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“Disse a mim mesmo que não ia ceder ao pânico, mas falhei. Fui levantar dinheiro”

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Milos Bicanski / Getty Images

Em Atenas, o sentimento geral é de confusão e incerteza face ao referendo proposto por Alexis Tsipras. As sondagens dão uma provável vitória ao 'sim', aceitando a austeridade, mas os gregos continuam a levantar os seus depósitos e a desconfiar das decisões de Bruxelas. Há quem tenha medo e quem se sinta orgulhoso. Há quem sinta tudo isto ao mesmo tempo. "Só espero que tudo corra bem no final", desabafa Ilias Psimoulis, um grego ouvido pelo Expresso 

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

Ilias Psimoulis estava com alguns amigos, colado à televisão, quando o primeiro-ministro grego Alexis Tsipras se dirigiu aos gregos. Era uma da manhã em Atenas quando Tsipras disse aos microfones que as propostas dos credores violavam as regras europeias e tinham como objetivo "a humilhação de todo um povo". Por isso, rematou, "cabe agora ao povo grego decidir", anunciando um referendo para aprovar ou rejeitar as propostas dos credores oficias. 

"Ficámos em choque", conta Ilias, que diz ter sido totalmente surpreendido pela decisão de Tsipras. "É para votar sobre um acordo? É para votar sobre o euro?", interrogavam-se o engenheiro informático e os amigos, que ficaram a discutir o tema até altas horas da noite, passeando até pelas ruas de Atenas para ver o que podia acontecer. A confusão reina entre os gregos, que não compreendem ao certo o que lhes está a ser pedido: "Vou ser sincero: não confio inteiramente no meu Governo", confessa Ilias por telefone ao Expresso. "Confio nas suas motivações, mas não nos seus métodos." 

A principal dúvida que paira no ar é no que estarão exatamente os gregos a votar no dia 5. O Executivo do Syriza garante que acatará a decisão, caso o 'sim' seja vencedor, o que coloca a questão: irá aplicar um programa com que não concorda? E estará algum programa em cima da mesa ainda, de facto? Christine Lagarde, diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI) diz que não. "O acordo financeiro europeu expira no dia 30 de junho. Por isso, pelo menos do ponto de vista legal, o referendo refere-se a propostas e acordos que já não são válidos", declarou este domingo Lagarde à BBC. 

"Não sabemos bem qual é a pergunta e qual é o acordo", resume Ilias. Para além disso, muitos gregos sentem que o Governo do Syriza não cumpriu totalmente o seu programa eleitoral de rompimento com a austeridade, ao apresentar propostas que incluíam aumento de impostos e de contribuições sociais. "Eles também tiveram parte nisto. É austeridade versus austeridade, por isso... Estamos muito confusos", confessa o grego que, no entanto, aponta sobretudo o dedo aos representantes da zona euro e do FMI: "Sinto que nos últimos quatro, cinco dias, nos querem mesmo pôr fora", desabafa, queixando-se igualmente das ideias feitas sobre a preguiça dos gregos, que crê terem sido fomentadas por líderes europeus. 

Na fila para o multibanco 
Na sequência do anúncio de Tsipras, na madrugada de sábado, as filas para levantar dinheiro nas caixas multibanco foram-se multiplicando por vários pontos da Grécia. As informações iniciais dos correspondentes no local davam conta de zonas de Atenas com filas longas e outras zonas, não-residenciais ou em locais menos afetados pela crise, registavam caixas multibanco sem ninguém. 

Mas à medida que o fim de semana avançava e as novidades se sucediam - com a Grécia a não estar presente na segunda parte da reunião do Eurogrupo, no sábado, ou o Banco Central Europeu a não aumentar o teto da liquidez aos bancos gregos, no domingo - a situação ia-se tornando mais instável. 

Domingo de manhã, um dos enviados do jornal "Guardian" descrevia o cenário em Atenas da seguinte maneira: "Filas de carros à espera nas bombas de combustível e supermercados a registar um maior volume de vendas, com os gregos a comprarem à dúzia para estarem prevenidos em caso de crise. No entanto, no centro e nas zonas mais na moda, há um certo ar irreal de normalidade." 

Para o grego comum, a situação está longe de ser normal. "Disse a mim mesmo que não ia ceder ao pânico, mas falhei", confessa Ilias. "Acabei por levantar dinheiro", diz, garantindo no entanto que retirou apenas uma quantia "confortável" e não todas as suas poupanças. Segundo dados do Banco da Grécia, os depósitos gregos terão reduzido em 30 mil milhões de euros entre janeiro e maio deste ano - um valor que terá certamente aumentado bastante, depois dos acontecimentos dos últimos dias. 

"Um beco sem saída" 
Também a situação política interna na Grécia está longe da estabilidade, depois de a oposição ter recusado apoiar a convocação de um referendo. O Parlamento grego esteve reunido ao longo de todo o dia de sábado para discutir a questão, com saídas abruptas de deputados da Nova Democracia (ND, centro-direita) e acusações de "inconstitucionalidade" pelos socialistas do Pasok. Já Alexis Tsipras garantiu que a Grécia não será transformada numa "colónia de dívida".  

Chegados à votação, por volta das três da manhã (uma em Portugal), o referendo foi aprovado por 178 votos em 300, contando com o apoio dos partidos do Governo - Syriza e Gregos Independentes (ANEL) -, mas também dos neo-nazis da Alvorada Dourada.  

Contudo, da esquerda à direita, nenhum dos partidos está absolutamente confortável na posição em que se encontra, como explicou ao Expresso o especialista grego em ciência política, Chrisanthos Tassis: "A aliança governamental do Syriza e do ANEL não consegue apoiar um acordo com melhores termos do que as propostas avançadas. Mais do que isso, não consegue garantir ao povo grego que uma rota fora da União Europeia e do euro é uma escolha segura." 

Por outro lado, diz o professor universitário, a ND, o Pasok e o To Potami defendem a permanência no euro com um melhor acordo, mas "não dizem a verdade: este acordo [dos credores] é do género 'pegar ou largar'", resume Tassis, concluindo que a sociedade grega está assim "num beco sem saída". 

Ficar ou não no euro, eis a questão
Com as negociações com os credores oficiais interrompidas e os acontecimentos a precipitarem-se nas últimas horas, o referendo do próximo dia cinco pode bem tornar-se indiretamente numa decisão sobre a permanência da Grécia na zona euro. "Essa é a grande questão entre nós nas últimas horas", resume Ilias. "Temos medo de ficar sozinhos. Mas ao mesmo tempo, isto é uma verdadeira união? O que tem um búlgaro - ou um português, por exemplo - em comum com um alemão?" 

A forma como a pergunta for enquadrada pode ser determinante para o sentido de voto da maioria dos gregos. Ilias crê que vai remar contra a maré no dia cinco, quando preencher o boletim de voto: "Se for para decidir se ficamos dentro, voto 'não', mesmo com a maior parte das pessoas a votar 'sim'. Acho que é preciso enviar uma mensagem ao mundo para mostrar que isto não está correto." O engenheiro informático diz sentir-se confuso, mas não consegue evitar uma ponta de orgulho, como ele próprio define. "Somos os primeiros a falar pelo povo, não pelos políticos ou os mercados", diz. 

As sondagens na Grécia têm revelado que a maior parte da população quer a tudo o custo manter-se na moeda única. Dois estudos publicados este domingo nos jornais "Proto Thema" e "To Vima", acerca de um possível referendo, dão a vitória ao 'sim' (valores entre os 47% e os 57%). Mas as sondagens foram realizadas antes do anúncio oficial de Tsipras, ou seja, antes de o referendo se tornar uma realidade, da Grécia ter ficado de fora de uma reunião do Eurogrupo e da liquidez dos bancos estar cada vez mais em causa. 

"Penso que o resultado de um referendo vai ser contra as propostas do Governo e a favor do 'sim'. Isso significa que a Grécia vai manter-se na UE a tudo o custo", analisa o professor Tassis, que alerta para o receio "realista" dos gregos de que, de uma forma ou de outra, "as condições de vida vão piorar". "O medo vai equivaler a um voto no 'sim' no referendo. O orgulho vai equivaler a um voto no 'não'. E há muitas pessoas a sentirem-se confusas. A situação aqui é difícil, mas até agora está a ser levada com dignidade e sem pânico", realça. 

"Tudo vai acabar bem", garante Ilias, aligeirando o tom de voz, mais a tentar convencer-se a si próprio do que a nós. "Não apenas para os gregos, porque isto pode influenciar muito mais pessoas...", diz, largando um suspiro. "Só espero que tudo acabe bem para toda a gente." 

  • Começou corrida ao "multibanco" na Grécia

    Logo que o gregos ouviram o primeiro-ministro anunciar na televisão um referendo sobre as propostas dos credores oficiais, saíram para a rua em mais uma corrida às caixas automáticas para levantar dinheiro vivo