Siga-nos

Perfil

Expresso

Internacional

“Dizemos não. E resistiremos pela dignidade que nos resta”

  • 333

YANNIS KOLESIDIS / EPA

Milhares de gregos voltaram esta sexta-feira à praça Sintagma, junto ao Parlamento, em Atenas. Defenderam o "não" no refendo do próximo domingo. Em nome da dignidade

A música é antiga, mas para os apoiantes do “não” soou agora mais actual do que nunca. Minutos antes de Tsipras discursar na praça Sintagma, onde a multidão foi tanta que parecia não caber mais ninguém, milhares de pessoas cantaram emocionadas uma histórica canção revolucionária do tempo da resistência à ditadura: “Em breve os sinos vão soar. Este chão é nosso”.

A canção do célebre compositor Theodorakis, uma espécie de Zeca Afonso do país, autor de várias músicas de intervenção e da banda sonora de "Zorba, o Grego", deu o tom à manifestação pelo “não”, vivida em ambiente quase revolucionário. Resistência foi mesmo uma das palavras mais ouvidas esta sexta-feira à noite na principal praça de Atenas.

“Resistir está no ADN dos gregos. Fizemo-lo na I e na II Guerra Mundial, na ocupação nazi, na guerra contra os turcos, na ditadura dos coronéis. E vamos fazê-lo agora à austeridade e à pobreza a que a União Europeia nos quer condenar. Dizemos não. E resistiremos pela dignidade que nos resta”, garantia, emocionada, Alkitis, de 45 anos.

A ideia de lutar pela dignidade do país esteve presente no discurso de muitos manifestantes e nos cartazes que seguravam, juntamente com bandeiras da Grécia. “O que está em causa não é o euro, é a nossa dignidade”, lia-se nos panfletos.

“Vamos votar pela dignidade"

A mesma ideia deu o mote ao discurso de Alexis Tsipras, que reiterou mais uma vez a mensagem deixada sucessivamente nos últimos dias de que o referendo não é sobre a permanência do país na moeda única nem na União Europeia. “Vamos votar pela dignidade. O país que criou a democracia vai fazê-la renascer domingo. Tomaremos o futuro nas nossas mãos”, afirmou o primeiro-ministro, no cimo de um palco montado junto ao Parlamento helénico.

Apesar de afirmarem não querer sair do euro, muitos apoiantes do não na consulta popular de domingo dizem-se preparados para essa eventualidade e consideram que o retorno ao dracma (a moeda em circulação antes da entrada do euro em 2002), por mais dramáticas que possam ser as consequências, é melhor do que aceitar uma austeridade sem fim à vista.

“Se chegar a esse ponto, vai ser muito duro. Serão certamente dois ou três anos violentíssimos, mas depois talvez consigamos renascer e começar do zero. É preferível a mais 20 anos de cortes e sofrimento”, defendia Antonis Katsounas, engenheiro mecânico de 30 anos, criticando “o desrespeito” com que os líderes europeus têm tratado o país nos últimos cinco anos.

Com uma grande bandeira da Grécia atada ao pescoço, que lhe chegava até aos pés, Nikos, de 41, também não poupava nas críticas à União Europeia. “Não querem saber do que passamos. Dos jovens que não têm trabalho, dos velhos que não têm pensão, dos doentes que não têm medicamentos. Querem que aceitemos tudo, submissos e calados. Mas agora não aguentamos mais. Sabemos que é arriscado, mas vamos resistir”, disse.

No final do discurso de Tsipras, e depois de outras músicas revolucionárias que acompanharam sempre a campanha do Syriza para as eleições, como a famosa Bella Ciao, voltou a ecoar na praça Sintagma a histórica canção de Theodorakis. “Em breve os sinos vão soar. Este chão é nosso”. Para os milhares de gregos que se manifestaram pelo não, os sinos soarão já no domingo.