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Grécia e credores: onde há uma vontade, há um caminho?

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Mural em Atenas, onde o euro sangra

YANNIS BEHRAKIS / Reuters

Reuniões? Houve várias. Ultimatos? Alguns. Novidades? Praticamente nenhumas. Relato de um dia louco em Bruxelas

Foi outro dia longo e intenso, porém infrutífero. Pelo menos do ponto de vista do objetivo central, o acordo entre gregos e credores. Trata-se da quarta tentativa falhada em oito dias, todos eles marcados por avanços e otimismos moderados, por recuos e pessimismos desconfiados. 

As negociações foram retomadas às 6h desta quinta-feira (5h em Lisboa) entre as equipas técnicas da Comissão Europeia (BCE), Banco Central Europeu (BCE) e Fundo Monetário Internacional (FMI), após duas horas de um encontro entre Alexis Tsipras e os líderes dos três organismos - que terminou à 1h15 sem consenso -, tendo ficado decidido dar continuidade às discussões.

O comissário europeu dos Assuntos Económicos, Pierre Moscovici, que na véspera - durante a reunião noturna - se mostrava mais otimista, garantindo que os pontos de vista da Grécia e dos credores se estavam a aproximar -, renovou esta quinta-feira de manhã os apelos ao Executivo helénico. "Onde há uma vontade, há um caminho", escrevia Pierre Moscovici no Twitter. 

O presidente do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem, garantia por seu lado que cabia aos gregos apresentarem novas propostas ou aceitarem a proposta dos credores que estava sobre a mesa. Já o ministro grego das Finanças, Yanis Varoufakis, voltava a afirmar que ambas as partes iriam encontrar em breve uma "solução benéfica para todos", lamentando a última proposta apresentada pelos credores, que exigiam mais 2,3 mil milhões de euros em medidas de austeridade, nomeadamente através da reforma do sistema de pensões e de aumento do IVA e do IRS, segundo avançou o jornal "Wall Street Journal".

Do lado grego ainda circulavam ecos críticos da reunião noturna com os credores. Nikos Fillis, deputado do Syriza, acusou as instituições de estarem a chantagear a Grécia com a sua proposta:  "A pretensão dos credores de trazerem medidas aniquiladoras para cima da mesa mostra que a chantagem à Grécia está a atingir o clímax", disse Nikos Fillis à Mega TV, citado pela Reuters.

O ministro grego do Trabalho, Panos Skourletis, sinalizava por seu turno que a proposta dos credores omitia em parte a questão da dívida: "Não se pode alcançar um acordo sem referência substancial e definição dos passos específicos sobre a questão da dívida", declarou o governante à estação pública grega ERT, que reabriu em meados deste mês.
"Nada pode ser excluído em relação ao sucesso ou não de um acordo", acrescentou.

Por volta das 9h30, o site do "Financial Times" avançava que os credores tinham feito um ultimato à delegação helénica, dando até às 11h em Bruxelas (10h em Lisboa) para apresentarem uma proposta que pudesse ser discutida em conjunto pelos ministros das Finanças da zona euro na reunião do Eurogrupo agendada para as 12h.

Críticas dentro do Syriza

A pressão aumentava para o Executivo de Alexis Tsipras e o descontentamento também entre vários membros do Syriza. Dimitis Papadimoulis, eurodeputado do partido, foi umas das vozes que se insurgiu contra o ultimato dos credores, mostrando desconfiança relativamente à medida. "[Os credores] poderão estar a servir outros interesses."

Entretanto, a negociação ficava morna. Foi divulgado que seriam apresentadas duas propostas na reunião do Eurogrupo: uma helénica e outra dos credores. "O jogo de atirar as culpas torna-se uma tarefa mais difícil agora", defendia o analista grego Yannis Koutsomitis, no Twitter.

A Reuters noticiava também que a Grécia tinha solicitado ao BCE a manutenção do montante da linha de liquidez de emergência, a ELA. 

À chegada à reunião do Eurogrupo, Jeroen Dijsselbloem confirmava que ainda não havia acordo, faltando ainda muito trabalho pela frente: "A única coisa que apresentámos é o que as instituições acordaram. Não temos o consenso grego. Temos de ouvi-los", disse o líder do Eurogrupo.

O ministro alemão das Finanças, Wolfgang Schäuble, mostrava-se ainda mais pessimista, falando num "retrocesso" nas negociações por parte da delegação helénica, enquanto o seu homólogo finlandês Alex Stubb apontou para "diferenças significativas" entre ambas as partes. O encontro ainda não tinha começado e o desfecho estava praticamente traçado.

A reunião do Eurogrupo acabou suspensa pouco depois de ter sido iniciada, à hora do almoço, porque os ministro das Finanças do euro aguardavam novas propostas gregas - Yanis Varoufakis entregou meia hora antes um documento que não foi ao encontro da perspetiva das instituições credoras. Foi logo retomada até ser confirmado oficialmente que estava dada por terminada - é provável que haja mais no sábado.

"É tudo por hoje. As instituições e a Grécia vão continuar a trabalhar. O Eurogrupo volta a reunir-se, mas não hoje", escreveu o ministro das Finanças finlandês, Alex Stubb, no Twitter. 

Jeroen Dijsselbloem confirmava pouco depois que o encontro estava concluído, mas com um recado para Atenas. "A porta continua aberta para as autoridades gregas aceitarem as propostas das instituições que estão sobre a mesa." O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, preferiu ir aos clássicos: "O trabalho está em andamento e ainda pode durar muitas horas. Mas eu acredito que, ao contrário das tragédias de Sófocles, esta história vai ter um final feliz".