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Cedência de Tsipras lança a confusão em Atenas

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Mil agências bancárias abriram esta quarta-feira para que os pensionistas que não têm cartão multibanco possam levantar algum dinheiro. Limite de levantamento por pessoa: 120 euros. Aqui, num banco em Atenas, um funcionário distribuiu bilhetes prioritários para os levantamentos

YANNIS KOLESIDIS / EPA

Reviravolta surpreende gregos. Nas ruas, os ânimos exaltam-se e as opiniões dividem-se. Primeiro-ministro recuou e decidiu aceitar a proposta que os credores lhe apresentaram no fim de semana. Reportagem em Atenas da enviada especial do Expresso, Joana Pereira Bastos

A reviravolta apanhou todos de surpresa. Em Atenas, onde abundam cartazes a apelar ao “não” no referendo deste domingo, a notícia do inesperado “sim” de Tsipras à proposta dos credores lançou a confusão.

Nas ruas não se fala de outra coisa. Apesar da incerteza, há quem respire de alívio entre os que na noite desta terça-feira se manifestaram contra o governo na Praça Sintagma, em Atenas, em frente ao Parlamento. Mas alguns dos que apoiavam o primeiro-ministro e a forma como fez frente aos parceiros europeus sentem-se agora atraiçoados pela aparente capitulação.

Thodoris, de 29 anos, está incrédulo. Agarrado ao smartphone, lê a notícia no site de um jornal, uma e outra vez, e alerta os colegas da loja de telecomunicações onde trabalha. “Diz aqui que o Tsipras aceitou tudo. Como é possível? Não pode ser”, exclama. Os restantes funcionários e os clientes juntam-se à sua volta. Já ninguém quer saber do atendimento. “O que é que isso quer dizer? Já não há referendo? Podem anulá-lo? E as reformas? Também aceitou mais cortes?”. As perguntas sucedem-se. A notícia é curta e faltam respostas. O jovem empregado não sabe o que dizer.

“Nada disto faz sentido. O Tsipras convocou um referendo para ouvir o povo grego e agora aceita tudo? A notícia diz que sim, mas com pequenas alterações. Não queremos pequenas alterações. Não queremos aceitar nada. A Europa quer transformar-nos em escravos, pôr-nos de joelhos até já não termos nada”, defende, exaltado. "Isto é uma traição à Grécia", acusa.

Uma cliente abana a cabeça, em visível desacordo. Terça-feira à tarde juntara-se à manifestação pró-Europa que juntou milhares de pessoas em frente ao Parlamento. Um dia depois, também foi apanhada de surpresa, mas fala numa nova esperança. “Será que o Tsipras finalmente ganhou algum bom senso? Temos de chegar a um acordo. Se pedimos emprestado, temos de pagar. A alternativa é sair do euro e nem quero imaginar o sofrimento que isso ia trazer”, contrapõe.

Chris, de 32 anos, outro funcionário da loja, concorda com o colega Thodoris. Também ele está decidido a votar "não" no referendo, que agora já não sabe se vai ou não realizar-se. Perante a notícia, pôs-se ao telefone para alertar a família. “O meu pai tinha uma pensão de 800 euros. Todos os anos cortaram mais um bocado. Hoje já só tem 360 euros. Se aceitarmos o que a Europa quer, onde é que isto vai parar? Quando já não tivermos o que comer, dizemos que sim a tudo. Podemos comer, mas morremos sem dignidade.”.

À porta, nas esplanadas da praça Omónia, uma das principais da capital grega, a aparente reviravolta na posição do Governo também é o centro de todas as conversas. E, como na loja, os ânimos exaltam-se e as opiniões também se dividem. O país parece dividido ao meio e o clima de incerteza é cada vez maior.