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Do “conto de crianças” ao “eixo contra Atenas”: as críticas do governo de Passos, os reparos do executivo de Tsipras

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Manifestação em Atenas contra a austeridade, em fevereiro de 2015

Reuters

Tsipras lamentou que os credores nunca tenham feito a Portugal e à Irlanda o que andam a fazer à Grécia. A austeridade que aproximou outrora os três países é a mesma que os tem afastado muitas vezes nas declarações públicas dos seus governantes. Retrato do pingue-pongue entre o Executivo de Passos e o de Tsipras

Não foi uma, nem duas, nem três, mas várias as vezes em que os governos grego e português trocaram acusações ou observações desde que o Syriza foi eleito. Esta quarta-feira, Alexis Tsipras lamentou que os credores não tenham aceitado as últimas propostas do seu Executivo e lamentou o tratamento diferenciado dos credores: "A não aceitação de medidas equivalentes nunca aconteceu antes. Nem com a Irlanda nem com Portugal", escreveu o chefe do governo grego no Twitter.

Dos dois lados foram surgindo declarações críticas, respostas e contrarrespostas. Tudo começou um dia depois de Alexis Tsipras ter sido eleito primeiro-ministro da Grécia: a 26 de janeiro,  Passos Coelho apelidou de "conto de crianças" a ideia de que "é possível um que um país, por exemplo, não queira assumir os seus compromissos, não queira pagar as suas dívidas" e depois pretenda "aumentar os salários, baixar os impostos e ainda ter a obrigação de, nos seus parceiros, garantir o financiamento sem contrapartidas".

O primeiro-ministro português chamava assim a atenção da Grécia para a necessidade de o país cumprir com os compromissos da zona euro: "Sem essas regras, a Europa desintegra-se", insistiu Passos.

Em resposta, um assessor do ministro grego das Finanças Yanis Varoufakis, citado pelo "Diário Económico", afirmou que "os contos de crianças trazem sempre esperança."

Passos Coelho não se arrependeu das suas palavras e continuou a defender a tese do "conto de crianças" durante outras intervenções. A 4 de fevereiro, instado a comentar o novo programa político grego, o primeiro-ministro voltou sustentar a necessidade de a Grécia honrar os seus compromissos e de não se esquecer que tem sido beneficiado face a outros países com mais tempo para pagar a dívida e juros mais baixos. Garantiu ainda que Portugal está entre os países que mais ajudaram a economia helénica: "Ainda no ano passado demos 75 milhões de euros", destacou o primeiro-ministro aos jornalistas, à margem de uma visita à Associação Empresarial do Baixo Ave (AEBA), na Trofa.

"Não existe no mundo nenhum sistema em que o país tenha a dívida que entende e que possa ter mais dívida sem que os seus credores digam que a dívida não pode ser paga. Isso não existe em lado nenhum lado, isso é uma ideia de um conto de crianças. Não é isso que está em causa na Grécia, nem em nenhum país", acrescentou.

Na mesma altura, a deputada Marisa Matias, do Bloco de Esquerda, revelou que nas conversas que mantinha com elementos do Syriza era transmitida a ideia de que "os mais duros estão a ser Espanha e Portugal" nas negociações no Eurogrupo.

Um dos principais pontos de tensão entre os dois governos foi a reunião do Eurogrupo de 20 de fevereiro, onde a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, e o seu homólogo espanhol, Luis de Guindos, terão colocado alguns obstáculos a um consenso, de acordo com a visão helénica.

"É uma pergunta difícil, mas há uma coisa que são boas maneiras. A ministra portuguesa e o ministro espanhol são meus colegas no Eurogrupo. Reconheço que têm as suas próprias prioridades políticas e foi claro que estão motivados por estas prioridades. Eu respeito isto", amenizou Varoufakis na altura, quando questionado por um jornalista sobre um eventual mal-estar com os governos ibéricos. 

Manifestação de apoio à Grécia em Lisboa, esta segunda-feira

Manifestação de apoio à Grécia em Lisboa, esta segunda-feira

RAFAEL MARCHANTE / Reuters

"Eixo ibérico contra Atenas"

Pouco depois, Alexis Tsipras ia mais longe nas suas declarações, acusando mesmo a Península Ibérica de formar um "eixo contra Atenas", que teria ficado patente na reunião extraordinária do Eurogrupo. 

"Há um eixo de poderes, liderado pelos governos de Espanha e de Portugal, que, por motivos políticos óbvios, tentou levar a Grécia para o abismo durante todas as negociações. O seu plano era e é desgastar-nos, derrubar o nosso Governo e levá-lo a uma rendição incondicional antes que o nosso trabalho comece a dar frutos e antes que o exemplo da Grécia afete outros países, principalmente antes das eleições em Espanha", afirmou Tsipras numa reunião do comité central do Syriza, que decorreu a 28 de fevereiro.

Estas acusações por parte do Executivo grego levaram os governos português e espanhol a apresentar uma queixa em Bruxelas. Na altura, a Comissão Europeia tentou pôr água na fervura e terminar as trocas de acusações políticas, sublinhando que o importante "é construir pontes" e "implementar as reformas que a Grécia precisa de forma rápida e determinada". 

Em entrevista à TVI, a ministra das Finanças, Maria Luís Albuquerque, assegurou que o Governo português não se opôs ao acordo alcançado entre a Grécia e o Eurogrupo, tendo pedido apenas para que fosse divulgada a todos os membros do Eurogrupo a avaliação das medidas apresentadas pelo Governo grego.

A 21 de março, o dirigente do Syriza Costas Zachariadis defendia em Lisboa, durante um comício organizado pelo Bloco de Esquerda, que Passos Coelho era "um aliado do governo alemão", à semelhança de Mariano Rajoy.

"Jogo inadmissível"

Durantes meses e meses de negociações com os credores e no contrarrelógio para o fim do resgate grego, a pressão foi aumentando, com o Executivo helénico a insistir que a saída da Grécia do euro seria "o princípio do fim da zona euro". No passado dia 6 de junho, Alexis Tsipras defendeu em entrevista ao jornal italiano “Corriere della Sera” que a Grécia é apenas um pequeno problema na zona da moeda única.

"Se os líderes políticos europeus não conseguem lidar com o problema da Grécia, que representa 2% da economia, como é que os mercados vão reagir a problemas de países muito maiores, como Espanha e Itália – cuja dívida pública é de dois mil milhões de euros?”, questionou.

Cansado com o impasse grego, o Governo português insistiu que o Executivo de Alexis Tsipras faz "chantagem" aos credores, advertindo ainda para o risco de uma rutura com Atenas: "É um jogo inadmissível", disse ao Expresso Diário fonte governamental no passado dia 16 de junho, frisando que as pessoas se têm deixado "embalar pelo conto do Syriza". 

Passos Coelho defendeu por seu turno, na última sexta-feira, que os bancos centrais da zona euro e do Banco Central Europeu devem preparar uma solução conjunta para uma eventual saída da Grécia da zona da moeda única e que os países que já cumpriram os programas de ajustamento - como Portugal - estão hoje mais fortes para evitar uma situação de contágio. "[A saída da Grécia da zona euro] não é algo que coloque o euro em risco ou afete países como Portugal, Irlanda, Espanha ou Itália. Penso que a zona euro, na sua totalidade, tem hoje mecanismos muito mais fortes para estar apta a ajudar todos os países numa situação como esta", disse à Reuters o chefe do Governo. 

Já esta terça-feira, o primeiro-ministro considerou que a cimeira extraordinária do euro foi importante para os líderes dos Estados-membros reafirmarem o "compromisso político" para a necessidade de um "acordo rápido" com a Grécia.