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“Tirem-nos o dinheiro. Tirem-nos o que quiserem. Só não nos tirem da Europa”

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Manifestação pró-Europa em Atenas

YANNIS BEHRAKIS / Reuters

Milhares de pessoas manifestaram-se esta terça-feira em Atenas a favor do “sim” no referendo de domingo. Temem uma guerra civil caso a Grécia saia do euro

Sob um céu carregado que ameaça trovejar, Vicky protege-se debaixo de um chapéu de chuva com a bandeira da União Europeia. Juntamente com milhares de pessoas que esta terça-feira à tarde se manifestaram em Atenas pelo “sim” no referendo do próximo domingo, a pensionista, de 75 anos, acredita que as cores da UE não a resguardam apenas do mau tempo. Para ela, que ainda se lembra da guerra civil que há quase 60 anos assolou o país, a permanência da Grécia na Europa é a única proteção contra uma tempestade bem maior.

“Sofremos muito com a guerra civil e a História devia ensinar-nos alguma coisa. O nosso país é muito instável e temos um longo historial de conflitos. Se sairmos do euro, tenho medo que isso volte a acontecer. Por isso, já não me preocupa a austeridade. Tirem-nos o resto do dinheiro, tirem-nos o que quiserem. Só não nos tirem da Europa”, pede.

O fantasma de uma nova guerra civil não assombra apenas Vicky. O discurso é comum entre os milhares de manifestantes que se juntaram esta terça ao final da tarde na praça Sintagma, junto ao Parlamento, contra o Governo de Alexis Tsipras e a favor do acordo proposto na semana passada pela Comissão Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional. Mais do que uma nova vaga de austeridade, preocupa-os a instabilidade política, social e económica que temem vir a acontecer caso o país diga “não” aos credores internacionais e deixe a moeda única.

Mural em Atenas

Mural em Atenas

SIMELA PANTZARTZI / EPA

A manifestação, convocada através das redes sociais e apoiada pela Nova Democracia (anteriormente no poder), pelos socialistas do PASOK e pelo partido To Potami, ocorre em reação ao protesto que reuniu segunda-feira cerca de 17 mil apoiantes do “não”, defendido pelo Governo, nas ruas de Atenas e Salónica. Um dia depois, esta terça foi a vez de os defensores do “sim” se fazerem ouvir. 

Segurando bandeiras da União Europeia e da Grécia e ostentando autocolantes onde se lê “sim à Europa, sim ao Euro”, milhares de pessoas (não há, até ao momento, uma estimativa quanto ao número) pediram a demissão de Tsipras em frente ao Parlamento grego. 

“Queremos ficar na Europa e isso é realmente o que está em causa neste referendo, mesmo que o Governo diga que não. Não acreditamos no primeiro-ministro. Tsipras quer fazer de Che Guevara, mas não tem competência política, nem coragem. Prometeu muita coisa, mas não conseguiu fazer nada e agora que as coisas estão difíceis foi incapaz de tomar uma decisão, como faria um verdadeiro líder”, critica Rouli, de 35 anos, funcionária numa empresa de telemcomunicações. “O mais grave é que o povo está cada vez mais dividido. Qualquer dia, estamos à beira de uma guerra civil. A História diz-nos que esse risco é real”, teme.

Grafiti na capital grega

Grafiti na capital grega

ORESTIS PANAGIOTOU / EPA

Dionisis Vlachoyiannis, de 50 anos, partilha o receio de Rouli. Além do medo de um conflito interno, a proximidade de países com grande instabilidade, como o Egipto ou a Turquia, também o assusta. “Temos fronteiras difíceis e uma proximidade perigosa com alguns países. Precisamos da proteção da União Europeia. Foi graças a ela que conseguimos consolidar a paz e a estabilidade democrática. Sem ela, ninguém sabe o que poderá acontecer.”

O primeiro-ministro Alexis Tsipras, eleito há pouco mais de cinco meses nas eleições de 25 de janeiro, convocou um referendo para o próximo domingo, cujo resultado ditará se o país aceita ou não o projeto de acordo proposto pelos credores internacionais. Tsipras já afirmou que deixará o Executivo, em caso de vitória do sim. “Se os gregos quiserem escolher ficar sob os memorandos daqui para a frente, respeitaremos a sua decisão, mas não poderemos servir esse mandato”, afirmou, numa entrevista televisiva, reforçando que a consulta popular diz apenas respeito às medidas adicionais de austeridade previstas na proposta do Eurogrupo e não à permanência da Grécia no euro.

O programa internacional de assistência financeira à Grécia terminou esta terça-feira, sem que tenha havido um acordo quanto aos termos de um eventual prolongamento. O Governo grego emitiu entretanto um comunicado, confirmando que irá pedir uma extensão de dois anos do programa de resgate, utilizando os fundos do Mecanismo Europeu de Estabilidade.

Através do comunicado, Tsipras afirma que o Governo “continuará a tentar conseguir um acordo viável dentro do euro" e garante que a Grécia “se mantém na mesa de negociações”.

                 

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