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“Este é o pior crime de ódio que o país viu em muito tempo”

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O suspeito do crime foi transportado para a prisão de Charleston sob um forte dispositivo policial

FOTO JASON MICZEK/REUTERS

A América permanece em choque com o homicídio de nove pessoas numa igreja. O governador da Carolina do Sul, estado onde tudo aconteceu, quer a pena de morte para o responsável; Obama diz que a América é o único país desenvolvido onde isto continua a acontecer. O suspeito, de 21 anos, já está indiciado pelos crimes

Dylann Roof, que as autoridades acreditam ser o homem que assassinou a tiro nove pessoas na Igreja Emanuel Metodista Episcopal Africana de Charleston, já foi formalmente acusado pelas autoridades. Fontes policiais citadas pela CNN referem ainda que o jovem de 21 anos confessou os crimes, ocorridos quarta-feira. "Queria começar uma guerra racial", dizem os investigadores.

O suspeito e agora arguido foi detido quinta-feira pelas autoridades na cidade de Shelby, a cerca de 321 quilómetros de Charleston. Foi uma florista que alertou a polícia para a presença de Roof em Shelby. 

"Por volta do meio-dia, quando estava na loja, olho para o lado e apercebo-me de que estaria ali o suspeito que aparecia nas imagens divulgadas pelas autoridades. Mas pensei 'não, estou paranoica - o crime nem aconteceu aqui'", contou à CNN Deborah Dills. Para acabar com qualquer dúvida, a florista resolveu chamar o seu patrão, que confirmou tratar-se do rapaz suspeito, que estava ao volante de um Hyundai preto. 

Após a detenção, foi transportado para o estabelecimento prisional de Charleston sob fortes condições de segurança. Sabe-se ainda pouco sobre Dylann Roof, mas segundo testemunhas que estavam na igreja onde o tiroteio aconteceu, o jovem assistiu durante cerca de uma hora à sessão de leitura da Bíblia, sentado ao pé do pastor. Pouco depois, levantou-se e disse que estava ali para "matar negros", puxando uma arma do bolso e desatando a disparar indiscriminadamente. 

As autoridades ainda estão a investigar se Dylann Roof tem ligações a grupos extremistas, mas já informou que o jovem tinha sido detido em fevereiro deste ano por posse de suboxone, um fármaco que serve tratar dependências de drogas. No perfil de Facebook de Dylann Roof há uma fotografia em que o jovem surge vestido com um casaco com as bandeiras de dois antigos regimes supremacistas brancos na África do Sul e na antiga Rodésia (atualmente Zimbabué).

Um drama americano
Segundo a governadora da Carolina do Sul, Nikki R. Haley, tratou-se de um "crime de ódio absoluto" - e quer que o responsável seja punido com pena de morte. "Este é o pior crime de ódio que vi - e que o país viu - em muito tempo. Teremos que lutar contra isto e o responsável terá que ser altamente punido", disse a governadora em declarações à NBC.

Também o presidente norte-americano já condenou o episódio trágico e apelou aos cidadãos para substituírem a "coragem pela precaução", citando parte de um discurso de Martin Luther King de há 52 anos, quando quatro jovens negras morreram num ataque à bomba numa igreja em Birmingham. 

"Ainda não sabemos todos os factos, mas sabemos que uma vez mais pessoas inocentes foram mortas porque querem simplesmente semear o medo e a ameaça e não têm qualquer problema em ter em mãos uma arma. Em algum momento, nós, enquanto país, teremos que olhar para o facto deste tipo de crime não acontecer noutros países desenvolvidos. Cabe-nos fazer algo para evitá-los", declarou Barack Obama numa conferência de imprensa na Casa Branca, sublinhando que as lições desta tragédia devem ser tiradas por outras igrejas e outras cidades.

Ameaças de bomba
Apesar dos apelos à calma, a vida na cidade norte-americana de Charleston ainda não regressou à normalidade, dois dias depois do tiroteio na Igreja Emanuel Metodista Episcopal Africana. 

Esta quinta-feira, pelo menos três ameaças de bomba forçaram as autoridades a evacuar edifícios na cidade do estado da Carolina do Sul, incluindo igrejas onde decorriam vigílias em homenagem às vítimas do ataque. 

Fundada no século XIX por um escravo, a Igreja Emanuel Episcopal Africana constitui uma das mais antigas congregações negras no sul dos Estados Unidos, com um forte carga simbólica para os cidadãos locais. A comunidade afro-americana local diz que o ataque de quarta-feira à noite serve de exemplo extremo à discriminação diária que ainda sentem na pele. "Para eles [brancos], nós não merecemos o ar que respiramos", aponta Jareem Brady, um elemento da comunidade local, citado pelo "New York Times". 

O ataque de quarta-feira à Igreja Emanuel Metodista Episcopal Africana causou nove mortos: seis mulheres e três homens. Uma das pessoas morreu já no hospital. Entre as vítimas encontra-se Clementa Pinckney, pastor da igreja.