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Vaca Muerta. A terra onde as torneiras jorram chamas em vez de água

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Protesto da população Mapuche, em 2013, contra a exploração petrolífera nas suas terras em Vaca Muerta

Fabian Ceballos / AFP/ - Getty Images

"Vaca Muerta" é título de livro. E é também o nome de uma estranha zona no deserto da Patagónia, onde uma dormida num hotel de 2 estrelas custa 100 euros. Tudo por causa das gigantescas jazidas de petróleo que vão mudar o futuro da Argentina e dificultar o modo de vida dos Mapuches

A primeira frase da sinopse do livro dos dois Alejandros diz tudo sobre esta aventura na Patagónia argentina:  "Vaca Muerta é a maior reserva de petróleo não convencional e gás fora dos Estados Unidos". E é também a história de um brutal investimento na exploração petrolífera a três mil metros de profundidade que está a ser feita numa "extensão de trinta mil quilómetros quadrados", que equivalem à area de toda a Bélgica.  Um história que move milhões que ainda estão bem longe da população.

Até há pouco, Añelo, a terra mais próxima das jazidas, tinha pouco mais do que uma rua asfaltada e três mil habitantes. As previsões apontam para 30 mil residentes nos próximos 15 anos. Para já, a "riqueza do petróleo é bem-vinda", lê-se no diário espanhol "El Pais", mas atrás dela vêm problemas. "Milhares de homens solteiros com dinheiro, tempo livre e poucas opções para gastá-lo". Em pouco mais de dois anos, a população duplicou nesta outrora "cidade tranquila. Tem sido um tsunami. Nós não queremos ser um campo de petróleo com 10 mil homens, porque isso significa drogas, prostituição, jogos de azar. Daqui a 20 anos querermos ser uma cidade de 50 mil habitantes, mas para isso é necessário que os trabalhadores venham com as suas famílias", disse o prefeito de Añelo, Dario Diaz, ao "El Pais".


Aspeto geral da exploração das jazidas de Vaca Muerta em dezembro de 2014

Aspeto geral da exploração das jazidas de Vaca Muerta em dezembro de 2014

JUAN MABROMATA - AFP/Getty Images

As jazidas de Vaca Muerta, o tal território que é do tamanho da Bélgica, repartem-se por três províncias da Argentina, na zona mais próxima da fronteira com o Chile. A maior fatia fica em Neuquén. Mendoza e Rio Negro [onde fica a famosa estância de ski de Bariloche] têm as áreas mais pequenas da exploração.

O casino da capital da província de Neuquén já é o maior da Argentina. E a Argentina é uma terra de grandes casinos porque a população gosta de jogar. Ao longo das quase 500 páginas do livro "Vaca Muerta", os jornalistas Alejandro Bercovich e Alejandro Rebossio, analisam em detalhe este fenómeno de expansionismo económico e profunda mutação social. O desemprego em Neuquen caiu de 8% para 5%, mas ao mesmo a província tem um recorde de perfuradoras per capita. 

"O crescimento traz problemas, e esse é o [nosso] desafio", diz o prefeito ao "El Pais". O pequeno 'pueblo' de Añelo vai crescer muito porque é a terra mais próxima das jazidas. Pela estrada conhecida como 'rota do petróleo' transitam diariamente mais de 1500 homens e mulheres trabalhadores que percorrem cerca de 100 km desde Neuquén, porque Añelo não tem capacidade para alojar tanta gente. 


As torres mostram que há petróleo no deserto da Patagónia

As torres mostram que há petróleo no deserto da Patagónia

JUAN MABROMATA - AFP / Getty Images

O diário espanhol "El Pais" diz que já se "fala na iminente abertura de novos hotéis de luxo para executivos" do mundo  petróleo. Mas, por enquanto, o melhor hotel deste 'pueblo', é um "duas estrelas com 69 quartos" onde um quarto custa "1.050 pesos por noite (cerca de 100 euros)". O hotel está sempre cheio e houve habitantes de Añelo que venderam as "suas casas" às petrolíferas que precisavam de garantir alojamento aos trabalhadores. Mudaram-se para cidades distantes do 'pueblo' dos poços de petróleo com os bolsos recheados de pesos.

Certo, certo é que em novembro de 2011 se ficou a saber que esta área de xistos betuminosos, esconderia uma reserva de 927 milhões de barris, dos quais 741 milhões corresponderiam a petróleo não convencional e o resto a gás.

A "Argentina ainda precisa de enormes investimentos estrangeiros para abrir mais poços. Além da Chevron, que já explora 39 mil barris por dia, a [argentina] YPF já assinou contratos com a americana Dow e  a malaia Petronas", refere o "El Pais". Além disso, Cristina Kirchner assinou outros acordos com a chinesa Sinopec e a russa Gazprom. Para garantir que os investimentos vão ser feitos, o executivo de Buenos Aires diz que o barril vai ser pago acima do preço de mercado, por 77 dólares e não por 60.


Protesto da população Mapuche contra a exploração petrolífera nas suas terras. Em 2013

Protesto da população Mapuche contra a exploração petrolífera nas suas terras. Em 2013

Fabian Ceballos - AFP / Getty Images

A quebra no preço do ouro negro preocupa a Argentina mas as jazidas de Vaca Muerta têm reservas para, pelo menos, 40 anos. Por isso é que "o sonho de um boom petrolífero argentino" pode representar "corrupção e a ameaça de um desastre ambiental", escrevem os dois Alejandros no livro "Vaca Muerta", onde descrevem  "uma emocionante viagem (...) numa terra pioneira na técnica fracking".

Nesta aventura na terra de onde "saem chamas das torneiras em vez de água" há perdedores e ganhadores. E os grandes perdedores são os indígenas Mapuche, cujos protestos têm pouco eco perante o poder do petróleo.