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A cólera da França, que pede “explicações rápidas” aos EUA sobre escutas a Presidentes

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BENOIT TESSIER / Reuters

WikiLeaks revelou esta quarta-feira que Hollande e os dois antecessores no Eliseu foram escutados pelos norte-americanos. Embaixadora dos EUA foi convocada ao MNE francês. Ainda assim, a zanga pode não durar muito

O primeiro-ministro francês falou em “cólera” e “indignação” na tarde desta quarta-feira, na Assembleia Nacional (AN). Muito formal, Manuel Valls leu um discurso escrito e pediu, com toda a solenidade, um “código de boa conduta” na espionagem entre países aliados e ainda “explicações rápidas” e “reparações dos estragos” causados pelas revelações sobre as escutas dos três últimos Presidentes franceses e outras personalidades pelos serviços secretos americanos.

A sessão na AN decorreu poucas horas depois da reunião de um Conselho de Defesa de emergência no Eliseu, do qual saíram condenações e exigências idênticas às proferidas por Valls. As informações divulgadas “são violações muito graves do espírito de confiança que nos deve animar”, disse o chefe do Governo.

Num comunicado, o Presidente François Hollande lembrara, ao fim da manhã, as promessas feitas pelas autoridades americanas, em 2012 e 2013, sobre o fim da de espionagem de países amigos e acrescentava: “A França não tolerará nenhuma prática que ponha em causa a segurança e a proteção dos seus interesses”. As revelações sobre as escutas foram consideradas pelo Eliseu como sendo “factos inaceitáveis”.

O tom público muito duro das reações oficiais francesas às revelações do WikiLeaks sobre as escutas é, claramente, o de um país zangado com os Estados Unidos e, ao fim do dia, a embaixadora norte-americana, Jane Hartlley, foi convocada para uma reunião no Quai d’Orsay (Ministério francês dos Negócios Estrangeiros).

A zanga e o incidente diplomático poderão não demorar muito tempo, porque os franceses também terão certamente telhados de vidro na espionagem em diversos países estrangeiros amigos. Mas as autoridades francesas agiram esta quarta-feira de forma a marcar de modo claro o seu descontentamento. 

Elisabeth Guigou, presidente socialista da comissão dos Negócios Estrangeiros, disse mesmo que a embaixadora americana poderá ser convidada a dar explicações sobre o assunto aos deputados franceses na Assembleia Nacional, na próxima semana.

Toda a oposição alinhou com as críticas do poder executivo aos americanos e alguns pediam mesmo medidas de “retorsão”. 

Pelo seu lado, os media franceses passaram todo o dia a acusar a Embaixada norte-americana, localizada numa das esquinas da Praça da Concórdia, a 400 metros do Palácio do Eliseu, de ter instalada, desde há pelo menos quatro anos, uma verdadeira central de espionagem e de escutas no último andar do seu edifício.

François Hollande falou durante a tarde desta quarta-feira com o seu homólogo americano Barack Obama e, em comunicado, o Eliseu indica que este lhe reiterou "com firmeza" e "sem ambiguidade" o seu compromisso de 2013 e de 2014, de "terminar com as práticas que teriam tido lugar no passado e que eram inaceitáveis entre aliados".

Na mesma nota, a presidência francesa acrescenta que responsáveis franceses dos serviços secretos se deslocarão proximamente a Washington "para aprofundar a cooperação". 

De acordo com as revelações do WikiLeaks, divulgadas em França pelo jornal digital Mediapart e pelo diário "Libération", a NSA, agência dos serviços secretos americanos, efetuou escutas dos Presidentes Jacques Chirac, Nicolas Sarkozy e François Hollande entre 2006 e 2012, bem como de assessores, ministros e embaixadores.