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Não há acordo para a Grécia. “Temos de recomeçar o diálogo, mas com adultos na sala”

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JULIEN WARNAND / EPA

Reunião do Eurogrupo acabou como começou: num impasse. Yanis Varoufakis, ministro grego das Finanças, usou mais de meia hora para apresentar novas propostas - mas sem sucesso. À saída, Lagarde foi dura, como já tinha sido antes do encontro. Segunda-feira há cimeira extraordinária

Cátia Bruno

Cátia Bruno

Jornalista

A reunião do Eurogrupo terminou sem qualquer acordo relativamente à crise grega. A notícia foi dada por Valdis Dombrovskis, vice-presidente da Comissão Europeia, no Twitter. "Não há acordo no Eurogrupo. Sinal forte à Grécia para se envolver em negociações sérias", escreveu Dombrovskis, acrescentando que, no entanto, o Eurogrupo "continua preparado para se reunir novamente a qualquer momento". Já foi anunciado que haverá cimeira extraordinária dos chefes de Estado e governo da zona euro - foi marcada para segunda-feira.

O impasse permanece depois de uma reunião onde o ministro das Finanças grego, Yanis Varoufakis, acabou por apresentar uma lista de cinco páginas com algumas ideias. No entanto, tal não foi suficiente para conseguir um entendimento a nível político. 

A falta de acordo desmente assim por completo a notícia avançada pelo "Die Zeit" a meio da tarde. O jornal alemão escreveu, ainda com a reunião a decorrer, que os ministros da zona euro teriam proposto aos gregos um acordo de extensão do atual empréstimo até ao final do ano, sem envolvimento do Fundo Monetário Internacional. A notícia foi rapidamente classificada como um "sonhar acordado" por alguns representantes europeus e acabou por ser desmentida com o final da reunião, sem acordo para apresentar.

"Só podemos chegar a um acordo com diálogo e o que temos tido é pouco diálogo. Acho que temos de recomeçar um diálogo, mas com adultos na sala", afirmou Christine Lagarde à saída da reunião.

A líder do FMI já tinha sido particularmente dura antes do encontro: declarou que o FMI passará a considerar a Grécia um país falido caso o Estado helénico não pague os 1,5 mil milhões de euros devidos ao FMI até 30 de junho. Mais: segundo a agência Reuters, Lagarde frisa que não concederá nenhum "período de graça" aos gregos e que 30 de junho é a data final para o pagamento. 

Aparentemente, a diretora-geral do Fundo também não terá gostado do discurso de Alexis Tsipras no Parlamento grego, esta semana, onde acusou o FMI de ter "responsabilidade criminal" na situação grega. Segundo o correspondente do "El Mundo" em Bruxelas, Pablo Rodríguez, Lagarde cumprimentou Varoufakis esta tarde com um "a criminosa-chefe vem dizer olá". O ministro das Finanças grego terá pedido imediatamente desculpa.

Entretanto, o presidente do Eurogrupo também já se pronunciou. Jeroen Dijsselbloem, que tem sido dos mais céticos e críticos durante o processo negocial, referiu que o encontro foi monopolizado pela situação da Grécia e lamenta que tão pouco progresso tenha sido feito durante as negociações e que não haja "sinal de acordo". "A Grécia precisa de políticos preparados para ser verdadeiros com o seu povo."

Ainda assim, Dijsselbloem não dá tudo por encerrado. Apesar de "não haver muito tempo", diz que ainda há algum - mas "a bola está do lado grego". "Continuo a dizer que o cenário mais favorável para todos, mas só posso falar pela Comissão Europeia e pelo Eurogrupo, seria conseguir um acordo". Dijsselbloem adiantou ainda que talvez seja necessário que o Eurogrupo tenha de se reunir mais uma vez antes da próxima segunda-feira, dia de cimeira extraordinária da zona euro.

Nota ainda para o facto de o ministro das Finanças alemão, Wolfgang Schäuble, ter sido um dos primeiros a sair, mas evitando os jornalistas.

À entrada para o encontro do Eurogrupo, as declarações dividiam-se entre a esperança e o ceticismo. "Temos perdido muito tempo, mas eu acredito em milagres. Sou católico, por isso tenho de acreditar", afirmou Peter Kazimir, ministro das Finanças eslovaco e um dos primeiros a chegar à reunião.

Já as declarações do ministro das Finanças irlandês, Michael Noonan, foram no sentido oposto, ao dizer que não havia "otimismo". Noonan insinuou também que a Irlanda já teve discussões a alto nível sobre uma possível saída da Grécia da zona euro, apesar de reforçar, como os restantes colegas, que um acordo ainda é possível. 

Yanis Varoufakis, o ministro grego, prometeu à entrada que irá apresentar "ideias" na reunião e provocou a dúvida: iria a Grécia apresentar afinal novas propostas? Noonan reagiu a esse comentário inicial de Varoufakis com ceticismo: "Já ouvi as propostas do Yanis antes. Elas têm tendência a ser macroeconómicas por natureza, em vez de serem específicas. E estas propostas têm de ser específicas". 

Do lado alemão, ouviu-se falar em "otimismo", pela voz do ministro Wolfgang Schäuble. Mas, ao contrário de alguns colegas como o finlandês Alexander Stubb (que falou abertamente de um possível default grego), Schäuble foi comedido. Quando perguntado sobre os perigos de um Grexit, respondeu simplesmente que "não se deve falar sobre tudo em público". 

O comissário europeu dos Assuntos Económicos, Pierre Moscovici, optou pela referência histórica, dizendo que os líderes europeus esperam ouvir propostas gregas e evitar "uma nova Waterloo", numa referência aos 200 anos da batalha histórica, que se assinalaram esta quinta-feira.  

JULIEN WARNAND / EPA

  • Grande entrevista: as confissões, motivações e explicações de Varoufakis

    Ele esclarece o casaco de couro e a gravata ausente: “Quem usa os melhores fatos Armani? Os mafiosos. Isso faz deles gente respeitável?”. Mas esse é o Varoufakis rock star, porque depois há o outro, governante de um país no purgatório - Tsipras avisou-o de antemão. “Disse-me: 'Ouve, vão tentar abater-te, abrir brechas entre nós, porque tu és a lebre. Se te atirarem abaixo, depois lançam-se a mim’.” Yanis Varoufakis, ministro grego das Finanças, concedeu esta entrevista no início de junho, mês que tem sido marcado pelo impasse nas negociações entre Atenas e as instituições europeias. “Quando aprender as maneiras dos políticos, demito-me. Por outras palavras, quando começar a mentir e a não chamar espada a uma espada, deixei de ser útil.” E tem um recado: “Quem se entusiasma com o poder político devia ser impedido de o ter”