lição, que a guerra não fosse para repetir porque é uma coisa má. Era a chamada exceção europeia que, ao contrário dos EUA, tinha aprendido a lição. Olhando para a crise da Ucrânia vemos que as velhas questões continuam lá. Isto é que é importante. Factos como 45% dos eleitores votarem para deixar o Reino Unido, a independência da Catalunha... A questão escocesa estava estabelecida há séculos...  

Sem ter sido aceite, como se viu pelo resultado eleitoral.  
Aceite no sentido em que, no último século e meio, os escoceses participaram no imperialismo europeu, lideraram a revolução industrial, quer dizer, o nacionalismo estava lá, mas era um aspeto menor. De repente, estas coisas regressam à vida. Não estamos em estado de guerra, porém, a trajetória da Europa não é a que estava desenhada. Entre 1945 e 1992 a Europa não foi soberana, estava ocupada por americanos e russos. As decisões sobre guerra e paz não eram tomadas em Berlim ou Londres, mas em Washington e Moscovo. Só em 1992, com o Tratado de Maastricht, o colapso da União Soviética (URSS) e o fim da Guerra Fria é que a Europa voltou a ganhar a sua autonomia. Os europeus gostam de pensar no período de paz datando-o a partir de 1945, mas até 1992 tudo dependeu de Washington e Moscovo.

Havia grande diferença no modo como essa ocupação era vivida em Lisboa ou em Varsóvia. Diz que a autonomia terminou em 2008?
Muito diferente! Na zona ocupada pelos americanos não se exercia a mesma agressividade da zona dominada pela Rússia. Mesmo assim, a NATO era o instrumento da guerra e paz e estava dominada pelos EUA, que estavam em posição de lançar uma guerra nuclear contra a URSS. Ao nível crítico da guerra e da paz, as decisões não estavam na mão dos europeus. Em 1992, a autonomia regressa porque a URSS ruiu e os EUA perderam interesse. Do meu ponto de vista, a Europa como plataforma estável só pôde escolher a paz de 1992 a 2008, ano em que aconteceram duas coisas: os russos invadiram a Geórgia e, de repente, toda a expectativa sobre o comportamento deles mudou. E, claro, com o colapso da Lehman Brothers e a crise financeira os europeus aperceberam-se como o continente é vulnerável a acontecimentos noutra parte do mundo. Desde 2008, a Europa não consegue encontrar o seu equilíbrio. Na verdade, está cada vez mais desequilibrada…

É uma fantasia dizer que a paz na Europa começou em 1945?
Ouvimos os europeus dizer que a partir de 1945 havia paz, mas até 1992 houve uma guerra na Jugoslávia na qual morreram 100 mil pessoas. Os Estados-membros da União Europeia (UE) disseram que foi por eles não serem membros é que tinha havido guerra. A verdade é que sob a superfície da acomodação europeia estavam assuntos muito antigos dos Balcãs. Ao contrário dos americanos e dos chineses, os europeus sustentavam ter aprendido e criado as instituições que tornavam a paz possível. Não quer dizer que a Europa esteja mergulhada numa guerra, mas é uma ilusão que Maastricht tenha resolvido as querelas fundamentais.

Quer falemos da votação escocesa nas últimas eleições britânicas quer do referendo na Crimeia, falamos de fronteiras, que se têm alterado com frequência na Europa. Quando diz que os europeus as consideram adquiridas desde 1945 e que só o estiveram, como defende, em 1992, a estabilidade é propaganda?
Não, a Europa foi um conflito congelado de 1945 a 1992, tão gelado como Nagorno-Karabakh. Os americanos e os soviéticos estavam esmagadoramente presentes e as fronteiras não podiam mudar, porque senão ruiria toda a estabilidade por eles construída. Houve uma segunda restituição de poderes, se pensarmos que a primeira alteração de fronteiras surgiu em 1918, após a I Guerra Mundial, quando os impérios europeus caíram. A segunda grande restituição aconteceu com a queda do império soviético, no interior e em torno da URSS. E ainda não está estabilizado! Os europeus tentaram manter o congelamento da Guerra Fria no sentido em que Maastricht foi desenhado para criar uma moldura económica de estabilidade. Assumia-se que, se houvesse prosperidade económica, haveria paz. Acontece que, em 2008, a prosperidade nalgumas partes da Europa começou a decair, logo começaram a surgir questões com fronteiras e por aí adiante. A dissolução do império soviético nunca foi integrada. Porém, o futuro da relação dos russos com a península europeia após o colapso da URSS e das linhas de fronteira entre eles é um assunto que nunca foi tratado com franqueza. Os europeus acharam que a Rússia estava tão fraca que tinha desaparecido. Sentiram-se autores da paz de 1945 a 1992, mas esse foi o seu mito mental, como se não fosse uma paz imposta que Maastricht ia simplesmente prolongar. Em 1992 deu-se um corte dramático com o passado, que se aguentou por 16 anos, até acabar o princípio da prosperidade que o sustentava. Ainda não explodiu, mas está a caminho. 

A divisão entre a Europa do Sul e a do Norte já é clara. Usa a história da sua família chamando-lhe “a história de qualquer família naquela altura da história entre as duas guerras mundiais e além delas” e faz um paralelo entre os períodos de prosperidade europeia até 1913 e de 1992 a 2008. Quer desenvolver?
A fronteira entre a península europeia e o continente tem duas faces: uma é constituída pelos Bálticos, Bielorrússia e Ucrânia, e a outra é aquilo a que se chamava a Europa de Leste. Este ponto de fricção na Europa, a região de onde os meus pais vieram e onde muitas guerras tiveram origem e foram travadas, está a começar a voltar à vida. Vemos os polacos e os romenos a desenvolverem o exército e a serem cautelosos. Vemos tensão na Ucrânia e vemos os russos a mudarem do caminho mais liberal que tinham tomado em 1992. A UE devia ter um interesse comum, mas quando falo com espanhóis é evidente para eles que o Mediterrâneo é mais importante do que a Ucrânia, a Alemanha não quer ter nada a ver com o conflito a Leste... ou seja, não existe uma política externa europeia comum. Quando as coisas se tornarem mais tensas, ou caso se tornem mais tensas, cada nação europeia tem a sua política externa. Quando [François] Hollande e [Angela] Merkel se encontram, não são dois líderes europeus, são o Presidente de França e a chanceler da Alemanha. Cada vez menos as políticas externas ou económicas europeias são comuns, cada vez mais são conduzidas por interesses nacionais ainda dentro da moldura da União, mas mesmo assim diferentes. Sublinho a diferença entre as expectativas que existiam em 2000 do que seria a vida na Europa em 2015 em termos económicos, sociais e geopolíticos e a realidade atual. É tremendamente diferente! Os europeus do Sul e do Leste apercebem-se de certeza absoluta! Os alemães continuam convencidos de que a Europa pode ser unida.

Estarão mesmo convencidos?
Estão mesmo! A negação é uma das fundações de todos os países. A Alemanha não tem instrumentos para manter a Europa unida. A amnésia emergiu na Europa, no sentido em que toda a gente se lembra do que passou, mas ninguém acredita que tenha alguma coisa a ver consigo no presente. A autoconfiança da Europa é o que a mantém unida. A mentalidade europeia diz que isto são problemas temporários que podem ser geridos. Um americano perguntaria: com problemas desde 2008, se conseguem geri-los, porque não o fizeram ainda?

Sublinha o perigo da subida do nacionalismo na Europa. Fala dos Estados-nação e de como se podem facilmente virar os europeus uns contra os outros. Quer explicar?
Historicamente, os europeus têm-se virado uns contra os outros. Tinha-se a ideia que, de repente, se tinha resolvido o problema. Espantoso seria se tivesse ficado resolvido, porque o  nacionalismo está entranhado na psique europeia. A Europa é pequena e está dividida em 51 Estados-nação com muito más memórias uns dos outros. A UE foi desenhada para dizer “somos divididos, mas também somos unidos, vamos pôr de lado as más memórias porque já não interessam” com a ideia fundadora de que toda a gente beneficiaria. O Tratado de Maastricht fala de paz e prosperidade. Problemático é o que vai acontecer se não houver prosperidade. Pensava-se que a zona de comércio livre europeia traria prosperidade permanente e Maastricht não preparou as instituições para um tempo em que surgissem problemas graves. Quando surgiram, os países abordaram-nos enquanto Estados-nação. O que se passa não é a Grécia a negociar com a UE, mas a Grécia a negociar com a Alemanha.  

 

Nesta entrevista concedida ao Expresso via Skype a partir de Washington, George Friedman descreve a divisão entre os vários tipos de europeus, uns eurocratas outros conscienciosos. E adianta que a Europa está a ficar um lugar muito perigoso.

Defende que a Rússia não se está a comportar como seria de esperar: “Está unida e à espera de ver como as coisas se desenvolvem”. Pode dizer-se que dependemos disso agora, quando os europeus não estão a ver bem o que aí vem?
A crise da Ucrânia teve origem na fragmentação da Europa. Com ela, muitos dos países do Leste da Europa, em particular a Polónia, tornaram-se mais ativos na Ucrânia, tentaram o mesmo na Bielorrússia, os países bálticos fazem parte da NATO. Vladimir Putin chegou ao poder por uma mudança institucional contra Boris Ieltsin por causa da relação que ele tinha desenvolvido com o Ocidente, da qual a Rússia não beneficiava. Um russo disse-me: fomos em tempo pobres mas poderosos, com o Ieltsin ficámos sem poder e ainda mais pobres. Putin e o seu grupo subiram ao poder com duas promessas: travar o caos económico e acabar com a maneira como o país era tratado pelo Ocidente e pela Europa, como se tivesse acabado. O Kosovo foi o ponto de viragem, os russos disseram que não estava a acontecer um genocídio e propuseram ocupar o país em conjunto. Daí saiu um acordo que foi ignorado pelos americanos e pelos alemães, como se os termos do acordo não tivessem nenhuma importância e isso foi um golpe para a psique dos russos. Quando os tumultos aconteceram em Kiev, os russos leram-nos como um golpe ocidental. A Rússia perguntava porque têm vocês esta obsessão com a Ucrânia se não estiverem a tentar fragmentar a federação russa? Se a Ucrânia ficasse pró-ocidental, os russos estariam em maus lençóis. Como não tiveram capacidade de inverter a situação, lidaram mal com ela.  Os europeus acreditam que tudo mudou. Do ponto de vista russo, os europeus — e os americanos em especial — estão a comportar-se como nada tivesse mudado. E chegámos a esta crise.

 

Friedman diz que a NATO é hoje uma aliança militar sem militares. Aquilo que deveria ser o braço armado do Ocidente, com o qual os ocidentais deveriam poder contar, ainda existe?

Em 2014, numa conferência em Varsóvia, discutia-se o escudo antimíssil e afirmou que a questão da defesa na Europa já estava muito para lá dele. No seu livro escreve que, de momento, ainda há tempo: os russos não estão em ponto de agressão e os EUA precisariam de seis meses para empreenderem uma ação na Europa.
O escudo antimíssil era um assunto simples de exércitos modernos e o que eu dizia aos polacos é que eles estavam obcecados com o escudo antimíssil como se fosse uma solução prática militar para um problema real. Na verdade, não os defenderia dos mísseis russos. A fronteira leste da Europa precisa de equipamento menos apelativo como helicópteros, mísseis antitanque. O que eu lhes dizia é que eles ainda estavam a olhar para França como para um país capaz de acudir à Polónia em caso de perigo. Os EUA não funcionam assim e quando o fazem normalmente resulta muito mal, basta ver o Médio Oriente. A América tem uma política na Europa de oposição a qualquer hegemonia regional. O nosso primeiro passo é construir coligações com quem se oponha à hegemonia, apoiar essas coligações em termos militares e económicos e só então avançamos, como em 1917 e em 1944. Aprendemos na Guerra Fria que talvez uma intervenção mais prematura seja melhor e estamos preparados para fazê-lo. Mas a ideia de que defenderemos a Polónia sozinhos é uma ilusão. A Polónia, e os outros, têm de se defender. Na Europa de Leste convenceram-se de que, ao aderirem à NATO e à UE, os seus problemas seriam resolvidos por outros.

Em março, um comandante americano da NATO defendia que se deveria enviar armamento para a Ucrânia. Merkel e Hollande insistiam na diplomacia. As duas mentalidades estarão sempre separadas?
Os europeus chamam cowboys aos americanos e nunca percebi porque é que o fazem em tom de crítica. Só houve uma paz na Europa porque os EUA e a Rússia foram meticulosamente cuidadosos. Imagine se os sofisticados diplomatas europeus em 1914 e em 1938 tivessem armas nucleares! Acha que a guerra teria sido evitada? Os europeus estão constantemente a congratular-se pela sua sofisticada diplomacia, porém do ponto de vista americano, o século XX foi uma catástrofe para os europeus. Onde estará a sofisticação dos europeus se estão sistematicamente a ficar mais fracos e a congratularem-se por isso?

Está a dizer que toda a gente tem uma relação pouco equilibrada com a realidade?
A realidade alemã não pode arriscar uma guerra com os russos com quem tem profundas relações económicas. A realidade americana não pode ter outra guerra fria com a Rússia por causa do futuro da Europa. A realidade polaca diz que o país está preso no meio dos seus dois piores pesadelos, os alemães e os russos… Neste momento, nenhum deles está tão agressivo como poderá vir a estar, mas eu ficaria muito mais sossegado se os alemães estivessem tão preocupados quanto eu. Toda a gente tem a sua realidade e é isso que fundamenta os nacionalismos. A posição dos alemães: temos 5% de desemprego, a economia está a crescer e eu não quero perturbar a Europa. A dos polacos: estou aterrado por estar entre estes dois e só ter os americanos como recurso. A dos gregos: quanto tempo é que isto ainda tem de durar? E diz-se aos gregos que eles foram irresponsáveis por se terem endividado! E os alemães não foram irresponsáveis por tê-lo emprestado? Cada país tem a sua narrativa.

Aos cenários dos conflitos tradicionais acrescentaram-se os ciberataques, e o Estado Islâmico na Síria e no Iraque conta com guerrilheiros idos de todo o mundo. O mundo tornou-se menos previsível, as guerras parecem não ter fim?
A Europa tem estado em guerra com o Islão há mais de mil anos. É previsível? Sim. É tão perigoso como quando os califas ocuparam a Península Ibérica? Não. Este é um ponto de fricção permanente. O modelo imperialista europeu para o Médio Oriente está em derrocada, os limites de fronteiras criados pelo Tratado de Sykes-Picot [acordo de 1916 entre França e Reino Unido com o acordo da Rússia] já não são válidos. Ao mesmo tempo, acontece um dos levantamentos periódicos dos sunitas, mas é autocontido. Há tantas divisões no mundo islâmico, entre árabes e não árabes, entre sunitas e xiitas, que é um problema interno. O que os EUA estão a tentar fazer é retirar da região e criar um equilíbrio de poder. Do ponto de vista americano, há quatro grandes poderes na região: Turquia, Irão, Arábia Saudita e Israel. Cada um detesta os outros à sua maneira, o que é ótimo para o equilíbrio de poderes. O modelo que vamos seguir passa por não nos envolvermos no terreno, porque não funcionou. No Iraque, os EUA cooperam com os iranianos contra o Estado Islâmico, com ataques aéreos de apoio às tropas iraquianas. No Iémen, os EUA combatem a AQAP [Al-AQaeda da Península Arábica], aí há a coligação. O problema europeu com o mundo islâmico é que têm de ter muçulmanos na sua força de trabalho e não se pode integrar muçulmanos por causa da natureza nacionalista. Na perspetiva americana, isto não é um problema de geopolítica, é um problema europeu. Mas não representa uma ameaça existencial para a Europa.

Diz que a política externa de Obama é muito sofisticada. Será que teremos como seu legado a reconciliação dos EUA com o Irão?
Reconciliação não é a palavra certa. Apercebemo-nos de que temos interesses em comum e que há necessidade de cooperarmos.

E porque é que não os tinham antes?
Os EUA tornaram-se a única hegemonia global em 1992. Somos um país extraordinariamente jovem em termos de experiência de poder global. A Guerra Fria foi um período simples: ali estavam eles, aqui estávamos nós. Mesmo que não queiramos este poder não podemos abrir mão dele. É muito difícil encontrar um modelo que nos permita não estar permanentemente em estado de guerra. Dado o nosso comportamento durante a Guerra Fria, temos direito a alguns tropeções, e estamos a tropeçar no mundo islâmico, uma área onde toda a gente tropeça umas duas ou três vezes. De 1992 a 2015 é uma geração, deem-nos tempo.

Falou na esperança irrealista que os europeus alimentam de que um obscuro think tank encontre a solução para a questão europeia...
Nós dizemos que a UE tal como está desenhada não pode funcionar. A Alemanha exporta mais de 50% do seu PIB, não se pode ter uma zona de comércio livre que tem no seu centro o maior exportador, a quarta maior economia do mundo a usar os instrumentos que estão a tornar o empreendedorismo quase impossível. A ideia da Europa era que todos os que aderissem a esta zona de comércio livre beneficiassem dela igualmente. Isto seria verdade se a Alemanha não dependesse das exportações para manter o seu crescimento. Os interesses da Alemanha, da Itália ou de Portugal são muito diferentes e eu não sei como é que a Europa vai conseguir reconciliar estas diferenças. A ideia de se ser uma nação livre que pertence a uma entidade política múltipla que é a minha identidade!? Como é que eu faço isto? Os EUA tiveram este problema antes da guerra civil, com o sul a querer ir numa direção e o norte noutra. O resultado foi uma guerra terrível onde morreu meio milhão de pessoas. Quem morrerá pela UE? E se ninguém morrer por ela, então não é uma nação, é simplesmente um tratado. Se é só isso, só lá se permanece se trouxer benefícios e as pessoas estão a começar a aperceber-se de que não estão a beneficiar da União. Os europeus estão sempre a dizer que o pior já passou. Sim? Passou para quem? A Europa criou uma zona de comércio livre em torno de um buraco negro, a Alemanha, que nunca poderá exportar mais do que faz atualmente, 52/53%. Quando tiver a sua crise existencial e desemprego... Por enquanto, são tão eficientes que ninguém os acompanha. Só que isso quer dizer que estão a matar os seus clientes.