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Da falta de “adultos na sala” às “bases sólidas”: quatro dias fizeram assim tanta diferença para a Grécia?

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Gregos saíram à rua na quinta-feira imediatamente a seguir ao falhanço no Eurogrupo

YANNIS KOLESIDIS / EPA

Eurogrupo, 18 de junho, acordo falhado: a reunião acabou mal e com críticas severas à Grécia. Eurogrupo, 22 de junho, novamente acordo falhado: a reunião acabou tranquilamente, com elogios às novas propostas gregas e algum otimismo. O que mudou: a Grécia, os líderes europeus, ambos?

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

Quatro dias podem fazer muita diferença numa negociação? Parece que sim, pelo menos a avaliar pelo tom das declarações dos líderes europeus esta segunda-feira, após a reunião do Eurogrupo. Se em termos de propostas concretas ainda não é possível saber em que ponto estão as conversações, pelo menos é certo que a tensão parece estar bastante mais reduzida. 

Senão vejamos: após o último encontro dos ministros das Finanças da zona euro, a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Christine Lagarde, brindou os jornalistas com declarações afiadas, falando na necessidade de ter "adultos na sala" para poder chegar a um acordo com os responsáveis gregos.

Possivelmente em reação às declarações de Alexis Tsipras da semana passada, que acusou o FMI de ter "responsabilidades criminais" na situação grega, Lagarde não poupou nas críticas. Mas não foi a única. Também Jeroen Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo e uma voz habitualmente crítica das posições gregas, fez avisos sérios: "A Grécia precisa de políticos que estejam preparados para dizer a verdade ao seu povo", declarou na quinta-feira.

Um tom que contrasta em muito com a conferência de imprensa de Dijsselbloem e Pierre Moscovici, comissário europeu dos Assuntos Económicos, desta segunda-feira. Apesar da reunião ter sido inconclusiva, Moscovici falou numa "base sólida", referindo-se às propostas de Atenas, dizendo que agora apenas é necessário mais tempo para analisar as questões técnicas e mais trabalho.

Também o holandês Dijsselbloem resistiu a lançar farpas aos gregos. Quando confrontado com a troca de propostas gregas na noite passada, o presidente do Eurogrupo desvalorizou por completo a polémica (que tinha sido levantada por alguns ministros, como o irlandês Michael Noonan): "Sim, havia duas versões, uma da noite passada e outra desta manhã. Mas eram muito semelhantes, por isso isto não é um grande problema".

Os níveis de agressividade baixaram muito, como analisa Vincenzo Scarpetta, do think tank "Open Europe", que destaca a diferença desta conferência de imprensa com as posições do Eurogrupo de Riga, a 24 de abril. Nessa altura, alguns jornais noticiaram que os líderes europeus apelidaram o ministro das Finanças Yanis Varoufakis de "amador" e "jogador", entre outros termos.

No entanto, nem tudo são rosas. Christine Lagarde, que há quatro dias exigia "adultos na sala", não se pronunciou esta segunda-feira. Segundo o Eurogrupo, a diretora-geral do FMI e Klaus Regling, responsável do Mecanismo Europeu de Estabilidade, iriam estar presentes na conferência de imprensa, mas acabaram por não aparecer.

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    Para que se informe e então avalie, para que se questione e depois o questione, para que possa elogiar ou criticar, caso pretenda lamentar ou exaltar, o Expresso traduziu na íntegra o que Varoufakis leu e apresentou na reunião de Eurogrupo de quinta-feira, que acabou como começou: em desacordo. A leitura é longa, mas recomendável e necessária para se perceber o que a Europa rejeitou e o que a Grécia pediu

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    Ele esclarece o casaco de couro e a gravata ausente: “Quem usa os melhores fatos Armani? Os mafiosos. Isso faz deles gente respeitável?”. Mas esse é o Varoufakis rock star, porque depois há o outro, governante de um país no purgatório - Tsipras avisou-o de antemão. “Disse-me: 'Ouve, vão tentar abater-te, abrir brechas entre nós, porque tu és a lebre. Se te atirarem abaixo, depois lançam-se a mim’.” Yanis Varoufakis, ministro grego das Finanças, concedeu esta entrevista no início de junho, mês que tem sido marcado pelo impasse nas negociações entre Atenas e as instituições europeias. “Quando aprender as maneiras dos políticos, demito-me. Por outras palavras, quando começar a mentir e a não chamar espada a uma espada, deixei de ser útil.” E tem um recado: “Quem se entusiasma com o poder político devia ser impedido de o ter”