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A culpa de Oskar Groening

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Oskar Groening à conversa com o seu advogado de defesa, durante o julgamento

AXEL HEIMKEN / EPA

O antigo “contabilista de Auschwitz” admitiu num tribunal alemão a sua culpa e que não tem o direito de pedir perdão

Oskar Groening, o antigo guarda das SS que tem sido ouvido por um tribunal alemão, admitiu esta quarta-feira culpa pelo seu papel na morte de 300 mil judeus húngaros durante o regime nazi e que não tem qualquer direito de ser perdoado.

O homem de 94 anos disse em tribunal: “Em consciência, não pedi por perdão pelo que fiz. Tendo em conta a escala do que aconteceu em Auschwitz e noutros lados, pelo que me toca não tenho direito a perdão. Apenas o posso pedir a Deus.”

Groening revelou também que os testemunhos de sobreviventes que tem ouvido em tribunal têm tido um enorme impacto emocional na forma como vê aquela época. “Os assassínios em massa eram do meu conhecimento. Muitos dos detalhes que eu tenho ouvido, não”.

Perante o tribunal de Lüneburg, no norte da Alemanha, o homem que outrora confiscava e percorria os bens pessoais de todos os que chegavam ao campo da morte disse estar a ser confrontado com aquela realidade distante novamente: “O sofrimento dos deportados nos comboios, o processo de seleção e posteriormente exterminação da maioria das pessoas, tem sido apresentado diante dos meus olhos, outra vez”.

Estas declarações são o primeiro olhar que temos do estado emocional de Oskar Groening desde que o julgamento começou em abril.

Na altura, o antigo guarda disse que se apresentava “com remorso e humildade diante das vítimas” mas, alegou ter estado apenas algumas vezes nas rampas de seleção de prisioneiros e que insistiu várias vezes com os seus superiores para ser transferido.

O testemunho de quem viveu

As declarações de 15 minutos do “contabilista de Auschwitz”, como ficou conhecido, foram seguidas de um poderoso testemunho de Irene Weiss, professora reformada de 84 anos de Fairfax, Vírignia. Weiss relatou ao tribunal e ao acusado como a sua família foi separada na chegada ao campo de concentração em 1944, uma das muitas famílias de judeus húngaros deportadas naquele ano para o campo da Polónia ocupada pelos alemães.

A antiga professora perdeu ambos os pais, quatro irmãos e 13 primos no campo de morte. Olhando diretamente para Groening, explicou: “Ele pode mostrar remorso e dizer que era apenas uma roda numa máquina, mas se ele estivesse ali sentado no seu uniforme da SS, eu tremeria e todo o horror que senti quando tinha 13 anos regressaria”.

Para Weiss, o uniforme será para sempre um símbolo “do quão baixo a Humanidade pode chegar” e uma lembrança do horror que viveu.

O tribunal mais tarde apresentou uma fotografia a cores que mostra o momento da separação de Irene Weiss e da sua irmã na chegada a Auschwitz, um momento que vai ficar marcado para sempre na memória da antiga professora: “Lembro-me de estar ali parada, sem conseguir mexer-me, a ver o lugar onde a minha irmã tinha estado e desejando que ela tivesse conseguido alcançar a minha mãe.”

Weiss nunca soube o que aconteceu ao seu irmão, e descobriu por outro prisioneiro que o seu pai tinha sido morto pouco depois da chegada ao campo.

Irene Weiss e a irmã Serena foram enviadas para trabalhar num armazém onde separavam os bens daqueles que chegavam e morriam no campo. Um dia, enquanto trabalhava descobriu o vestido branco e véu da sua mãe.

Durante o trabalho Weiss, conseguiu aperceber-se da magnitude do que estava a acontecer: “Os montes de bens e roupas eram cada vez maiores, nunca mais pequenos, as pilhas de roupa chegavam ao teto do armazém.”

O julgamento de Oskar Groening deverá continuar ao longo deste mês.