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A força de uma imagem

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Tsipras diz que é “inaceitável” ver imagens destas e culpa a Europa por ser assim. A fotografia mostra uma pensionista a ser esmagada à fila de um banco para tentar receber parte da sua pensão - algumas agências bancárias abriram para que os reformados que não têm cartão multibanco possam levantar dinheiro, até um máximo de 120 euros. As filas e o caos multiplicaram-se

ALKIS KONSTANTINIDIS / Reuters

É provável que se tenha deparado com muitas notícias sobre a Grécia nas últimas horas - e dias. E com imagens de pensionistas desesperados às portas dos bancos - a tentar levantar o possível, que é €120 no máximo (limite estabelecido até que o impasse se resolva). São fotografias repetidas exaustivamente nos jornais e nas televisões - imagens que impressionam quem não está na Grécia. E quem está, que força é que estas imagens têm? Força suficiente para, no referendo de domingo, transformar um “não” num “sim” (por receio que isto continue) ou vice-versa (por revolta com a Europa)? Três jornalistas que trabalham em publicações gregas elaboram o seu ponto de vista

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

Menos de uma semana depois do primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, ter convocado um referendo, a Grécia tornou-se tema incontornável na maior parte dos órgãos de comunicação social europeus. A dominar as imagens televisivas e os cabeçalhos dos jornais estiveram as fotografias dos gregos, na sua maioria pensionistas, que se amontoaram nas filas das caixas multibanco e a às portas das dependências bancárias. Imagens passadas em loop, que o próprio Alexis Tsipras classificou como "inaceitáveis", responsabilizando o Banco Central Europeu (BCE) pela decisão do Governo grego de introduzir controlos de capitais, devido à limitação da linha de liquidez aos bancos gregos. 

O pingue-pongue sobre quem são os responsáveis pelas imagens de gregos em desespero arrastar-se-á até este domingo, dia do ato eleitoral. Mas, até lá, as televisões e jornais continuarão a repetir estas e outras imagens. Poderão ser decisivas na formação de opinião de muitos gregos? Qual o peso verdadeiro da cobertura noticiosa grega nesta mini-campanha eleitoral?

Dimitris Apokis, jornalista da televisão pública grega (ERT), é da opinião que a influência dos media gregos será enorme, como admitiu ao Expresso: "A influência do ciclo noticioso e das imagens dos pensionistas a formar filas enormes fora dos bancos é tremenda. É mais do que certo que esta situação terrível na sociedade irá influenciar o resultado do referendo."

YANNIS BEHRAKIS / Reuters

Mas nem só de imagens vivem as notícias. Todas as recentes ações e declarações dos intervenientes na crise grega, digeridas e repetidas por jornais, rádios e televisões, podem ser decisivas. Esta semana arrancou com o presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Juncker, a fazer um pedido aos gregos: "não se suicidem por terem medo da morte".  

O editor da edição em língua inglesa do jornal grego "Kathimerini", Nick Malkoutzis, alerta que a reação dos gregos ao soundbite, repetido por vários media, depende muitas vezes do seu ponto de partida. "As palavras de Juncker sobre a forma pouco produtiva como as negociações decorreram pode soar bem aos gregos que nunca confiaram no Syriza ou que estão cada vez mais céticos deste Governo. Mas outros eleitores podem ver as suas declarações como uma tentativa de sacudir a responsabilidade do falhanço de um acordo", explica o jornalista, também diretor do site de análise "Macropolis". "O ambiente na Grécia, relativamente a quem é que tem culpa desta situação, assenta agora num equilíbrio muito delicado." 

Ligações ao poder político 

O cenário da comunicação social na Grécia está longe de ser pacífico. Ao longo da última semana sucederam-se as críticas de vários gregos nas redes sociais ao que consideram ser a cobertura enviesada de alguns meios de comunicação (nomeadamente as televisões), detidas por algumas das famílias economicamente mais influentes no país. A hashtag #greekmediapropaganda chegou mesmo a ser criada para denunciar situações como o tempo de cobertura diferenciado das manifestações a favor do "sim" ou do "não", com muito mais atenção ao protesto do "sim".

Uma realidade que chamou a atenção de um dos enviados especiais do jornal "Guardian" a Atenas, John Hooper: "A televisão é esmagadoramente anti-Syriza", escreveu o jornalista no início da semana, acrescentando que "há uma forma muito fácil esta semana de perceber qual a tendência de um jornal grego neste debate - o quociente alarmista na sua capa".  

O comentário do jornalista do "Guardian" é passível de verificação na capa de alguns jornais. Ainda esta quinta-feira, era possível ver que o "Avgi", jornal próximo do Syriza, trazia uma manchete com uma posição muito clara relativamente ao referendo - "'Não' a Schäuble [ministro das Finanças alemão] e à troika doméstica" - que contrastava em muito com a crítica a Tsipras do jornal associado ao centro-direita "Eleftheros Typos": "Ele prejudica a Grécia, ele engana os gregos. Tsipras destrói as pontes com a Europa". 

As tensões nos media existem, mas são desvalorizadas pelos jornalistas gregos ouvidos pelo Expresso. Alfonsos Vitalis, que trabalha há vários anos na rádio cobrindo temas políticos, destaca que, acima de tudo, há liberdade de imprensa no país. Mas admite as limitações, sobretudo no campo televisivo: "Na Grécia há um problema com o licenciamento das estações de televisão, um assunto que continua por resolver há muitos anos. Este Governo comprometeu-se a lidar com isto, o que tem provocado reações dos donos [das televisões]." Vitalis refere-se ao problema das licenças de televisão, que durante anos foram atribuídas de forma gratuita pelos vários governos, muitas vezes a empresários com ligações próximas do poder político.  

No entanto, para o jornalista veterano, "muitos outras coisas irão afetar a decisão de voto das pessoas, que têm sofrido muito com as medidas de austeridade", realça. Já para Dimitris Apokis, que foi durante alguns anos correspondente da ERT em Washington, "isto é algo que é a norma na maioria dos media e não só na Grécia", diz. "Em todo o mundo é sabido que os maiores órgãos de comunicação social promovem certas agendas e têm relações próximas com o sistema político. Por isso, a Grécia não é exceção." No entanto, o jornalista desvaloriza cada vez mais estas limitações, destacando o crescimento da influência vinda da internet. "Os media online estão a preencher os espaços em branco e a influenciar muito o público hoje em dia", afirma. 

Impacto nos resultados 

É impossível prever ao certo para que lado irá pender a opinião da maioria dos gregos este domingo, como têm revelado as sondagens. Tudo depende da interpretação feita pelos gregos sobre quem tem a maior fatia de responsabilidade pelas filas de pensionistas à porta dos bancos: o Governo ou os credores? 

Na quarta-feira, o Governo grego afirmou aceitar uma proposta dos credores com alterações, continuando no entanto a apelar ao voto no "não". Uma situação que, segundo os repórteres ouvidos pelo Expresso, desagradou a muitos gregos. O resultado do referendo dependerá agora de como a situação for enquadrada e explicada nos últimos dias - algo onde os media podem ter um papel decisivo.

Manifestação pró-Europa em Atenas

Manifestação pró-Europa em Atenas

YANNIS BEHRAKIS / Reuters

"O voto no 'sim' está em crescimento e, na minha opinião, ganhará no domingo", diz Apokis, o único que arrisca fazer um prognóstico. "É claro que há alguma raiva em relação a Bruxelas, mas, à medida que o tempo passa, essa raiva está a direcionar-se contra o Governo e contra a forma como tem lidado com as negociações", resume, acrescentando no entanto que até domingo tudo pode ainda acontecer. 

Num ponto os três jornalistas são unânimes: o ambiente que rodeia a consulta popular está longe de ser saudável. "De uma forma ou de outra, os gregos irão votar no domingo com sentimentos muito negativos: medo, raiva, ansiedade, frustração", resume Malkoutzis. "Isto não pode ser bom para a Grécia e é uma denúncia das falhas terríveis que ambos os lados cometeram nos últimos cinco anos."